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Ana Beatriz: “Proteger as mulheres negras não é slogan, é urgência”

Embaixadora do Me Too no Brasil, Ana Beatriz Prudente Alckmin vem atuando no enfrentamento da violência de gênero, em especial, para a população negra e judia

Por Vanessa Barone 3 jul 2026, 08h00
Mulher negra de cabelos lisos e castanhos, com mechas claras, sorri levemente para a câmera. Veste blazer preto e branco xadrez, blusa marrom, colar e anéis com pedras turquesa. Ela apoia os braços em uma mesa de madeira, com a mão direita no queixo, e está em frente a uma parede vermelha texturizada
Ana Beatriz: à frente do Comitê Judaico do Me Too, no Brasil (Leo Martins/Veja SP)
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A paulistana Ana Beatriz Prudente Alckmin, 31, embaixadora do movimento Me Too no Brasil, tem sido uma voz relevante na denúncia da violência de gênero que, somente no ano passado, vitimou 1 568 mulheres — uma alta de 4,7% em relação a 2024 —, de acordo com o levantamento Retrato dos Feminicídios no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Em especial, as mulheres negras são as mais vulneráveis nesse contexto de abusos que, não raro, atribui à vítima a culpa pela brutalidade. “Por isso o apoio social é, muitas vezes, condição para que a vítima consiga romper o silêncio”, afirma Ana, mulher preta, judia, escritora e pedagoga formada pela Universidade de São Paulo.

Com uma trajetória profissional que inclui campos de atuação como literatura, educação, ciência, tecnologia e impacto social, ela chama atenção para uma necessidade urgente. “Proteger as mulheres negras não é um slogan. É uma urgência sustentada por dados e pela realidade. Sem enfrentar essa interseccionalidade, qualquer debate sobre violência contra a mulher permanecerá incompleto”, afirmou em conversa com a Vejinha.

Ela se prepara para apresentar, em 9 de setembro, o Comitê Judaico do Me Too Brasil na Unibes Cultural. A iniciativa visa debater as especificidades da experiência das mulheres judias no contexto dos direitos humanos e do feminismo.

 

Do que vai tratar o Comitê Judaico do Me Too Brasil?

Essa iniciativa inédita é voltada a debater as especificidades da experiência das mulheres judias no contexto dos direitos humanos, do feminismo e do enfrentamento ao antissemitismo. Ela nasce do meu trabalho na construção de uma epistemologia sobre a mulher judia, reconhecendo que não existe uma experiência única de ser mulher judia. Ao contrário, a comunidade é marcada por uma diversidade histórica, religiosa, cultural e étnica, tornando indispensável a criação de espaços capazes de compreender essa pluralidade e de acolher essas vivências femininas. Eu sou uma espécie de superembaixadora, por acumular também a pauta para a comunidade judaica.

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Qual o objetivo dessa iniciativa?

Ampliar a compreensão de que a defesa dos direitos das mulheres somente será plenamente inclusiva quando reconhecer as diferentes formas pelas quais gênero, identidade, pertencimento religioso e racismo podem se entrecruzar. O Me Too acaba generalizando todas as mulheres, sem fazer recortes. Então, entre os principais eixos de atuação estará o enfrentamento do antissemitismo sob a perspectiva de gênero. Embora o antissemitismo seja reconhecido como uma forma de racismo, seus impactos sobre as mulheres apresentam características próprias, produzindo experiências específicas de discriminação, exclusão e violência que ainda são pouco debatidas. Ao promover esse diálogo entre a comunidade judaica, o movimento feminista e os movimentos de direitos humanos, queremos contribuir para a produção de conhecimento, fortalecer políticas de inclusão e ampliar a visibilidade das demandas das mulheres judias na sociedade, consolidando um espaço permanente de escuta, pesquisa, incidência institucional e defesa dos direitos humanos.

O que motivou a criação do comitê?

Entre outras coisas, os ataques terroristas cometidos pelo grupo Hamas no sul de Israel, ocorridos em 7 de outubro de 2023, quando, além de assassinatos, tivemos muitos estupros e violência sexual cometidos contra mulheres que estavam ali. Isso é um trauma que vai além do território, pois mesmo no Brasil eu me senti violentada. E para além de questões geopolíticas, para além de debates políticos, a violência sexual precisa ser sempre condenada. Não há um único contexto político que a gente possa usar para justificar o que aconteceu. Estamos falando de pessoas que passaram por uma violência sistemática, tiveram seus corpos usados como arma de guerra e não receberam um olhar atencioso de organizações que têm como missão cuidar de mulheres. O próprio movimento Me Too tem uma parcela de responsabilidade nesse silêncio. Entendi que eu tinha uma missão de reparação. Acredito que hoje eu sou uma das vozes do feminismo judaico no Brasil.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que mulheres negras são as principais vítimas de violência letal. O que pode ser feito para mudar essa realidade?

Isso evidencia uma sobreposição de vulnerabilidades. Gênero e raça operam conjuntamente na produção dessas desigualdades. E, quando falamos de Brasil, ainda temos a questão econômica, que é muito poderosa, interferindo na escolaridade dessa mulher e até na maneira como ela será recebida pelas instâncias jurídicas. É muito difícil conscientizar essa vítima sobre os abusos quando a questão perde espaço para coisas mais urgentes, como ter ou não comida ou lugar para morar. O problema é que os abusos — que começam com pequenos cerceamentos — podem resultar em feminicídio. É preciso haver mais serviços de acolhimento, para que ela se sinta, inclusive, encorajada a denunciar. E, também, apoio financeiro e estrutura para que ela possa se afastar daquela situação.

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Como pedagoga, como vê o papel da educação na prevenção da violência de gênero?

É essencial para combater a misoginia e o crescimento assustador da violência sexual cometida por meninos e adolescentes contra meninas. É preciso trabalhar a questão de gênero desde os primeiros anos, não apenas para mostrar aos meninos que eles não podem bater na coleguinha, mas para ensinar sobre direitos humanos. Uma das grandes conquistas sociais do Brasil é a ampla escolarização. E isso também conta, pois é dentro da escola que aparecem as primeiras marcas da violência. Por isso, a atenção de professores, psicólogos e assistentes sociais é tão importante. Como também é importante que haja educação sexual nas escolas. De que forma uma criança vai contar que alguém tocou indevidamente suas partes íntimas se ela não souber nomeá-las?

Você é a primeira autora preta judia a ter sua obra publicada na América Latina: Ela, Sua Gata e Tel Aviv. Como tem sido a experiência?

Muito boa. O livro foi lançado em novembro de 2025. As vendas estão indo muito bem, eu nem esperava, por ser o primeiro. Estou orgulhosa. E o legal é que, mesmo sendo uma literatura judaica, o livro trabalha questões universais, como o luto e o tráfico de pessoas. Eu queria falar com todo mundo. A gente precisa ter uma mensagem que transcende as diferenças.

 

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