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Em novo livro, Bob Wolfenson reúne fotografias danificadas por enchente

'Sub/Emerso = Sub(E)merged' traz mais de 200 imagens com avarias como riscos, ondulações, fungos e marcas de lama

Por Laura Pereira Lima 10 jun 2026, 19h52
Mulher de cabelos escuros, com expressão séria e olhos claros, agachada em uma pose artística. A imagem em preto e branco tem textura de papel amassado e manchas, criando um efeito de dupla exposição ou sobreposição. Ela veste um top escuro, e seu corpo está parcialmente obscurecido por linhas horizontais e áreas escuras, como se estivesse submersa ou em um ambiente aquático. O fundo é branco com texturas e marcas de tinta, sugerindo um cenário abstrato e etéreo
Retrato de Bruna Lombardi (Bob Wolfenson/Divulgação)
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Bob Wolfenson trabalhava em seu estúdio na Vila Leopoldina, na Zona Oeste, em uma noite chuvosa de maio de 2005, quando recebeu uma ligação de seu assistente, que saíra para revelar um filme. “Não dá mais para voltar. A rua está completamente alagada”, disse alarmado.

Prevendo que a catástrofe ia atingir o seu estúdio, o fotógrafo reagiu prontamente: colocou um short de ginástica — para poupar a barra da calça — e desceu para salvar sua produção fotográfica, guardada em grandes arquivos no andar debaixo. Enquanto retirava e realocava gavetas, a água subia pelo cômodo — ela chegou a atingir 1,2 metro de altura — e, com medo de ser eletrocutado, ele desistiu da operação para se refugiar no piso superior. De lá, só sairia na tarde do dia seguinte, resgatado por um barco após passar a noite dormindo no chão.

Homem calvo de óculos escuros e barba grisalha, vestindo suéter preto e camiseta listrada, espreitando por uma abertura quadrada em uma parede branca, com expressão séria
Wolfenson: memória e fotografia (Bob Wolfenson/Divulgação)

No fatídico dia, Wolfenson perdeu cerca de 10% de seu acervo, que continha mais de duas décadas de produção àquela altura.

Quinze anos depois, em fevereiro de 2020, outra chuva invadiu o imóvel, provocando um estrago ainda maior: o fotógrafo calcula que 80% de seus trabalhos tenham sido afetados naquela enchente, que provocou manchas, rasuras, riscos, ondulações, fungos e marcas de lama em centenas de imagens impressas e negativos.

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Em vez de destruí-las, como fez em 2005, optou por guardá-las e transformá-las em algo novo. Essa ressignificação da tragédia resultou no livro Sub/Emerso = Sub(E)merged (Editora Senac São Paulo; 210 págs.; R$ 140,00), lançado na última quarta (10) — um desdobramento de uma exposição que realizou em 2023 no Senac Lapa Scipião.

Mulher de vestido longo escuro, com o corpo coberto por manchas e traços de tinta preta, dança em um corredor com piso quadriculado. Ao fundo, luzes penduradas e colunas brancas. No canto inferior esquerdo, texto BOB WOLFSON SUB/EMERSO [SUB(E)MERGED]. No canto inferior direito, o logo do Senac
Capa de ‘Sub/emerso’ (Divulgação/Divulgação)

São mais de 200 imagens feitas entre 1980 e 2007, de diferentes estilos, todas marcadas por intervenções da água. Fotografias de editoriais de moda, campanhas publicitárias e registros de bastidores dividem páginas com retratos de celebridades como o apresentador Fausto Silva, o músico Hermeto Pascoal (1936-2025) e a atriz Bruna Lombardi.

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“Elas ganharam uma unidade pela invasão das águas e da lama, se tornaram um trabalho único”, defende Bob.

Retrato de um homem idoso com barba e cabelos brancos longos e esvoaçantes, usando óculos escuros, em uma imagem com textura envelhecida e tons de cinza
Fotografia de Hermeto Pascoal (Bob Wolfenson/Divulgação)

Em 2020, ele não estava no estúdio no momento da inundação. Ao ver a destruição, 36 horas depois, quando finalmente conseguiu entrar no local, seu primeiro instinto foi rasgar as imagens. “Não deu 10 minutos e pensei: ‘vou fazer um trabalho sobre isso’”, lembra o fotógrafo.

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Colagem de nove fotos em preto e branco de uma mulher jovem com cabelo cacheado escuro, vestindo regata branca e jeans, fazendo diferentes expressões de surpresa e alegria, com as mãos no rosto. A colagem tem bordas rasgadas e manchas de tinta azul em algumas fotos
Luiza Brunet, por Bob Wolfenson (Bob Wolfenson/Divulgação)

Ele lavou as fotografias e negativos atingidos, para livrá-las do cheiro de lama e água suja, e guardou-as em freezers para conservá-las até conseguir financiamento via leis de incentivo para restaurá-las — o que ocorreu em 2022. Mesmo com o restauro, as relíquias não voltaram à sua condição original, o que não foi motivo de frustração para Wolfenson.

Homem de cabelo crespo e bandana, sorrindo e exibindo o bíceps tatuado, veste camiseta branca estampada e calça escura, segurando uma jaqueta jeans no braço esquerdo
Retrato de João Gordo (Bob Wolfenson/Divulgação)
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“Fotografia também é memória, e essa memória é o que ficou impregnado nessas imagens, pelas rasuras e dilacerações”, aponta. “Até poderia restaurar a imagem inteira, com inteligência artificial, mas não quero fazer isso. Quero deixá-las com essa passagem do tempo e as marcas da inundação. Não estou atrás daquela foto original que eu fiz”.

Publicado em VEJA São Paulo de 12 de junho de 2026, edição nº2998.

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