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Músico cria fábrica de vinil que já fez 200 000 cópias de álbuns

Michel Nath, 44, fechou a venda de pelo menos 12 000 discos até janeiro e afirma que sempre vai ter quem queira materializar a sua própria obra

Por Juliene Moretti Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 25 dez 2020, 10h35 | Atualizado em 5 set 2025, 11h24
Nath segurando um vinil em sua fábrica
Nath e disco de 10 polegadas: formato novo, lançado este ano, já em produção (Leo Martins/Veja SP)
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Quando o músico e produtor cultural Michel Nath, 44, encontrou em um ferro-velho prensas de um maquinário de fabricação de vinil da gravadora Continental, avistou “a luz no fim do túnel”, segundo ele mesmo. Fazia nove meses que aguardava o próprio álbum autoral encomendado fora do país. “O prazo era de quatro meses, mas se transformaram em nove, e eu me questionava por que não tínhamos essa estrutura por aqui”, lembra.

Juntou esse achado a outro equipamento da RCA, o de corte da matriz que dá origem ao som do vinil, que também estava esquecido, convocou um ex-funcionário da antiga gravadora e trabalharam por mais nove meses para pôr os aparelhos em operação. “Fiquei sete deles tentando fazer a prensa subir e descer. Não tinha ideia de como funcionava e o perrengue só estava começando”, conta.

Nascia ali a Vinil Brasil, que já pôs nas ruas 300 títulos e 200 000 cópias de álbuns.“Parece pouco se comparar com épocas em que a Xuxa tinha 1 milhão de discos vendidos, mas hoje é um produto artesanal, feito para um nicho que realmente aprecia e exige qualidade”, explica. “E faço por amor mesmo: não sou ingênuo, ter empresa no Brasil não é fácil, mas penso que é um legado para a cultura.”

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Além das dificuldades de todo empreendedor, sem o know-how específico para a empreitada, ele encarava, ainda, o desafio tecnológico. A primeira leva de discos foi a obra própria SolarSoul, e pouco tempo depois veio a encomenda “de fora”, Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares. “Tinha uma carga energética muito forte, o disco e a produção. Foi uma emoção surreal”, diz. Ele lembra que foi um período estressante, que serviu para o amadurecimento. “Tomo muito cuidado com os passos que dou. Se tenho um objetivo, não vou pular etapas, e, às vezes, é necessário voltar para trás”, explica. Foi nesse período que decidiu desligar as máquinas, realinhar as estratégias e reorganizar equipes. A produção ficou restrita a pequenas encomendas de músicos amigos.

Em setembro de 2017 decidiu voltar a todo vapor e encabeçou até mesmo uma mudança de endereço, no ano passado, de um galpão na Barra Funda para um espaço de 500 metros quadrados no Bom Retiro. De casa nova, aproveitou o momento para realizar uma ideia que surgiu junto com a empresa, a de abrir um selo. “Penso muito no que podemos deixar para a cultura nacional, por isso apostamos em projetos que consideramos de relevância cultural, de qualidade, e que talvez a indústria da música não esteja olhando”, diz.

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O grupo de rap paulistano Z’África foi o escolhido para estrear a iniciativa. As emoções de 2020 foram muitas. Ainda no começo do ano, um incêndio na fábrica de acetato (material usado para a criação do disco-matriz) na Califórnia já causava preocupação. A alta do dólar também não estava ajudando. Daí veio a pandemia. Nath reduziu a equipe, estratégia que já vinha sendo desenhada, e fechou por cinquenta dias. A partir de junho, organizou com os funcionários meios de viabilizar a retomada, com revezamento e horários flexíveis, para evitar transporte público cheio. A demanda dos artistas ressurgiu. “Eles mesmos começaram a se mexer e criar”, diz.

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O retorno calhou com o lançamento de um novo formato de disco, o de 10 polegadas, um intermediário entre o compacto e o LP. Segundo ele, serve como opção, por exemplo, para os artistas que ainda não têm um trabalho completo e DJs que podem mostrar as faixas originais de suas criações. “Hoje é tudo efêmero, descartável, mas sempre vai ter gente que quer materializar a sua obra e ouvir daqui a vinte anos”.

Aproveitou ainda para pôr o clube de assinaturas em ação, com o envio de discos selecionados para os clientes. São dois tipos de planos, o mensal, de 125 reais, e o anual, de 1250 reais, com direito a doze álbuns. O Som das Américas, da Banda Black Rio, foi o primeiro a ser distribuído entre os assinantes em novembro. A Dança dos Não Famosos, do Mundo Livre S/A, é o título de dezembro e, em breve, deve entrar o duplo do grupo Nomade Orquestra, Vox Populi/Vox Machina. E a produção continua: de novembro a janeiro, fechou quarenta títulos para ser entregues, o que totaliza a fabricação de cerca de 12 000 discos por mês.

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Pelos planos de Nath, a Vinil Brasil também será uma espécie de centro cultural, que receberá palestras, encontros e visitas de crianças para conhecer o processo de fabricação. Nath reservou até mesmo uma área que futuramente vai abrigar shows. “Não montei a empresa para ficar rico, o que me motiva é o amor e o respeito que tenho pela música e o interesse em desenvolver um trabalho positivo para o país.”

PVC é aquecido para depois ser moldado; após ser prensado, o disco é cortado um a um Finalização: nesta etapa, é só embalar
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Publicado em VEJA São Paulo de 30 de dezembro de 2020, edição nº 2719

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