Aquário de São Paulo celebra 20 anos e revela os bastidores dos cuidados com os animais
Veterinários e biólogos explicam como funciona a rotina de enriquecimento ambiental, medicina preventiva e programas de conservação
Em meio a um conjunto de galpões no bairro do Ipiranga, se concretizava há vinte anos um inusitado projeto que juntava no mesmo edifício ponto turístico, educação ambiental e lazer. Duas décadas depois, comemoradas na última terça (7), o Aquário de São Paulo carrega o título de maior aquário temático da América Latina.
Uma área de 20 000 metros quadrados é lar de 2 500 animais de 300 espécies diferentes, segundo o relatório anual de 2025 da instituição. “Além de uma atração turística, pensamos no percurso de visitação como uma forma de oferecer ao público informações sobre conservação ambiental. Desde os impactos que a fauna sofre com as mudanças climáticas até formas de cooperar com a preservação da natureza nas esferas coletiva e individual”, afirma Ricardo Cardoso, oceanógrafo gestor do departamento técnico do aquário, que atua no local desde a inauguração.
A história do complexo é marcada por uma série de reformas e ampliações até chegar à estrutura atual. Quando inaugurado, ocupava 3 000 metros quadrados e era dedicado exclusivamente aos ecossistemas de água doce — setor que, hoje, é só o início do trajeto. Nesta parte, os visitantes têm contato com espécies características da Mata Atlântica e do Pantanal, como a jiboia, o jacaré-do-papo-amarelo e a arraia-pintada.
O roteiro segue com os habitantes do Mundo Marinho, seção com diferentes tipos de peixes, tubarões, arraias e pinguins aberta ao público em 2008. Ricardo conta que um dos grandes desafios dessa fase foi construir um tanque com aproximadamente 1 milhão de litros de água salgada longe do litoral. “A principal solução que encontramos na época foi utilizar uma fórmula de sal artificial que permitisse a produção de água marinha de qualidade somente com água doce como matéria-prima”, detalha.
As expansões seguintes se deram em 2009, quando foi implementado o setor Amazônia — com macacos bugio, lontras, tamanduás- mirim e um peixe-boi-da- amazônia — e, a mais recente, em 2015, com a criação de treze novos recintos ocupados por animais de diversos países: desde cangurus e vombates, da Austrália, até lobos-marinhos e ursos-polares.
“A ideia é que as pessoas conheçam a diversidade de diferentes biomas, tanto os brasileiros, como os mundiais”, ressalta o biólogo Raphael Romano, da equipe de educação ambiental. Além desta, trabalham nos bastidores da instituição equipes veterinárias e de manejo, responsáveis por operações como limpeza das instalações, fornecimento de alimentos e manutenção da saúde dos animais.
Segundo a veterinária-chefe Laura Reisfeld, as espécies chegam ao local por meio de transferências autorizadas entre entidades zoológicas, programas de conservação ou resgates feitos por órgãos ambientais. “Recebemos vários indivíduos que foram encaminhados por centros de reabilitação e, por alguma alteração em sua condição natural, não puderam ser reintroduzidos na natureza”, explica.
É o caso do peixe-boi-da-amazônia, batizado de Tapajós, direcionado ao aquário pelo Laboratório de Mamíferos Aquáticos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (LMA/INPA). Aurora e Peregrino, dois ursos-polares, também foram transferidos para o complexo por meio de um programa internacional de conservação firmado com o Zoológico de Kazan, na Rússia. Em 2024, a fêmea deu à luz a Nur, primeiro filhote da espécie nascido na América Latina. “O transporte deve considerar todas as normas de segurança do animal e conter estratégias para minimizar o estresse”, aponta a veterinária.
Se a logística de transferência exige uma articulação complexa entre instituições, a rotina diária dos animais envolve cuidados igualmente minuciosos. Um dos princípios fundamentais adotados pelo núcleo técnico é o enriquecimento ambiental, prática de fornecimento de estímulos para a expressão de atividades físicas e psicológicas naturais de espécies criadas em ambientes artificiais. “As dietas que fornecemos são sempre balanceadas, levando em consideração o que aquele animal precisaria comer para garantir seu status adequado de nutrição”, destaca Laura.
O monitoramento dos bichos inclui ações de medicina preventiva, com atendimentos de profissionais especializados como cardiologistas, dentistas e oftalmologistas, e integrativa, com laserterapia, fisioterapia, massagens especiais e acupuntura — técnicas usufruídas, por exemplo, por Bino, um jacaré-do-pantanal albino que apresenta dificuldades em nadar devido a problemas de cifose e escoliose na coluna vertebral.
Embora a garantia do bem-estar animal esteja no cerne dos propósitos da instituição, o trabalho do aquário também se estende à produção de conhecimento e formação de parcerias com órgãos nacionais e internacionais para o estudo de espécies ameaçadas de extinção. O Programa de Conservação de Espécies tem parcerias como o Projeto Meros do Brasil, que atua em pesquisas científicas e proteção do mero-preto — um dos tipos de peixe mais vulneráveis —, e a Associação Amigos do Peixe-boi (AMPA), que realiza a soltura de espécimes da Amazônia resgatados e reabilitados.
“O uso de todo esse contexto socioambiental para monitorar o percurso no aquário e sensibilizar crianças e adultos sobre a importância da biodiversidade é algo que priorizamos no início da sua história e mantemos até hoje”, comenta Raphael.
Publicado em VEJA São Paulo de 10 de julho de 2026, edição nº3003.





