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Renata Sorrah: “Atuar é o ofício da minha vida toda”

Atriz retorna aos palcos paulistanos com espetáculo gratuito no Teatro do Sesi-SP, fala sobre sua profissão, etarismo e meme inspirado na personagem Nazaré

Por Laura Pereira Lima
23 ago 2024, 08h31 •
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Renata Sorrah: atriz carioca retorna aos palcos paulistanos com espetáculo gratuito (Leo Martins/Veja SP)
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  • Renata Sorrah recebe a reportagem de Vejinha segurando uma apostila com todo o seu extenso portfólio. “É muita coisa… Já nem lembro de tudo, preciso da minha colinha”, diverte-se a atriz. De Heleninha Roitman a Nazaré, dois de seus papéis mais icônicos na TV, o rosto de Renata povoa o imaginário brasileiro há cinquenta anos, inclusive da nova geração, graças ao meme Nazaré Confusa, em que a personagem aparece rodeada de equações matemáticas. “Meu sobrinho, que mora em Nova York, conta para as pessoas que a tia é a Math Lady, e todos ficam loucos”, diz.

    Além das telas, a “cola” de Renata inclui grandes espetáculos teatrais, contemporâneos e clássicos, como As Três Irmãs, de Tchekhov, encenado no Teatro do Sesi há 25 anos. Agora, ela retorna ao mesmo palco com uma montagem inédita, que dialoga com o universo do dramaturgo russo. Ao Vivo [Dentro da Cabeça de Alguém], da Companhia Brasileira de Teatro, começa com uma atriz nos minutos finais de uma apresentação de A Gaivota. O espetáculo gratuito, escrito e dirigido por Marcio Abreu, convida o público a adentrar a cabeça dessa personagem, suas memórias e sonhos, enquanto ela vivencia uma epifania, inspirada em uma viagem transcendental vivida pela própria Renata.

    Como suas memórias pessoais entram na peça?
    Ela traz elementos de conversas que tive com o Marcio (Abreu). Cuidado com o que fala com um autor, porque você pode virar personagem (risos). Mas o texto traz vi­vências e sonhos de todos os cinco atores. A ideia central veio de uma história que contei para o Marcio. Eu estava ensaiando A Gaivota, de Tchekhov, com Jorge Lavelli no Rio de Janeiro. Quando estava indo pa­ra o ensaio, dirigindo sozinha pelo Aterro (do Flamengo), de repente a minha cabe­ça abriu. Entendi tudo. A matemática, a ciência, a química, a física, coisas que nun­ca entendi na escola, as relações huma­nas, o que é a gente… Essas perguntas fi­losóficas, como “O que eu estou fazendo aqui?”, “Para onde a gente vai?”, “De onde a gente veio?”. Lembro de ter pensado: “Mas é tão simples… A gente fica doido perguntando as coisas, e é simples”. Aí minha cabeça fechou. Não lembro das res­postas, mas lembro da sensação. Acho que quem me deu isso foi o teatro, que abre cabeças. Foi uma epifania. E Marcio incluiu a história na peça.

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    O texto fala sobre a profissão do ator. Como é sua relação com o teatro?
    A peça fala bastante disso, de como é bom ser atriz, poder olhar no olho do especta­dor e dizer algo que pode trazer uma luz, uma reflexão nova. É uma profissão que traz pânico, medo, prazer, conhecimento. É o ofício da minha vida toda. Com ele eu fiz tudo: cresci, fui mãe, me apaixonei, me desapaixonei, fui avó, viajei, conheci pes­soas. Acho muito bonita essa profissão em que as pessoas te aplaudem.

    “Não acho que ator combina com ego trip. Sempre teve, e sempre terá, aqueles que se acham melhores do que tudo, mas ser artista não é isso”

    Qual é o papel do ator, para você?
    A arte, qualquer que seja, vem sempre com uma bandeira na frente, puxando as pessoas. Em momentos difíceis, a arte tenta se salvar e mostrar caminhos. É sempre van­guarda. Mas não acho que ator combina com ego trip. Sempre teve, e sempre terá, aqueles que se acham melhor do que tudo, mas ser artista não é isso.

    O que achou de ter virado meme com a personagem Nazaré, de Senhora do Destino?
    Gostava muito de interpretar a Nazaré. Ela era uma vilã muito engraçada. Senhora do Destino era uma novela muito boa, e os memes a mantiveram relevante. Mas às vezes é terrível. Lembro uma vez, num festival em Curitiba, em que passei por um bar cheio de jovens e ouvi: “Olha lá, aquela mulher do meme”. A gente ralando, fazendo teatro, exaustos… para virar “a mulher do meme” (risos). Nem me perten­ce mais aquilo. Viralizou e até hoje faz sucesso. Não tenho controle, mas ele não me incomoda.

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    Quais são suas expectativas para o remake de Vale Tudo?
    Acho que não vai ser igualzinho à versão original. Isso eu acho muito inteligente. É uma novela que tem mais de trinta anos. Agora são outros tempos. Conquistamos muitas coisas desde então. A novela teve o primeiro casal gay, duas mulheres, que o público conseguiu tirar. Eram duas atrizes ótimas e mataram uma das personagens. Não tinha nenhum personagem negro. En­ tão, isso tudo a gente ganhou, e isso tudo vai aparecer no remake. Aí acho bacana fazer remake. Estou contando que seja as­ sim. Ainda com problema de alcoolismo, de mau­caratismo, claro.

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    Qual foi a importância do papel de Heleninha na sua carreira?
    Foi importante porque foi uma novela de muito sucesso. As pessoas saíam de noite e quem bebia muito dizia: “Vou de Heleninha hoje”. A novela é uma coisa popular; se você atinge as pessoas e fala sobre coisas baca­nas, é muito bom. Ali eu falava de alcoolismo e da importância do AA, por exemplo.

    Na peça vocês falam sobre etarismo. Como tem sido a recepção de atrizes mais velhas na televisão?
    Nunca me senti vítima de etarismo. Mas existe, e é importante falar sobre isso. Não só com as atrizes, mas com as mulheres, existe uma cobrança para não envelhecer­mos. Vem do machismo também. Isso apa­rece na televisão; as atrizes vão ficando mais velhas e vão ficando mães, avós, bisavós, enquanto os homens ficam galãs por muito tempo. Mas isso está diminuindo.

    O que acha de influencers e ex-BBBs que viram atores?
    Tem vários ex­BBBs, por exemplo, que são ótimos atores, como a Grazi Massafera. Vo­cê pode não gostar do programa, o que é o meu caso, mas às vezes dali sai alguém com talento para atuar. Não é porque fez BBB que você tem que ser execrado a vida toda. Mas precisa fazer um bom trabalho.

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    Como é a recepção do público de São Paulo?
    Sempre que venho do Rio para fazer peça aqui, tenho uma ótima relação com o pú­blico. Me lembro quando apresentei Grande Pequeno no Sesc Consolação. Foi uma reação muito exagerada, uma lembrança que tenho pro resto da vida. Foi tipo uma ovação, uma coisa muito linda. O público de São Paulo gosta muito de teatro, acom­panha e frequenta, então sempre tive mui­ta alegria de fazer aqui.

    Publicado em VEJA São Paulo de 23 de agosto de 2024, edição nº 2907

     

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