Avatar do usuário logado
Usuário

Por que “segunda”?

Por Ivan Angelo 11 nov 2016, 23h00 | Atualizado em 27 dez 2016, 14h58
Crônica segunda-feira
Crônica segunda-feira (Negreiros/)
Continua após publicidade
  • Sete e meia da manhã de segunda-feira e o garotinho, sério, fazendo bico de emburrado, entra no elevador em uniforme de colégio, tão pequeno e já arrastando mochila, nem olha para a babá que vai levá-lo até a perua escolar. Olha para mim e saca uma questão filosófica: “Por que hoje não é primeira-feira?”. Abro os olhos. Ele emenda um argumento que para mim apresenta o mesmo nível de dificuldade: “Antes de segunda, tinha de ser primeira-feira”. Talvez por me ver sem palavras, esclarece sua bronca:

    — Daí, eu não tinha de ir pra escola.

    — Por que não? — é o que consigo dizer, carente de inteligência lógica para acompanhar seu raciocínio.

    — Porque não ia ser segunda-feira.

    Continua após a publicidade

    + O caso do falecido

    Questões complicadas demais para uma conversa de elevador. Paramos no térreo e a babá encaminha o garoto que havia acordado com humor de black bloc, tangendo-o para a porta com um paciente “Chegou, Davi, fala tchau pro moço”. Foi melhor mesmo deixar aquela conversa para depois, quando eu estivesse mais preparado. Lembrei-me do livro do escritor Ignácio de Loyola Brandão, O Homem que Odiava a Segunda-Feira, e considerei que, se um adulto podia ter aquela bronca contra um dia da semana, por que não um garoto de 6, 7 anos?

    Chamada por outronome, Monday, que significa “dia da Lua”, em inglês, diz-se em uma canção pop dos anos 70 que a segunda-feira não é confiável, que um amor da segunda-feira de manhã pode não estar com você na segunda à noite. A canção, Monday Monday, do grupo The Mamas and the Papas, virou um grande sucesso.

    Se o meu garoto do elevador fosse de fala e cultura inglesas, não teria na palavra Monday um argumento para a sua bronca, o tema do seu mau humor seria outro. O português é talvez a única língua europeia em que os dias da semana não estão associados aos astros — Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno —, como nas línguas românicas, ou a divindades celtas, como nas línguas dos povos nórdicos e britânicos. O domingo, o Dies Dominica (dia do Senhor) da Roma cristianizada, era o Solis Dies (dia do Sol) da Roma pagã.

    Continua após a publicidade

    Quando o latim eclesiástico mudou os nomes pagãos dos dias da semana, o Solis Dies tornou-se prima feria, primeira-feira, o Lunes Dies (dia da Lua) tornou-se secunda feria, o Martis Dies (dia de Marte) tornou-se tertia feria, e assim por diante. Só o português conservou popularmente essa mudança cristã, adotando os dias da semana como “de feira”, de segunda a sexta. Por outro lado, acompanhando suas línguas irmãs — espanhol, francês e italiano, entre outras —, fez da prima feria o domingo (Dies Dominica) e da septima feria, o sábado, que vem do Shabat judaico, o dia em que o Senhor descansou da trabalheira de criar este mundo.

    + Acabou o espetáculo

    Lição de casa feita, eu ansiava por novo encontro com meu pequeno companheiro de elevador para continuarmos a conversa. Coincidiu que só na segunda-feira seguinte ele entrou, puxando a mesma mochila de rodinhas, desta vez sem aquele bico de emburrado. Deve ter dormido bem, comido bem, tudo em paz. Perguntei se não estava mais com bronca da segunda-feira e ele disse que não, que a professora tinha explicado que o domingo é que é oprimeiro dia da semana, primeira-feira. Aí, ele me embatucou de novo, com outra questão complicada: 

    — Se domingo é o primeiro dia, por que falam “fim de semana”?

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja SP* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do SP

    A partir de R$ 39,99/mês