Avatar do usuário logado
Usuário

Quarentena altera os rituais de luto tradicionais

Iniciativas on-line elaboram manuais para vivenciar o processo de despedida, homenagear os mortos e honrar a vida mesmo virtualmente

Por Helena Galante Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
8 Maio 2020, 06h00 • Atualizado em 27 Maio 2024, 18h19
 (Marina Papi/Divulgação)
Continua após publicidade
  • “Pra todo mundo que cruzava seu caminho, ela era a Vó.” Wilma Bassetti Lirola, 76 anos, vítima do coronavírus em São Paulo, não é um número. “A falta que ele faz é a prova de todo o bem que ele fez.” Alberto Bandeira Peret, 92 anos, vítima do coronavírus no Rio de Janeiro, não é um número. “O funcionário mais prestativo da livraria Independência.” José Augusto de Souza, 58 anos, vítima do coronavírus em Mossoró, não é um número. Esses e outros memoriais fazem parte do projeto Inumeráveis, criado pelo artista paulistano Edson Pavoni. Em colaboração com Rogério Oliveira, ele homenageia quem o cotidiano bruto da pandemia reduziu a estatística. Em menos de uma semana, mais de 33 000 pessoas passaram a seguir a página no Instagram. Pavoni relata seu desconforto de acordar todo dia com um número novo de mortes: “Minha pesquisa é sobre conexão. Vi que esses números iam perdendo significado e a gente se tornando insensível a eles. Tinha a inquietude de falar que não é sobre uma curva numérica, são pessoas”. A iniciativa de coletar relatos de vida para falar da morte integra um movimento que ganhou força com a crise atual: o de olhar para o luto de forma menos reducionista.

     + Assine a Vejinha a partir de 6,90 mensais.

    Luto-2
    (Marina Papi/Divulgação)

    Presidente da Associação dos Cemitérios e Crematórios do Brasil e do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, Gisela Adissi trabalha há dezoito anos no setor funerário. “Havia certa percepção negativa sobre os rituais fúnebres, como o velório. Poucas pessoas ainda faziam uma missa de sétimo dia, por exemplo”, afirma Gisela. “Agora, com a privação do contato, ficou claro quanto os rituais fazem falta e são importantes para elaborar o luto.” Com a chegada do novo coronavírus ao país, o primeiro passo de Gisela foi elaborar um protocolo de práticas para o setor, como medidas de segurança para funcionários. As necessárias providências burocráticas, porém, não chegavam nem perto de dar conta do vazio emocional de quem fica. Foi então que ela e mais seis amigas da plataforma digital Vamos Falar sobre o Luto? lançaram a cartilha Novos Rituais do Luto em Tempos de Distanciamento Físico. “O ritual é tudo o que traz consolo. Com velórios e enterros comprometidos, como a gente transforma esse contato num bilhete, numa conversa de Zoom?”, pergunta Fernanda Figueiredo, também integrante do projeto.

    Luto-3
    (Marina Papi/Divulgação)

    As soluções apresentadas podem até parecer simples, mas às vezes escapam à memória num momento conturbado. Incluem sugestões como escrever uma carta (embalada em saco plástico e devidamente higienizada) para entregar a um paciente internado em fim de vida ou pedir à família e amigos que acendam uma vela e compartilhem por WhatsApp o momento após a perda de um ente. Qualquer proposta não tem a intenção de diminuir a gravidade inegável da situação. “Não vai ser mais fácil, nem mais leve”, afirma Tom Almeida, idealizador da plataforma @infinito.etc. “Hoje a forma como vivemos a morte tem dois sentimentos predominantes, a dor e o medo. Quando aprendemos a nos colocar de maneira mais vulnerável, a falar sobre os sentimentos, podemos abrir espaço para a morte ser uma experiência completa, que inclui presença, amor, gratidão…” No Guia de Rituais de Despedidas Virtuais, há instruções para ajudar quem deseja realizar uma cerimônia digital. Vale encerrar o encontro, por exemplo, com uma música para homenagear o falecido. A partir da próxima semana, será também possível contratar o serviço de suporte avançado, que inclui profissionais como cerimonialista para conduzir o encontro e um escritor para fazer um obituário bonito. Para este domingo (10), Dia das Mães, Tom Almeida está organizando uma cerimônia coletiva para homenagear as mães que faleceram em decorrência da Covid-19 e também ajudar quem, por causa da quarentena, teve de riscar da agenda pequenos gestos simbólicos, como levar flores ao cemitério.

    Continua após a publicidade
    Luto-4
    (Marina Papi/Divulgação)

     + Assine a Vejinha a partir de 6,90 mensais.

    Diante do compreensível medo da morte — e do tabu que barra qualquer conversa sobre o assunto —, os especialistas investem numa linguagem artística para iniciar uma conversa. Valem ilustrações de traços delicados como as destas páginas, feitas pela artista Marina Papi para o site Vamos Falar sobre o Luto?, ou até abordagens bem- humoradas, como as dos palhaços. Fundador dos Doutores da Alegria, em 1991, Wellington Nogueira é também professor da aula “Diálogos com a morte”, cuja edição mais recente aconteceu na quinta (7), na The School of Life. Entre os tópicos abordados estão os nossos próprios limites para nos preparar para as perdas diárias e as transições de vida e algumas ferramentas para vivenciar o sofrimento. “Uma vez conheci uma profissional de saúde que tinha sido freira. Nós nos reunimos com médicos e enfermeiros para contar histórias, e muitas delas tinham a ver com a morte. Ela me disse que tinha aprendido que era assim, contando histórias, que trazíamos alguém à vida. Para ela, era o mistério da ressurreição, e não era pouca coisa”, lembra Wellington. “Dentro dos hospitais, entendi dimensões da morte. Perdemos muitas crianças, e não dava só para falar ‘bom, a vida é assim’.” Nessas horas, os artistas se reuniam e faziam rituais simples, como ir ao refeitório do hospital comer a comida favorita da criança e falar com carinho sobre ela. “Quando confrontamos essa situação, numa relação que não é pautada pelo medo, ficamos olho no olho com a morte. E isso dá um alívio enorme, traz consciência e faz ter vontade de viver”, afirma o palhaço

    Continua após a publicidade
    Luto-1
    (Marina Papi/Divulgação)

    Publicado em VEJA SÃO PAULO de 13 de maio de 2020, edição nº 2686.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja SP* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do SP

    A partir de 29,90/mês