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Brancos no armário

Confira a crônica da semana

Por Mário Viana 5 jan 2018, 06h00 | Atualizado em 4 jul 2026, 22h55
Crônica Mário Viana Brancos no armário
 (Attílio/Veja SP)
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As primeiras semanas do ano transformam qualquer varal numa propaganda de sabão em pó. Só se vê roupa branca por tudo que é lado. São os ecos do réveillon que se perpetuam nos armários e guarda-roupas deste país-continente. E, conforme a vida passa, o armário ganha novos moradores branquinhos.

A não ser que você seja médico, enfermeiro ou pai de santo, roupa branca é sempre um elefante idem no cabide. Camisetas, polos e bermudas já cumpriram sua missão na hora de brindar com champanhe ou de pular as sete ondas. Agora, vão permanecer meses à espera de uma próxima tarefa.

A vida, entretanto, não é uma interminável festa de ano-novo. Nem você sai todas as noites para dançar em Ibiza — na ilha espanhola, as lojas de roupas parecem desconhecer a existência dos tecidos coloridos.

Mesmo que as sacerdotisas do mundo fashion proclamem que peças brancas são fundamentais no seu dia a dia, mantenha um pé atrás. E esteja sempre atento ao se sentar no bar, no cinema ou no ônibus. Roupa branca só significa paz no réveillon. Ao longo do ano, é muito tenso protegê-la dos ataques externos.

É claro que a gente insiste e dá mais uma chance. Vai trabalhar com a camisa branca justo no dia em que o pessoal resolve, de última hora, sair para jantar. O destino não economiza nas armadilhas: o grupo decide ir a um restaurante japonês. Não é preciso ser visionário para descobrir quem vai deixar o sushi cair com força no potinho de shoyu.

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Há uma atração fatal e incontrolável entre qualquer roupa branca e molhos de todo tipo. Além do de soja, os molhos ao sugo e à bolonhesa são pedidas certeiras no seu “dia de roupa branca”. Petiscos engordurados também, praticamente, se atiram da mesa direto para o corpo de quem pretendia voltar imaculado para casa.

A ciência bem que poderia comprovar por A mais B que o uso de calça branca em situações cotidianas estimula a formação de temporais. Preferencialmente quando você já está na rua, longe de qualquer abrigo. Se estiver perto de uma poça de lama, melhor ainda.

Difícil mesmo é encontrar o branco que combina mais com você. Pois é, o mercado inventou essa: há vários brancos, inclusive o off-white. Segundo os tradutores automáticos do inglês para o português, seria um fora-branco, o que torna a palavra ainda mais sem sentido.

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Na internet, descubro que o off-white na moda é uma invenção merecedora do Prêmio nobel. Se o branco-branco combina com tudo, especialmente no verão, o off-white é a cor do inverno, pois se trata de uma tonalidade mais fria, mais sujinha, digamos assim. É um branco pero no mucho.

E a coisa só complica. O branco não se contenta com o interior do armário e ganha o lado de fora. Experimente reformar sua casa e pintar as paredes de branco. A escolha do tom certo se transforma numa epopeia quando se navega nos catálogos de cores das grandes marcas de tinta. a cartela de brancos traz nomes intrigantes, como água com gás, teia de aranha, pipoca salgada e bala de coco. Pensa: o que é uma cor água com gás?

Fica realmente difícil decidir entre o abrigo polar para as paredes e o branco-casamento para as portas. Sério mesmo: dá saudade do tempo em que a única cor difícil de definir era o bucólico verde-água.

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