Exposição na Casa Bola homenageia o legado de Eduardo Longo
Com cerca de 60 obras, de nomes como Tunga e Waltercio Caldas, mostra Aberto5 reflete sobre a arte integrada à paisagem urbana
Uma mostra de arte e design que se integra à arquitetura urbana, fazendo dela uma obra em si. Pode ser definido, assim, o cerne da exposição coletiva e itinerante Aberto, que fica em cartaz de 7 de março a 31 de maio, no bairro do Itaim Bibi.
Em sua quinta edição, a coletiva vai ocupar a Casa Bola — projeto dos anos 1970, do arquiteto Eduardo Longo, 83 — e se expandir por cerca de seis quarteirões da Avenida Brigadeiro Faria Lima. “Nesta edição, pela primeira vez, vamos ocupar também o espaço público”, informa Filipe Assis, empreendedor cultural que idealizou a Aberto como plataforma expositiva em 2022, com a intenção de investigar as relações entre arquitetura, arte e design.
A partir da escolha do local — frequentemente, casas modernistas — diferentes artistas e designers contemporâneos são convidados a criar ou disponibilizar obras que dialoguem com as características e peculiaridades do imóvel. Surge, assim, uma conexão entre as linguagens.
A nova edição — que tem curadoria de Claudia Moreira Salles e Kiki Mazzucchelli, além do próprio Filipe — vai reunir cerca de sessenta obras de arte e design, assinadas por cinquenta brasileiros e estrangeiros. Os artistas fazem parte do elenco de algumas das maiores galerias da cidade, como Raquel Arnaud, Nara Roesler, Fortes D’Aloia & Gabriel, Mendes Wood DM e Casa Triângulo.
Entre eles, estão nomes bem conhecidos, como Claudio Tozzi, Rubens Gerchman, Iole de Freitas, Tunga e Waltercio Caldas. “Procuramos unir artistas consagrados e emergentes na arte contemporânea”, diz Filipe. “Cerca de 90% das obras foram comissionadas e refletem o universo lúdico criado por Eduardo Longo.”
A maior parte dos trabalhos estará distribuída pelas áreas internas e externas da Casa Bola, que em seus 1 000 metros quadrados de área total conta com uma estrutura de metal anexa, com três pavimentos, além de terraço e da icônica estrutura esférica que, por dentro, é dividida em cômodos. “A esfera foi moradia de Eduardo Longo até um ano atrás e estará aberta ao público pela primeira vez”, informa Filipe.
A parte da mostra dedicada ao design terá alguns lançamentos, como uma cadeira inédita desenhada por Eduardo Longo e desenvolvida pela Etel. A designer Claudia Moreira Salles vai apresentar uma mesinha de apoio, de madeira, batizada com o mesmo nome da mostra e composta de uma base vertical e uma superfície horizontal inclinável.
Já as poltronas Siri, um relançamento de Claudia, surgem repaginadas pela colaboração da artista visual Luísa Matsushita, responsável pelos assentos de tecido que “exploram novas soluções cromáticas e materiais aplicados ao mobiliário”.
Luísa também participa da exposição com uma tela inédita, Clareira (2025), feita especialmente para a ocasião. Com tons claros e formas orgânicas, a pintura nasceu do estudo da artista sobre a permacultura (ciência socioambiental de planejamento de ambientes humanos sustentáveis).
“A obra remete a uma clareira na floresta, que deixa a luz entrar e renovar a vegetação. De certa forma, a cidade também é uma clareira”, define a artista. Sobre a escolha dos tons esmaecidos, Luísa afirma que, ao tirar a saturação das cores, quis simular a passagem do tempo.
Para o arquiteto Eduardo Longo, a oportunidade de exibir detalhes de seu projeto mais conhecido foi muito bem recebida. “Fiquei feliz, eu estava esquecido e agora vou poder falar das minhas utopias”, diz. A exposição inclui um núcleo dedicado à trajetória de Longo, que vai exibir plantas, desenhos, obras, fotos e maquetes que atravessam décadas de sua produção, sob curadoria de Fernando Serapião.
De acordo com Filipe, poder conceber a Aberto com a colaboração de um arquiteto que ainda está em atividade é um privilégio e algo inédito. “Longo é muito criativo, um profissional que sempre admirei”, diz o empreendedor.
A edição inaugural do evento, em 2022, aconteceu na única residência particular em São Paulo concebida pelo arquiteto Oscar Niemeyer e apresentou uma coleção emblemática de móveis desenhados por ele em parceria com sua filha, Anna Maria.
A segunda, no ano seguinte, ocorreu em uma casa projetada por Vilanova Artigas, figura central da Escola Paulista de Arquitetura. E a terceira edição, realizada em 2024, foi dedicada ao legado artístico e arquitetônico de duas mulheres brasileiras — com origem asiática — de destaque, Tomie Ohtake e Chu Ming Silveira.
Ano passado, num passo inédito, a quarta edição marcou sua estreia internacional. Realizada na emblemática Maison La Roche, de Le Corbusier, em Paris, a exposição reuniu quarenta obras de arte e design de artistas brasileiros.
Como novidade, nesta edição, a mostra vai apresentar um desdobramento, a Aberto Rua, que vai levar criações artísticas para o espaço urbano. “Teremos cerca de dezesseis obras comissionadas instaladas ao longo da Avenida Faria Lima, entre a Alameda Gabriel Monteiro da Silva e a Rua Adolfo Tabacow”, revela Filipe. “Sempre tive essa vontade de levar arte para o espaço público.”
A ideia é que o desdobramento funcione como mostra independente no futuro e tenha edições separadas e em outras regiões da capital. “Espero que os trabalhos funcionem como um respiro no meio do caos da cidade grande”, completa Filipe, que comemora a abertura da experiência artística ao acaso, ao trânsito e à diversidade cultural da metrópole. E finaliza: “Na rua, a arte encontra quem não foi convidado”.
Escultura viva
Atualmente espremida por edifícios ao redor, a Casa Bola costumava se destacar na paisagem paulistana, na frenética região da Rua Amauri, como um surto criativo do arquiteto Eduardo Longo.
Construída manualmente entre os anos de 1974 e 1979, a casa-escultura nasceu como um protótipo de moradia compacta. Vista por muitos, por fora, o local vai finalmente poder ser explorado pelos visitantes da mostra Aberto.
“Eu andava esquecido e desacreditado. Estou achando tudo isso ótimo”, revela Longo. “Sempre imaginei como seria a casa por dentro e me surpreendi com seu espaço interno”, revela Filipe Assis, idealizador do evento, para quem a colaboração com Longo e a abertura da construção ao público é uma forma de valorizar a arquitetura, a arte e o patrimônio cultural brasileiro, em diálogo com a cidade.
Para Fernando Serapião, um dos curadores da mostra, a casa desafia a lógica convencional do espaço doméstico. “Ela revela a visão experimental do arquiteto para o futuro da habitação.” Por dentro, a edificação possui três suítes, sala de estar, de jantar, cozinha e lavanderia com o mobiliário esculpido especialmente para o local.
Com sua forma esférica, planta contínua e soluções pouco convencionais — como o tobogã interno —, a casa permanece, quase cinco décadas depois, como símbolo de inovação na arquitetura brasileira.







