Associação feminina desenvolve trabalhos de conservação na região do Vale do Ribeira
Instituto ajuda pequenos agricultores locais a vender sua produção na capital

Em 2015, as irmãs Camila e Claudia Quinonez, junto com a amiga Elisa Yokota, chegaram ao Vale do Ribeira, região no sul do estado de São Paulo que abriga a maior área contínua de Mata Atlântica do Brasil, com o objetivo de adquirir um território para que concretizassem o sonho de trabalhar com a terra. Assim surgiu a Associação da Mata, que atua em prol da conservação da floresta nos municípios de São Lourenço da Serra, Juquitiba e Ibiúna. “Quando encontramos uma terra ideal, começamos a pensar na construção de uma ecovila, o que se mostrou um projeto muito desafiador. Nesse processo, nos descobrimos como uma associação feminina com vocação para a preservação da natureza”, descreve Elisa, a diretora da organização. Atualmente, o instituto sem fins lucrativos conta com três projetos, sendo o primeiro deles dedicado ao monitoramento da fauna local.

No sítio que ocupam em Ibiúna, entre duas grandes reservas ambientais — a Reserva Florestal do Morro Grande, da Sabesp, e o Parque Estadual do Jurupará —, as três mulheres instalaram mais de vinte câmeras trek, verdadeiras armadilhas fotográficas, para registrar os animais que transitam no lugar. “Conseguimos averiguar a presença de grandes mamíferos de topo de cadeia, como onças-pardas e muitas antas. Isso indica a alta preservação da região, que tem grandes mamíferos reproduzindo de forma saudável. Uma anta, por exemplo, leva 430 dias para gestar um único filhote. No final do ano passado, pegamos imagens de um de 6 meses”, alegra-se Elisa.

Conversando com vizinhos, elas conseguiram desenvolver um corredor ecológico que liga a Reserva Florestal do Morro Grande até o parque. A conexão com os pequenos produtores no entorno ainda rendeu um outro braço do instituto, o Direto da Roça, que leva a produção dos sítios parceiros para clientes na capital paulista. Proprietária do Sítio Lumiga, que fabrica doces do coquinho jerivá em São Lourenço da Serra, a artesã e produtora rural orgânica Ana Paula Barone não conseguia fazer chegar seus produtos até a cidade pela falta de logística. “A associação é uma ponte para a gente. Elas pegam nossos produtos na porteira. E, claro, é um auxílio mútuo, porque nosso projeto colabora com o não desmatamento da área”, afirma.

O instituto contribui divulgando semanalmente um catálogo, que muda conforme a safra e disponibilidade dos itens dos trinta parceiros, entre os clientes e transfere o dinheiro das vendas para os produtores. “Eles definem os preços e nós incluímos uma pequena margem para pagar a gasolina e manter os trabalhos da Associação da Mata”, explica Elisa, que se desloca toda segunda-feira da capital até o Vale do Ribeira para recolher as encomendas. Por enquanto, o Direto da Roça atende a pedidos dos bairros das vilas Madalena, Ipojuca, Romana e Leopoldina.
A expectativa, porém, é que cresça com a participação em feiras — como a Horta da FMUSP, que aconteceu na sexta (14), em frente ao metrô das Clínicas — e a conexão com restaurantes da cidade. Na segunda (24), o instituto promove um encontro na School of Life Vila Madalena entre os sítios produtores e os chefs Mario Panezo (Fitó Contemporânea) e Raphael Vieira (31 Restaurante), o bartender Lula Mascella (Picco) e o consultor Dany Simon, sócio do Cora. Além dessa ampliação, a organização retomará a Escola da Mata, que realiza cursos e oficinas de agroecologia. Elisa destaca o potencial educativo das diversas frentes de ação no segmento. “É um grande ciclo virtuoso verde conectando comunidades para manter a mata em pé.” Uma iniciativa das mais nobres.
Publicado em VEJA São Paulo de 21 de março de 2025, edição nº 2936