Luiz Antonio Simas: “Carnaval é uma transgressão ao projeto colonial do Brasil”
O professor, compositor e escritor carioca, cuja obra inspira o enredo da escola Independente Tricolor, fala sobre samba, religião e seus próximos projetos
Cultura brasileira é o assunto preferido de Luiz Antonio Simas, 58. Conversar com o professor carioca, fonte inesgotável de saberes sobre o Carnaval, é garantia de escutar versos de um samba-enredo lançado meio século atrás.
Autor de 32 livros, sua obra é ainda mais extensa em músicas, com composições gravadas por artistas como Marcelo D2, Criolo, Maria Rita e Mônica Salmaso. Vencedor de dois prêmios Jabuti, relançou em janeiro o livro Pra Tudo Começar na Quinta-Feira (Mórula Editorial, 260 págs., R$ 74,00), em que mergulha, com o coautor Fábio Fabato, na história dos sambas-enredo cariocas.
Jurado do Estandarte de Ouro do Rio de Janeiro entre 2013 e 2024, neste ano sua obra está presente no Carnaval de São Paulo. O enredo da Independente Tricolor, N’Goma — A Primeira Festa na Manhã do Mundo, que desfila no domingo (15) pelo Grupo de Acesso 1, é baseado em seu livro Pedrinhas Miudinhas (Mórula Editorial, 144 págs., R$ 44,00). Leia a seguir trechos da conversa, que se deu entre cantorias e muita história.
O enredo da escola paulistana Independente Tricolor é baseado em um texto seu. Qual a relevância do tema?
Primeiramente, tenho uma relação que considero fecunda e de respeito com o samba de São Paulo. Sou parceiro de sambistas como Douglas Germano. Então, é uma alegria estar presente no Carnaval paulistano com o texto que inspirou o enredo, que se chama O Brasil Nasceu da Melancolia de Zâmbi, em que reúno algumas histórias sobre o mito banto do nascimento de Ingoma, que seria o primeiro tambor do mundo.
Por que São Paulo não é “o túmulo do samba”, como disse Vinicius de Moraes (1913-1980)?
São Paulo tem uma tradição fundamental. O samba é gestado na África, mas nasce no Brasil, como uma árvore frondosa com características muito específicas. Você tem um tipo de samba muito interessante no estado, que é o samba de bumbo campineiro, em Pirapora do Bom Jesus. Construiu-se um imaginário que concentra o samba paulista na figura do Adoniran Barbosa, que é admirável. Mas outros expoentes não podem ser esquecidos, como Geraldo Filme. Até vou fazer aqui uma provocação. O Carnaval de São Paulo tem uma tradição belíssima dos cordões carnavalescos. Até que ponto o movimento de escolas de samba paulistas não se aproximou demais do modelo carioca?
Qual sua visão sobre a mercantilização do Carnaval de avenida, com áreas vip cada vez maiores?
Há uma diferença entre ter camarote e ocorrer a “camarotização”. Até porque existe uma economia da festa que contempla muita gente. O problema são os camarotes ocupando um espaço enorme, como na Marquês de Sapucaí, enquanto as arquibancadas populares minguam. O que mais me incomoda é que a maioria das pessoas nos camarotes não tem interesse pelo que acontece na pista. Hoje a questão mais urgente para os gestores do Carnaval no Brasil é a popularização dos espaços de desfile — equalizar o turismo contemplando também o público da cidade.
Sobre uma de suas frases marcantes: por que “o Carnaval é o Brasil que deu errado”?
Parto do princípio de que o Brasil como Estado-nação foi projetado dentro de uma dinâmica de exclusão social, concentração de renda e apagamento de culturas não brancas. É um projeto colonial horroroso, que foi bem-sucedido, tendo dizimado grande parte de sua população originária e se assentado em quase quatrocentos anos de escravidão. O Carnaval tem um sentido de transgressão a esse projeto. A grande pensadora Lélia Gonzalez (1935-1994) dizia que os africanos e seus descendentes se apropriam de um calendário de festas eurocatólico para reconstruir sentidos coletivos de vida. Uma escola de samba é uma instituição que negocia o tempo todo — com o poder público, a cidade, o mercado, o turismo, a contravenção. Foi criada para construir sociabilidades negras e redes de proteção no pós-abolição. O Carnaval escapa do projeto de horror que é o Brasil, digamos, institucional.
“O Carnaval no Brasil sempre foi mais filho de conflitos do que de consensos”
Quais seus próximos projetos?
Tenho um estudo sobre religiosidades populares que quero transformar em pelo menos três livros. Mas o mais imediato é uma investigação sobre os diversos sentidos que São Jorge tem na cultura popular. Não o processo de santificação do homem, mas a humanização do santo. Virá em breve como livro.
Sua vocação é ser professor?
Tenho dificuldade de me definir como escritor. Nunca tive essa intenção. Queria ser músico, mas fracassei. Tocava cavaquinho, violão, bandolim, mas não tive disciplina e percebi que não tinha talento para ser instrumentista. Me sinto no meu hábitat quando dou aula; falo melhor do que escrevo. Gosto de estar em contato com alunos, em sala e na rua, e sigo fazendo isso hoje.
Como equilibrar o crescimento do Carnaval de rua com a manutenção da espontaneidade das festas?
As festas de rua hoje têm que lidar com três elementos. O primeiro é a ordem pública, que vai atuar para disciplinar a folia. O segundo é o imaginário que demoniza o Carnaval, marcado pelo avanço de certas designações pentecostais no Brasil — não todas — que o desqualificam, no imaginário da promiscuidade e do pecado. E o terceiro, e mais preocupante, o mercado. Ele é sedutor e tenta domesticar a festa, adequando-a a uma perspectiva de financeirização. É a cerveja que patrocina, o bloco vinculado a determinada marca, o camelô que só pode vender aquilo… Que espaço ainda existe para a espontaneidade? Eu não sei. O Carnaval no Brasil sempre foi mais filho de conflitos do que de consensos. É um conjunto plural de festas que coloca em questão uma série de coisas, inclusive o direito à cidade.
Casos de intolerância contra religiões de matrizes africanas seguem recorrentes no Brasil. Qual a importância dos enredos sobre candomblé e umbanda hoje?
Não é nem intolerância, o termo mais preciso seria racismo religioso. O preconceito contra as religiosidades brasileiras de matrizes africanas se fundamenta em um campo de desqualificação de saberes não brancos. Outro detalhe é que a sua pergunta e a minha resposta já denotam um preconceito, porque ninguém chama o cristianismo romano de religião de matriz europeia. É muito positivo que as escolas de samba tenham enredos religiosos, porque escancaram a relevância cultural que as Áfricas que se redefiniram na diáspora têm para a cultura brasileira. Mas também penso que poderíamos ir muito além da religião. Você pode falar de tudo a partir da África, como ciência, filosofia, história e grandes personagens.
Publicado em VEJA São Paulo de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982







