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Da seca aos temporais: SP sofre com árvores caídas e falta de planejamento

Chuvas de verão provocam queda recorde de plantas, apagões e não fazem grande diferença nos reservatórios que abastecem a capital

Por Adriana Farias 9 jan 2015, 23h00 | Atualizado em 1 jun 2017, 17h08
arvore-queda-vila-mariana
arvore-queda-vila-mariana (Felipe Rau/Estadão Conteúdo/)
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Os paulistanos têm sofrido com a era de extremos do clima. Diante da maior seca dos últimos 84 anos no estado, muitos rezaram por chuvas que amenizassem a queda do nível dos reservatórios que abastecem a capital. Quando São Pedro resolveu abrir as torneiras, a metrópole acabou castigada por vários temporais que deixaram como saldo uma série de efeitos colaterais. O mais visível deles é a quantidade de árvores tombadas pela força das enxurradas.

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Do fim de 2014 até a última quinta (8), ocorreram mais de 600 quedas por aqui. Somente noperíodo entre 29 de dezembro e 2 de janeiro, registraram-se 585 problemas do tipo, um número recorde na história, segundo a prefeitura. De acordo com a Eletropaulo, metade dos galhos caiu sobre a rede elétrica, e cerca de 500 000 pessoas ficaram sem energia. Na semanapassada, o sinal de alerta foi ligado outra vez com 36 novos casos, boa parte deles na Zona Leste. Moradores dos bairros de Itaquera e Itaim Paulista ficaram às escuras por mais de dez horas.

 

Neste mês, o Sistema Cantareira recebeu um total de 45,7 milímetros de precipitações. Apesar da violência de algumas delas, o número corresponde a 16,9% da média histórica de janeiro. O efeito disso em termos da recuperação dos reservatórios foi bem discreto. As intensas pancadas de chuva interromperam três dias seguidos de baixa do Cantareira, que permanecia operando com 6,8% da capacidade na quinta (8).

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Além de não aliviarem o problema da crise hídrica, os vendavais de até 96 quilômetros por hora provocaram muitos estragos nos bairros. No fim do ano, o cenário era trágico nos lugares afetados: carros prensados, imóveis danificados e interrupção da operação de nove estaçõesda Linha 10 – Turquesa da Companhia deTrens Metropolitanos (CPTM). O Ibirapuera chegou a fechar por um dia, algo inédito nos sessenta anos do parque, devido à queda de 25 árvores no local.

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Na semana passada, era fácil identificar nas vias da capital vários pontos bloqueados por plantas que caíram. Um deles tinha como endereço a Rua Guararapes, no Brooklin. Trata-se de um resto ainda não retirado pela prefeitura no temporal do fim do ano. Na ocasião, moradores de lá, como a enfermeira Karina Koike, de 26 anos, ficaram três dias sem luz por causa da queda de três árvores sobre a rede elétrica. Karina precisou jogar fora toda a comida da geladeira e perdeu até os remédios que ficavam armazenados no refrigerador (medicamentos usados no tratamento de sua avó, que sofre da doença de Alzheimer). “Foi muito assustador”, lembra. “Durante o temporal, uma árvore chegou a pegar fogo de tão emaranhada que estava na fiação.”

Sequelas semelhantes às provocadas pelas últimas chuvas, como toras derrubadas e galhos amontoados nas calçadas ou interrompendo o trânsito, podiam ser vistas na quinta (8) também em vias como a Rua Antônio Gomide e a Alameda dos Tacaúnas (ambas no Planalto Paulista), as avenidas Horácio Lafer (Itaim Bibi) e Brigadeiro Faria Lima (Pinheiros).

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De acordo com a Secretaria Municipal de Coordenação das Subprefeituras, responsável pela limpeza, os atrasos ocorrem por acúmulo de trabalho. Por isso, deu-se prioridade à desobstrução das principais vias e ao restabelecimento de energia. A tarefa de remoção dos resíduos deve prosseguir nos próximos dias.

