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Lincoln Péricles: o cineasta do Capão Redondo que conquista elogios pelo mundo

Também conhecido como LK, diretor acaba de ser premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes e tem um ano promissor pela frente, com projetos em 4 continentes

Por Mattheus Goto
12 fev 2026, 18h05 • Atualizado em 13 fev 2026, 12h17
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Vulgo LK: o diretor e professor viaja o mundo com trabalho inovador (Soraya Ursine/Divulgação)
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  • “Um cinema longe do imaginário ligado às favelas, que inventa sua própria forma, áspera e necessariamente imperfeita, entre intervenção e arquivo visual do bairro.” Assim descreveu seu trabalho a revista francesa Cahiers du Cinéma, uma das mais célebres do mundo sobre crítica cinematográfica, em artigo publicado em 2020. O perfilado era Lincoln Péricles, 36, também conhecido como LK.

    Nascido e criado no Capão Redondo, o cineasta está no “corre” há dezoito anos e hoje tem projetos em países como Estados Unidos, México, Equador, França, Portugal, Uganda e Quênia.

    Seu curta, Entrevista com Fantasmas, acaba de ser premiado pelo júri oficial da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, encerrada no último dia 31. O filme acompanha uma conversa entre Lincoln e uma jovem atriz que afirma ter trabalhado com Marilyn Monroe (1926-1962) e Elizabeth Taylor (1932-2011). Com bom humor e toque experimental, esse deslocamento temporal celebra os clássicos ao mesmo tempo que reflete sobre o cinema que “não existe” — por falta de verba, acesso ou outros motivos.

    “É uma luta constante”, diz sobre a profissão na periferia. “Falta política pública para o audiovisual, mas não só. Tem dia que falta água, falta transporte”, ressalta ele, que mesmo ganhando dinheiro não deixou o bairro de origem.

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    Bastidores de ‘Filme Sem Querer’, de LK (Marcos Vellasco/Divulgação)
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    Filho de um funcionário público mineiro e uma mulher indígena paranaense, que trabalhou como empregada doméstica e recepcionista, LK se interessou por cinema na época do VHS. “Minhas primeiras recordações vêm das fitas piratas”, revela. Depois, “chegou DVD na quebrada”, com making-of das produções, quando pegou gosto de vez.

    Aos 16 anos, começou a filmar com o celular da mãe. “Eu considerava aquilo poesia”, recorda ele, que também era compositor de rap. Prestes a cursar educação física, mudou de rota e montou a empresa de vídeos de casamento Astúcia Filmes — hoje sua produtora. Após o primeiro curta, Cohab (2013), exibido no festival Kinoforum, vieram outras produções que o levaram a ganhar uma bolsa na Academia Internacional de Cinema, onde se formou em direção, e a viajar para fora do país pela primeira vez, por meio de uma ação afirmativa da Spcine.

    “Quando alguém abriu a porta, não parei mais.” Em 2025, foi a Cannes para o Marché du Film, segmento de mercado do festival, e conheceu Spike Lee e a família de Agnès Varda, que são grandes ídolos — uma carta que Lincoln escreveu para Varda está no catálogo da exposição sobre a cineasta em cartaz no Instituto Moreira Salles (IMS). Ele também se inspira em nomes do rap, como Mano Brown e Negra Li.

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    Para o cineasta, a maré boa com O Agente Secreto (2025) é importante pelas manifestações públicas do diretor Kleber Mendonça Filho e do ator Wagner Moura. “Toda fala deles vem com a noção de que fazem parte de um país e de que cinema é um bem público. O governo tem que olhar para isso.” Porém, ele vê que as láureas talvez não sejam tão revertidas para a periferia. “Não posso sobreviver de moda. Tenho expectativas baixas.”

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    Lincoln Péricles e Spike Lee em Cannes (Divulgação/Divulgação)

    Professor de produção e preservação no IbiraLab, LK está mais focado nas realizações como cineasta neste ano. Deve gravar três longas, escrever um roteiro que se passa na periferia de Los Angeles e fazer uma residência de seis meses no centro parisiense Cité Internationale des Arts. Nesta semana, outra produção sua, Mutirão: o Filme, está sendo exibida na China e ele acaba de ser selecionado pelo Fundo Hubert Bals, da Holanda, que financiará um de seus projetos — como já aconteceu com Kleber Mendonça Filho em Som ao Redor (2012), por exemplo.

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    Em paralelo, LK busca verba para a Cinemateca da Quebrada, projeto de preservação de obras da periferia. “Faço filmes que alimentam, que são como uma casa, para a minha classe, meu povo.” O olhar particular sobre sua aldeia o levará ainda mais longe.

    Publicado em VEJA São Paulo de 13 de fevereiro de 2026, edição nº 2982.

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