Copa do Mundo: confira as ruas de São Paulo que receberam pintura e decoração
No ânimo do mundial, moradores e instituições se mobilizam para a atividade tradicional
De quatro em quatro anos, uma tradição é passada de pai para filho na Rua Colastine, no Jardim Ubirajara, bairro da periferia na Zona Sul da cidade. Desde 1998, ano em que a França derrotou a Seleção Brasileira com três gols em uma final aguerrida no Stade de France, em Paris, moradores se reúnem na via com latas de tintas, pincéis e fitas na mão para pintar o asfalto e decorar os postes. “Eu tenho uma lembrança vaga dos dois primeiros anos, mas só comecei a participar da pintura em 2006. Este ano, fizemos em um impulso logo depois da convocação oficial. Animamos e fomos colocando o varal de fitinhas aos poucos”, conta Wesley Soares, de 32 anos, que mora na região desde a infância. Aproveitando o feriado de Corpus Christi, no começo do mês, os moradores fizeram um mutirão e desenharam a bandeira brasileira, o símbolo da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF, flâmulas de outros países que disputam o Mundial e penduraram um varal de fitas verdes, azuis, brancas e amarelas.
Foram quatro dias intensos para os cerca de cinquenta voluntários, que preencheram com tinta os traçados de Roberto de Souza, o Beto. “Eu trabalho com pintura de moto e sempre tive um dom para desenhar. Os riscos levaram uns trinta minutos cada”, diz Beto. Ele deixou a criatividade trabalhar na bandeira do México, que ganhou um toque pessoal: no lugar do brasão da águia engolindo a cobra, referência à lenda asteca de fundação da cidade de Tenochtitlán, o artista fez uma caveira mexicana. A alguns quilômetros dali, o campeonato mundial inspirou outros moradores da Zona Sul a dar asas à imaginação para embelezar seus bairros.
Em Heliópolis, a maior favela da capital, seis ruas estão ganhando símbolos e cores do Brasil graças à parceria com o Instituto Coral, organização sem fins lucrativos da marca de tintas que toca projetos sociais, com os institutos Pilões e Eli, entidades da própria comunidade, e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho. Desejo antigo da população, o projeto se concretizou graças à articulação de Augusto Oliveira e Cida Almeida, líderes comunitários. “A Coral doou as tintas e aprovou os desenhos com a gente. Foram dois dias de mutirão, um de limpeza e outro de pintura, com uns setenta voluntários da empresa participando”, lembra Cida.
A ideia inicial era colorir somente a Rua Maciel Parente, via com diversos bares e lanchonetes que se tornam pontos de encontro em dias de jogo. Mas, com a sobra de latas, a ação se espalhou por outras áreas do bairro, como a Rua Brasil. “Nestas, foram só os moradores que pintaram, mobilizando umas 100 pessoas”, compartilha Augusto. Uma delas foi Priscila Santos, que diz ter ficado com ciúmes dos vizinhos da Maciel Parente quando ainda se pensava que aquela seria a única via contemplada. “Foi bem gratificante para a comunidade as pinturas, o pessoal se alegrou muito. A gente se reunia para ter as ideias dos desenhos. Agora que tá tudo bonitão, a Seleção vai ter que ganhar”, brinca a moradora da Rua Brasil, agora devidamente enfeitada, à altura do nome que carrega.
No último sábado (13), Priscila e seus vizinhos vestiram as cores do Brasil para assistir à estreia da Seleção nos bares adornados de verde e amarelo. Na Rua Colastine, a decoração também animou seus moradores a dividirem o espaço público durante a partida. A programação incluiu colocar uma televisão na garagem de uma das casas. Lá, a população local se organizou para viabilizar a customização através de uma vaquinha que arrecadou 3 000 reais para a compra dos materiais. O mesmo movimento foi feito na Rua Capitão Siqueira Barbosa, na Parada Inglesa, que homenageia lendas do esporte e das histórias em quadrinhos, indo de Ayrton Senna ao Zé Carioca.
Em outras regiões da cidade, a Coral firmou parcerias com associações sociais e culturais do entorno para possibilitar as pinturas. Foi o caso da Rua Salgueiro do Campo, no Jardim Ibirapuera, onde a empresa já apoia o Bloco do Beco, entidade educacional e cultural do bairro, que idealizou e conduz o projeto Escadão Galeria, levando arte para as escadas e os becos da região. “A iniciativa ativa a nostalgia das pessoas, foi muito lindo ver as crianças e os adultos pintando juntos”, diz Arailda Carla Aguiar, presidente do Bloco do Beco, que organizou uma roda de samba depois do mutirão.
Fora da Zona Sul, a mesma instituição doou latas para ações no Itaim Bibi, onde um grupo de tatuadores realizou os desenhos. A ação, que começou na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, como parte da campanha “Coral Fortalece o Pintor”, hoje está presente em boa parte do país. É que com a repercussão em São Paulo e na capital fluminense, os pedidos de parceria se multiplicaram no site do Instituto Coral e nas redes sociais. “Começou a pipocar mesmo; hoje temos milhares de litros de tinta sendo compartilhados no Brasil inteiro. Fizemos até uma lata de edição especial para pintura de rua. Aqui em São Paulo está um movimento muito forte, tanto em ruas pequenas de bairro quanto nas vias de maior fluxo de comunidades, como foi o caso de Heliópolis. É muito bacana que em um país tão dividido algo assim traga a união dos moradores”, celebra Juliana Zaponi, head de marketing da empresa de tintas.
Além de unir a população local, a decoração das vias públicas tem atraído visitantes moradores de outras partes da cidade, curiosos com a repercussão nas redes sociais. O fotógrafo William Gonçalves (@willkhalifaman), que cedeu imagens para a reportagem, tem rodado a cidade mapeando as ações. “Comecei em Osasco, com a Luiz Villar, que tem mais de quarenta anos de tradição em pintar a rua. Depois, fui para a Zona Norte, na Parada Inglesa, e para a Zona Sul, onde moro. Ao todo, as fotos deram mais de 1 milhão de visualizações”, relata.
A visibilidade é uma das motivações centrais por trás do sonho do líder comunitário Augusto Oliveira em decorar Heliópolis: “É uma oportunidade de mostrar para quem é de fora que nosso bairro vai além da narrativa de perigo”. Se depender da animação e dedicação dessa turma, o hexa é nosso!
Publicado em VEJA São Paulo de 19 de junho de 2026, edição nº 3000





