Eunice Paiva fala sobre morte de Rubens em documentário restaurado de 1979

Curta também traz imagens de Clarice Herzog e Thereza Fiel e ficará disponível no site da ONG Cinelimite; confira outras iniciativas que homenageiam a advogada

Por Ana Mércia Brandão
Atualizado em 20 mar 2025, 15h12 - Publicado em 20 mar 2025, 14h08
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Eunice Paiva: advogada fala sobre a morte do marido em curta restaurado (Cinelimite/Divulgação)
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“Muitas pessoas estão sendo movidas pelo filme de Walter Salles. Agora, elas podem sair do cinema e ver a própria Eunice falando e como seu corpo carrega o trauma, a tristeza”, diz William Plotnick. Na toada de Ainda Estou Aqui, primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar de melhor filme internacional, William foi o responsável por restaurar, ao lado da cineasta Glênis Cardoso, o curta Eunice, Clarice, Thereza (1979), de Joatan Vilela Berbel. A obra traz depoimentos de Eunice Paiva sobre o desaparecimento e morte de seu marido, o ex­deputado federal Rubens Paiva. “Em se tratando de um filme que lida com a memória da ditadura, é uma parte da história que não podemos deixar para trás”, diz Glênis.

O filme também dá voz a Clarice Herzog, viúva do jornalista Vladimir Herzog, e Thereza Fiel, viúva do operário Manoel Fiel Filho, ambos assassinados pela ditadura, em 1975 e 1976, respectivamente, em relatos sobre a repressão numa perspectiva íntima.

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Clarice Herzog: viúva do jornalista Vladimir Herzog (Cinelimite/Divulgação)
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Thereza Fiel: viúva do operário Manoel Fiel Filho (Cinelimite/Divulgação)

O projeto faz parte da Iniciativa de Digitalização de Filmes Brasileiros da Cinelimite, ONG na Vila Mariana fundada por William, americano radicado no Brasil, com Gustavo Menezes. Na restauração, o curta­-metragem com duração de quinze minutos foi digitalizado em resolução 2K e teve seu som, cores e estabilidade corrigidos. “Também fizemos a preservação digital do filme, no nosso laboratório, com máquinas de fita LTO, que é a única forma segura de gravar esses arquivos”, completa Glênis. A obra ficará disponível gratuitamente no site da Cinelimite de segunda (24) até o dia 7 de abril. Ainda em 2025, a ideia da ONG é lançá-­la nos cinemas com outros três curtas restaurados pelo projeto.

Em Eunice, Clarice, Thereza, as cenas vividas por Fernanda Torres e Selton Mello na ficção são rememoradas por uma Eunice resoluta. “A prisão foi uma sensação de total isolamento, eu me sentia totalmente perdida no mundo”, diz, sobre o período de doze dias em que permaneceu sob interrogatório. Gravado em um mesmo fim de semana na casa das três mulheres em São Paulo, o curta foi exibido pela primeira vez na casa de Clarice, com Eunice presente, e, em seguida, em sindicatos. “A censura nunca ia liberar esse conteúdo”, diz o diretor sobre a falta de distribuição maior na época. “A restauração é importante porque permite que filmes antigos sejam exibidos em modo digital. Sou grato por essa iniciativa”, ressalta.

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Glênis Cardoso: restauração na sede da Cinelimite, na Vila Mariana (Wanezza Soares/Veja SP)

O cineasta de 74 anos decidiu fazer o documentário ao ver uma notícia sobre a vitória de Clarice na Justiça, que havia reconhecido a responsabilidade do Estado na morte de Vladimir Herzog. “Eunice já tinha esgotado todos os seus recursos e tinha uma necessidade grande de provar a morte do Rubens. Naquela época, estava exaurida. A vitória da Clarice foi como uma luz nova para ela”, conta Berbel.

A restauração esbarrou em um obstáculo: o cineasta não possuía mais a cópia em película de seu curta. Felizmente, ela havia sido enviada para preservação no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, pelo diretor de fotografia do documentário, Noilton Nunes. “Foi como um milagre!”, exclama William. Taí a prova viva da importância dos arquivos no resguardo do patrimônio nacional.

Iniciativas no Brasil e em São Paulo celebram o legado de Eunice Paiva

PL “Ainda Estamos Aqui”

O projeto do vereador Nabil Bonduki (PT) na Câmara Municipal propõe trocar nomes de ruas, avenidas, praças e equipamentos públicos que homenageiam agentes da ditadura militar por nomes de vítimas do período e pessoas que defenderam a democracia. Caso aprovado, Eunice dará nome a uma praça no Itaim Bibi, atualmente chamada Augusto Rademaker Grunewald, ex-ministro da Marinha e integrante da Junta Militar que governou o país em 1969. Já Rubens nomeará a Avenida Presidente Castelo Branco, trecho da Marginal Tietê. Entre outras mulheres homenageadas estão Zuzu Angel e Marli Coragem. “São outras ‘Eunices’ que merecem ser lembradas”, diz Nabil.

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Prêmio Eunice Paiva de Defesa da Democracia

Instaurado por decreto do presidente Lula, será entregue anualmente pelo Observatório da Democracia da Advocacia-Geral da União para pessoas que tenham colaborado de forma notória para a preservação do regime democrático no Brasil.

Rodovia Eunice Paiva

Outro projeto, do deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL), na Alesp, propõe nomear a Rodovia Castelo Branco como Rodovia Eunice Paiva.

Medalha Mérito Legislativo

Eunice foi uma das homenageadas de 2024 com a maior honraria oferecida pela Câmara dos Deputados, bem como Marcelo Rubens Paiva e Fernanda Torres.

Visita ao túmulo

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Passeio pelo Cemitério do Araçá: local de descanso de Eunice Paiva (Roberto Castiñeiras/Cortel SP/Divulgação)
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A concessionária Cortel São Paulo, emparceria com a historiadora Viviane Comunale e o pesquisador Thiago de Souza, do projeto O que Te Assombra?, realiza visitas guiadas mensais pelo Cemitério do Araçá. Um dos pontos de destaque do roteiro é o túmulo de Eunice. A iniciativa busca celebrar o legado de personalidades importantes. A próxima ocorrerá no domingo (23), às 10h, gratuitamente, me diante inscrição no site even3.com.br.

Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria

O projeto da deputada federal Erika Kokay (PT-DF) quer inserir o nome da ad vogada no documento que preserva a memória de pessoas importantes na formação histórica do país.

Publicado em VEJA São Paulo de 21 de março de 2025, edição nº 2936.

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