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Câncer de mama: ex-pacientes se empenham em conscientizar sobre prevenção

Em meio ao aumento de casos de câncer de mama em mulheres abaixo dos 40 anos, mulheres falam nas redes sociais sobre diagnóstico e tratamento

Por Luana Machado 14 mar 2026, 08h00 •
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Conscientização: Giulianna traz relatos nas redes  (Leo Martins/Veja SP)
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  • Aos 21 anos, Giulianna Nardini estudava design e vivia normalmente a rotina de uma jovem adulta quando começou a sentir algumas dores no peito e, durante um banho, sentiu um pequeno nódulo em uma das mamas. Acreditando ser somente um caroço inofensivo, a paulistana fez os exames sem desconfiar do diagnóstico de câncer de mama, que receberia pouco tempo depois. “Já estava avançado, eu lembro que escorreu uma lágrima do rosto do médico. Ele me disse que era a primeira vez na carreira que diagnosticava uma mulher da minha idade com o triplo-negativo”, lembra a designer, que não encontrou na época outras jovens compartilhando experiências parecidas. Hoje, ela usa as redes sociais para falar sobre seu caso e o processo de tratamento contra a doença.

    O tipo diagnosticado nela não pode ser tratado com terapias hormonais, por não apresentar receptores de hormônios como aqueles que se alimentam de estrogênio ou da proteína HER2, presente nas células da pele. “Estamos observando um crescimento importante desses diagnósticos em pacientes abaixo dos 40 anos. E, infelizmente, o triplo-negativo é o mais comum em pessoas mais jovens”, relata o oncologista Pedro Exman do Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

    O médico aponta fatores hereditários, que estão presentes em até 10% dos casos, e de estilo de vida, como alimentação, tabagismo, ingestão de bebidas alcoólicas e sedentarismo. De acordo com levantamento do Instituto Nacional de Câncer (Inca), são esperados 78 610 novos casos de neoplasia maligna da mama (o termo técnico) no triênio de 2026 a 2028, sendo que o estado de São Paulo possui uma das expectativas mais altas do país: 20 820 no mesmo período. Na capital, a estimativa é de 5 840 novos diagnósticos.

    Após três anos de tratamento, Giulianna passou por remissão e busca conscientizar a população sobre prevenção. “Jovens são muito resistentes ao assunto. A faixa etária dos meus seguidores é dos 35 aos 44 anos. Percebo que mulheres da minha idade não estão conscientes sobre hábitos de prevenção. Publiquei um vídeo falando sobre minha abstenção do álcool, que é um agente cancerígeno do tipo 1, e muitas foram contrárias”, conta. Existem ainda informações falsas relacionadas à doença, que levam muitas mulheres a utilizar estratégias ineficazes. “Há mitos que vinculam menopausa e endometriose ao câncer de mama”, aponta Exman, que destaca a importância de esclarecer dúvidas populares (veja o quadro abaixo).

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    O médico Pedro Exman, especialista em câncer de mama e ginecológicos (Oswaldo Cruz/Divulgação)
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    Os profissionais de saúde, muitas vezes despreparados para atender pacientes entre 20 e 30 anos com a doença, também contribuem para esse cenário. A carioca Anna Carolina Fernandes recebeu um diagnóstico errôneo em 2014, aos 29 anos, resultando em um atraso no tratamento de um tumor com metástase no fígado e nos ossos. “Eu fui a dois médicos até achar um que me escutasse. Eles sabem a teoria, mas a prática somos nós”, afirma ela, que chegou a receber uma expectativa de seis meses de vida e hoje, mais de uma década depois, dá palestras sobre o tema.

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    Anna: palestras sobre
    o tema depois de
    diagnóstico errôneo (Novoartis/Divulgação)

    Assim como Giulianna, que perdeu a mãe e a avó para o câncer de mama, Anna detectou depois do tratamento que possuía uma das mutações que favorecem o aparecimento do tumor. “Em 2019, chegou ao Brasil uma medicação oral, que é justamente para quem tem essa condição. Eu comecei a usá-la e, junto com isso, mudei meus hábitos de alimentação, de atividade física e de sono de qualidade”, indica ela, que está em remissão. O acesso à testagem genética que detecta as mutações, porém, ainda não é garantia para as mulheres no sistema público de saúde. A medida, aprovada pelo Senado e à espera de parecer da Câmara dos Deputados, garante o teste para mulheres com histórico familiar ou em grupos de alto risco, como pessoas acima dos 50 anos.

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    A aprovação seria um passo em direção à melhoria do atendimento no sistema público, que apresenta dados alarmantes. Segundo a revista Clinical Breast Cancer, enquanto 81,6% das pacientes em estágio inicial na rede privada estavam vivas dez anos após o diagnóstico, no SUS esse índice é de 77,5%. No estágio avançado, a situação é ainda pior: 55,6% na rede privada ante 39,6% na pública.

    Uma dessas mulheres, tratada no SUS, é Gislene Charaba, que tinha 29 anos quando descobriu um tumor na mama em junho de 2016. Morando na capital para consolidar a carreira de modelo, ela não possuía plano de saúde e buscou uma UBS após notar um nódulo em um dos seios. “Eu fiz os exames, tomografia e mamografia com biópsia, e recebi um prazo de quinze dias para que o médico os olhasse. Comecei a ir toda semana no posto, procurar ouvidoria, mandar e-mail”, conta a paulista. No fim de agosto, ela recebeu uma ligação da filantropia do Hospital Sírio- Libanês para uma consulta. Naquela altura, a modelo já estava com metástase por aproximação no osso esterno. “Meu tratamento durou um ano. Foi muito bom, mas foi tardio. Quando falamos em câncer, o tempo é essencial, a gente luta justamente por diagnóstico precoce”, conta a hoje ativista, que integra o Grupo Brasileiro de Estudos do Câncer de Mama (GBECAM).

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    A ativista Gi Charaba (Acervo pessoal/Reprodução)
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    Nas redes sociais, ela ainda defende a democratização das cicatrizes de mastectomia. “Eu nunca mais consegui trabalhar como modelo por causa da cicatriz aparente. Ouvi de uma dona de marca de lingerie que as pessoas não comprariam o que eu usasse por medo. Hoje, tenho a responsabilidade de ser o acolhimento para quem busca informações sobre a vida depois do câncer. Mas nossas histórias só são ouvidas em outubro”, lamenta.

    Verdades sobre o câncer de mama

    1.  Menopausa não é risco, mas reposição hormonal deve ser feita apenas com indicação.
    2. Chips hormonais não previnem câncer e podem até ser fator de risco.
    3. Mapeamento genético pode contribuir na prevenção, cerca de 5% a 10% dos casos estão relacionados a fatores hereditários.
    4. Uso de desodorantes com sais de alumínio não estão relacionados ao desenvolvimento desse tipo de câncer.
    5. Nem todos os nódulos de mama são cancerígenos, consulte um especialista.
    6. Aleitamento materno diminui o risco de câncer de mama de 4,3% a 6% a cada doze meses de duração da amamentação.

    Fonte: Instituto Nacional de Câncer (Inca)

    Publicado em VEJA São Paulo de 13 de março de 2026, edição nº 2986

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