Ludhmila Hajjar: “Quero mudar a saúde do meu Brasil”
A cardiologista e professora da USP explica o projeto do primeiro hospital inteligente do país e analisa a formação de novos profissionais
A cardiologista Ludhmila Hajjar, 48, transita com naturalidade entre o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, onde também é professora titular, e o consultório onde atende clientes famosos e anônimos. Expressa essa mesma tranquilidade ao atender a telefonemas de vários políticos de Brasília, como deputados e ministros.
Referência em terapia intensiva cardiovascular e cárdio-oncologia, ela atua no Instituto do Coração (InCor) e coordena a especialidade no Hospital Vila Nova Star e no Hospital DF Star, da Rede D’Or São Luiz. Com reconhecimento internacional pelo impacto científico de suas pesquisas e voz ativa no debate sobre políticas públicas, defende uma medicina ancorada em evidência, inovação responsável e formação de excelência.
À frente de projetos de modernização hospitalar — como o futuro Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI), que promete ser o primeiro hospital inteligente do país, no complexo do HC —, ela recebeu a Vejinha em seu consultório paulistano para falar sobre os rumos da saúde, os riscos e oportunidades da inteligência artificial e os desafios da formação médica no Brasil. “Defendo a avaliação da instituição e do aluno no quarto ano, quando ele vai para o campo prático”, explica a médica. Confira a entrevista.
Como funcionará, na prática, o hospital inteligente?
Nossos hospitais ainda estão na era analógica. Os sistemas de informação, prontuários, tomadas de decisão são processos fragmentados. Cada local faz de uma forma. O hospital inteligente é pautado na inteligência da informação, cujos fluxos de trabalho são baseados em monitoramento de dados em tempo real, sistemas de inteligência artificial, big data, interoperabilidade e sistema 5G conectando todos os níveis. Para se ter uma ideia, a média de tempo entre um paciente que precisa de um hospital de alta complexidade e essa vaga sair, em São Paulo, é de dezessete horas. No nosso projeto, tudo será antecipado via transmissão de dados 5G. O paciente chegou com AVC, por exemplo, vai direto para a tomografia. Reduz o tempo e, na medicina, tempo é vida.
Quando a população deve começar a sentir o impacto real desse modelo?
São dois momentos. O mais difícil foi desenhar o projeto e convencer as pessoas da importância estratégica para o nosso país. O financiamento vem do Banco do Brics do NDB (Novo Banco de Desenvolvimento), então é considerado federal, mas também é vinculado ao estado de São Paulo, já que o meu sonho era fazer dentro do Hospital das Clínicas (o instituto será construído no complexo do HC). O mais difícil foram esses dois anos para colocar todas as pessoas na mesma lógica. Agora, temos um projeto aprovado e estamos tocando a parte que vai dar início às obras, que devem demorar três anos.
A senhora foi convidada para ser ministra no governo Bolsonaro e tem articulação com diferentes partidos. Aceitaria assumir um cargo político?
Vou falar de hoje. Sempre falei que quero ser presidente do hospital inteligente. Sou professora titular de medicina da maior universidade do país e sonhei muito com essa posição. Tenho uma vida profissional intensa. Não estaria preparada para deixar tudo isso. Pelos próximos cinco anos, meu foco é na medicina, na universidade e nesse grande projeto do hospital inteligente. O que me faz feliz é poder utilizar tudo que estudei em benefício da sociedade. Meu projeto de vida é trabalhar para mudar a medicina do Brasil e fortalecer as políticas públicas. Quero ser uma espécie de interface intergovernamental, mas não quero assumir um cargo político. Daqui a dez anos eu não sei…
“A qualidade da formação caiu nos últimos quinze anos. Tem de fechar faculdade ruim, porque é a população que está vulnerável”
O Brasil está formando muitos médicos ou médicos despreparados?
O problema é a qualidade, não é a quantidade. A qualidade da formação foi se depreciando nos últimos quinze anos de maneira muito grave. Houve uma expansão desenfreada de escolas privadas, enquanto as vagas das federais e das estaduais congelaram. Além disso, não existe uma supervisão periódica dessas faculdades. Tenho 25 anos de vida pública na medicina e nunca vivi o que vivemos hoje. Médicos formados que nunca fizeram uma reanimação, nunca fizeram uma intubação, que não têm raciocínio diagnóstico. Essas pessoas se formam e vão trabalhar nas emergências, em postos de saúde, nas UTIs. Sou a favor de uma prova regulada pelo Ministério da Educação, que cuida da formação. Defendo a proposta de avaliar a instituição e o aluno no quarto ano, quando ele vai para o campo prático. Aquele aluno que se mostrar deficiente precisa ter tutorias especializadas, maior supervisão, repetir disciplinas. O CFM (Conselho Federal de Medicina) tem de regulamentar o ato médico e o MEC, a formação educacional. Tem de fechar faculdade ruim, porque é a população que está vulnerável.
Quais são os principais riscos do uso de IA para consultas médicas?
O risco é muito grande. Essas ferramentas estão em construção. Elas podem nos auxiliar nos processos. Com os chats e robôs, nós podemos melhorar a eficiência daquilo que a gente já faz, mas substituir médico, não. Se você está em uma população ribeirinha, que não tem acesso a nada, é claro que ele pode dar uma informação geral. Mas também pode ter 20%, 30% de erro. Então, não é o momento de dizer que essa ferramenta vai substituir uma consulta, em hipótese alguma. Temos que ser muito cautelosos.
Qual é o legado que gostaria de deixar?
Quero mudar a saúde do meu Brasil. Meu sonho é participar deste momento, que é a chance de fazermos a transição para uma saúde inteligente. É utópico dizer que todo brasileiro vai ter o mesmo acesso, mas sonho com o dia em que todos terão acesso a um médico para chamar de seu, poderão ir a uma consulta, ser bem atendidos, fazer rapidamente seus exames e receber um diagnóstico. Não ficar numa fila de três anos esperando uma cirurgia que, se não for feita nos próximos meses, simplesmente pode significar o fim de sua vida. Quero ser parte ativa nesse processo de transformação.
Como quem mora em São Paulo sofre impactos na saúde e o que se pode fazer para minimizar esses efeitos?
Temos alguns problemas sérios. Um deles é a poluição, associada a um aumento de, no mínimo, três vezes em doenças crônicas, pulmonares, cardiovasculares e neoplasias. O segundo é o nível de estresse crônico que a população vive por trânsito ruim, por índices altos de violência. Tentamos buscar que essas pessoas melhorem os hábitos de vida, dentro das limitações de uma cidade metropolitana. É a chamada prevenção primária. Se o indivíduo fizer isso, elimina 50% das chances de doenças crônicas.
Publicado em VEJA São Paulo de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984.







