Avatar do usuário logado
Usuário

“Tirar Cinemateca de São Paulo é ilegal”, afirma MPF

Governo federal planeja mudar a instituição para Brasília, o que desrespeitaria o contrato pelo qual o acervo foi doado à União, afirma procurador

Por Pedro Carvalho 22 jul 2020, 18h36 | Atualizado em 8 set 2025, 08h46
cinemateca
Exibição do filme O Menino e o Mundo, no projeto Cine Parque (Rodrigo Merces/Veja SP)
Continua após publicidade

O governo de Jair Bolsonaro (sem partido) cometerá “uma ilegalidade” caso insista em transferir a Cinemateca para Brasília, afirma o procurador Gustavo Torres Soares, autor da ação do Ministério Público Federal contra a União motivada pela crise na instituição cultural.

Conforme mostrou Veja SP, o contrato pelo qual a Cinemateca — originalmente privada — foi doada à União, em 1984, exigia que o acervo permanecesse em São Paulo e que tivesse mantida a sua autonomia financeira, administrativa e técnica.

“Desrespeitar os termos da doação seria uma covardia, uma deslealdade e uma imoralidade”, afirma Soares. “Se a União consultar sua Advocacia Geral antes de tomar a decisão, o órgão seguramente irá alertá-la para o fato de que se trata de uma medida ilegal”, diz o procurador — que, no passado, atuou como advogado da União.

No início da semana, a coluna Radar, da revista Veja, mostrou que o Executivo colocou em marcha um plano para transferir a Cinemateca para Brasília. O senador Izalci Lucas (PSDB-DF) foi escalado para encontrar uma sede para a instituição na capital federal. “Estou tentando identificar um local para poder disponibilizar ao Ministério do Turismo [atual responsável pela Cinemateca]”, disse o senador à coluna. “Temos o CCBB do Banco do Brasil, por exemplo, e outras opções de lugares dentro do patrimônio público da União”, ele afirmou.

Procurados, o Ministério do Turismo e a Secretaria Especial de Cultura não se manifestaram sobre os planos de mudança do acervo.

Continua após a publicidade

A Cinemateca passa por uma crise financeira e administrativa. Em dezembro, o Ministério da Educação encerrou um contrato que mantinha com a Roquette Pinto, organização social (OS) sem fins lucrativos que geria o acervo. Esse contrato era relativo à gestão da TV Escola, mas tinha sofrido um aditivo para incluir a administração da Cinemateca, após a Roquette Pinto vencer um chamamento público para gerir a instituição até 2021. Dois ministérios (Economia e Cidadania) pediram que o contrato fosse estendido, para evitar o abandono do acervo.

Mesmo sem contrato, a Roquette Pinto seguiu gerindo a Cinemateca, para manter as condições de segurança e a preservação do patrimônio. Mas, sem repasses, ficou com um rombo de 13 milhões de reais no caixa. Nos últimos meses, a OS, alegando falta de recursos, deixou de pagar as contas da Cinemateca, o que provocou o corte de serviços básicos e uma greve dos 150 funcionários, que não recebem salário desde março.

A dívida de 13 milhões está no centro de uma disputa entre a Roquette Pinto e o governo federal. Na semana passada, o secretário especial de cultura, Mário Frias, publicou um vídeo no qual afirma que “não existe amparo legal” para que o Ministério “assuma a dívida de um contrato não vigente”. A Roquette Pinto recusa um acordo que não inclua o pagamento do valor.

Continua após a publicidade

Para o MPF, existe base jurídica para a União pagar a OS. “Se fosse uma disputa estritamente financeira, como uma dívida bancária, poderia haver o entendimento de que não seria necessário o ressarcimento. Mas, por se tratar do cuidado com um patrimônio público, é legalmente possível regularizar retroativamente as despesas”, ele explica.

O procurador lembra que a própria União, no mesmo caso da Cinemateca, criou um precedente para esse tipo de pagamento. A Cinemateca gere o acervo desde janeiro de 2018. O contrato com o Ministério da Educação, porém, só ficou pronto em março daquele ano. Mas o Executivo aceitou pagar as despesas dos meses anteriores.

A ação civil pública movida pelo MPF pede que o governo renove o contrato com a Roquette Pinto por um ano e regularize os repasses não feitos à OS. A União, após conseguir uma prorrogação do prazo, tem até o final de julho para se manifestar. O processo corre sob responsabilidade do juiz Marco Aurelio de Mello Castrianni, da 1ª Vara Cível de São Paulo.

“O MPF deseja, acima de tudo, a urgente regularização do cuidado com a Cinemateca, seja pela Roquette Pinto, conforme os próprios órgãos técnicos da União haviam recomendado, seja pela assunção direta da atividade, seja por outra forma igualmente razoável; o que não se admite é a manutenção da atual falta de zelo”, conclui Gustavo Torres Soares.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Revista em Casa + Digital Completo
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Completo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 39,99/mês