A intensidade do problema na metrópole pode ser inédita, mas a questão está longe de ser uma novidade. A exemplo da crise hídrica, ela acontece por uma combinação da força da natureza e da falta de planejamento. Os estragos por toda a cidade poderiam ser minimizados se houvesse um acompanhamento efetivo da arborização.

O único censo disponível identificou aproximadamente 650 000 plantas em calçadas e canteiros. Desse total, sabe-se o estado de saúde de apenas 48 000 delas (7%). A informação é essencial para calcular o risco de queda e a correta manutenção. A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente reconhece o problema. “É como diagnosticar pessoas: é preciso laudo técnico e demanda dinheiro. Vamos prosseguir nesse levantamento contratando empresas privadas”, promete o secretário Wanderley Meira do Nascimento.

Segundo o professor Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da USP, muitas árvores caem com as chuvas por estar doentes pela ação de fungos. “Há casos que não recebem atenção desde o plantio, há setenta anos”, afirma. “A irregularidade de calçadas e canteiros também acarreta o estrangulamento da raiz e a perda de sustentação.”

Na madrugada de 29 de dezembro, um pau-ferro de 15 metros de altura e 10 toneladas desabou destruindo o telhado e os vidros da varanda de um apartamento no Planalto Paulista. Por sorte, ninguém se feriu. A madeira estava comprometida por fungos. Os proprietários do imóvel atingido são a dona de casa Oswaldina Nunes, de 85 anos, e o marido, José, 84.

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A árvore ficou escorada no prédio de três andares durante cinco dias, e a falta de energia durou quarenta horas. “Enquanto o tronco não era retirado, a gente ia dormir à luz de velas, com medo de que qualquer ventania fizesse com que ele se deslocasse”, lembra Oswaldina. “Não tenho ideia do prejuízo.O síndico vai acionar o seguro.”

A Associação dos Moradores dos Jardins América, Europa, Paulista e Paulistano encomendou em 2011 um estudo ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas sobre as 2 200 árvores dos bairros. Uma em cada três estava comprometida,e a prefeitura foi acionada em outubro de 2012. “Até agora apenas120 exemplares foram substituídos”, queixa-se Fernando José da Costa, presidente da entidade.

A Sociedade Amigos do Planalto Paulista também se mobilizou e vai realizar uma reunião com a prefeitura sobre oassunto. “Queremos saber também como está sendo feito o trabalho de poda pelos órgãos”, diz Hélio Higuchi, vice-presidente da entidade.

A Associação dos Moradores do Brooklin Velho tem um projeto pronto segundo o qual é necessário remanejar 20% das árvores da região. “Estamosem busca de patrocínio para executar o plano”, diz a presidente Regina Monteiro. Para ela e outras moradoras, representa perda de tempo esperar por uma ação efetiva do poder público. É mais fácil chover na Cantareira.

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A RAIZ DO PROBLEMA

Os principais motivos da queda de árvores

Falta de diagnóstico

Das 650 000 árvores mapeadas em calçadas e canteiros da cidade, sabe-se o estado de saúde de apenas 48 000 delas (7%). Com isso, praticamente não é feito trabalho de prevenção

Podas indevidas

Ações clandestinas levam ao apodrecimento das plantas

Pavimentação inadequada

Irregularidades em calçadas e canteiros provocam o estrangulamento da raiz e a perda de sustentação

Fonte: prefeitura e Marcos Buckeridge (Instituto de Biociências da USP)

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A QUEM RECORRER

Em casos de risco:

Em situações de emergência, como de queda iminente de árvore, acionar o Corpo de Bombeiros (193), a Defesa Civil (199) ou a prefeitura (156). Para pedidos de poda, remoção ou vistoria é preciso notificar a subprefeitura da região.

Indenização por danos:

Entrar com ação na Justiça comum contra a prefeitura.

Fontes: prefeitura e Procon-SP

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