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Exposição na Casa Bola homenageia o legado de Eduardo Longo

Com cerca de 60 obras, de nomes como Tunga e Waltercio Caldas, mostra Aberto5 reflete sobre a arte integrada à paisagem urbana

Por Vanessa Barone
6 mar 2026, 08h00 • Atualizado em 6 mar 2026, 12h39
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Obra sem título de Daniel Steegmann Mangrané (2024): cortina de alumínio e moldura de aço inoxidável. Atrás, obra 'Lygia #5, #6, #7, #8' (2019): esculturas de aço de Leonor Antunes (Ruy Teixeira/Divulgação)
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  • Uma mostra de arte e design que se integra à arquitetura urbana, fazendo dela uma obra em si. Pode ser definido, assim, o cerne da exposição coletiva e itinerante Aberto, que fica em cartaz de 7 de março a 31 de maio, no bairro do Itaim Bibi.

    Em sua quinta edição, a coletiva vai ocupar a Casa Bola — projeto dos anos 1970, do arquiteto Eduardo Longo, 83 — e se expandir por cerca de seis quarteirões da Avenida Brigadeiro Faria Lima. “Nesta edição, pela primeira vez, vamos ocupar também o espaço público”, informa Filipe Assis, empreendedor cultural que idealizou a Aberto como plataforma expositiva em 2022, com a intenção de investigar as relações entre arquitetura, arte e design.

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    O empreendedor cultural e criador do Aberto, Filipe Assis (Ruy Teixeira/Divulgação)

    A partir da escolha do local — frequentemente, casas modernistas — diferentes artistas e designers contemporâneos são convidados a criar ou disponibilizar obras que dialoguem com as características e peculiaridades do imóvel. Surge, assim, uma conexão entre as linguagens.

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    A Casa Bola, do arquiteto Eduardo Longo: primeira vez aberta à visitação (Ruy Teixeira/Divulgação)

    A nova edição — que tem curadoria de Claudia Moreira Salles e Kiki Mazzucchelli, além do próprio Filipe — vai reunir cerca de sessenta obras de arte e design, assinadas por cinquenta brasileiros e estrangeiros. Os artistas fazem parte do elenco de algumas das maiores galerias da cidade, como Raquel Arnaud, Nara Roesler, Fortes D’Aloia & Gabriel, Mendes Wood DM e Casa Triângulo.

    Entre eles, estão nomes bem conhecidos, como Claudio Tozzi, Rubens Gerchman, Iole de Freitas, Tunga e Waltercio Caldas. “Procuramos unir artistas consagrados e emergentes na arte contemporânea”, diz Filipe. “Cerca de 90% das obras foram comissionadas e refletem o universo lúdico criado por Eduardo Longo.”

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    A maior parte dos trabalhos estará distribuída pelas áreas internas e externas da Casa Bola, que em seus 1 000 metros quadrados de área total conta com uma estrutura de metal anexa, com três pavimentos, além de terraço e da icônica estrutura esférica que, por dentro, é dividida em cômodos. “A esfera foi moradia de Eduardo Longo até um ano atrás e estará aberta ao público pela primeira vez”, informa Filipe.

    A parte da mostra dedicada ao design terá alguns lançamentos, como uma cadeira inédita desenhada por Eduardo Longo e desenvolvida pela Etel. A designer Claudia Moreira Salles vai apresentar uma mesinha de apoio, de madeira, batizada com o mesmo nome da mostra e composta de uma base vertical e uma superfície horizontal inclinável.

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    Pendurada, obra ‘HBC 428 b/M+W’ (2024), de Tomás Saraceno. E poltrona Siri, de Claudia Moreira Salles e Luísa Matsushita (Ruy Teixeira/Divulgação)

    Já as poltronas Siri, um relançamento de Claudia, surgem repaginadas pela colaboração da artista visual Luísa Matsushita, responsável pelos assentos de tecido que “exploram novas soluções cromáticas e materiais aplicados ao mobiliário”.

    Luísa também participa da exposição com uma tela inédita, Clareira (2025), feita especialmente para a ocasião. Com tons claros e formas orgânicas, a pintura nasceu do estudo da artista sobre a permacultura (ciência socioambiental de planejamento de ambientes humanos sustentáveis).

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    Quadro Clareira (2026), de Luísa Matsushita: formas orgânicas e tons claros (Ruy Teixeira/Divulgação)

    “A obra remete a uma clareira na floresta, que deixa a luz entrar e renovar a vegetação. De certa forma, a cidade também é uma clareira”, define a artista. Sobre a escolha dos tons esmaecidos, Luísa afirma que, ao tirar a saturação das cores, quis simular a passagem do tempo.

    Para o arquiteto Eduardo Longo, a oportunidade de exibir detalhes de seu projeto mais conhecido foi muito bem recebida. “Fiquei feliz, eu estava esquecido e agora vou poder falar das minhas utopias”, diz. A exposição inclui um núcleo dedicado à trajetória de Longo, que vai exibir plantas, desenhos, obras, fotos e maquetes que atravessam décadas de sua produção, sob curadoria de Fernando Serapião.

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    O arquiteto Eduardo Longo (Ruy Teixeira/Divulgação)

    De acordo com Filipe, poder conceber a Aberto com a colaboração de um arquiteto que ainda está em atividade é um privilégio e algo inédito. “Longo é muito criativo, um profissional que sempre admirei”, diz o empreendedor.

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    A edição inaugural do evento, em 2022, aconteceu na única residência particular em São Paulo concebida pelo arquiteto Oscar Niemeyer e apresentou uma coleção emblemática de móveis desenhados por ele em parceria com sua filha, Anna Maria.

    A segunda, no ano seguinte, ocorreu em uma casa projetada por Vilanova Artigas, figura central da Escola Paulista de Arquitetura. E a terceira edição, realizada em 2024, foi dedicada ao legado artístico e arquitetônico de duas mulheres brasileiras — com origem asiática — de destaque, Tomie Ohtake e Chu Ming Silveira.

    Ano passado, num passo inédito, a quarta edição marcou sua estreia internacional. Realizada na emblemática Maison La Roche, de Le Corbusier, em Paris, a exposição reuniu quarenta obras de arte e design de artistas brasileiros.

    Como novidade, nesta edição, a mostra vai apresentar um desdobramento, a Aberto Rua, que vai levar criações artísticas para o espaço urbano. “Teremos cerca de dezesseis obras comissionadas instaladas ao longo da Avenida Faria Lima, entre a Alameda Gabriel Monteiro da Silva e a Rua Adolfo Tabacow”, revela Filipe. “Sempre tive essa vontade de levar arte para o espaço público.”

    A ideia é que o desdobramento funcione como mostra independente no futuro e tenha edições separadas e em outras regiões da capital. “Espero que os trabalhos funcionem como um respiro no meio do caos da cidade grande”, completa Filipe, que comemora a abertura da experiência artística ao acaso, ao trânsito e à diversidade cultural da metrópole. E finaliza: “Na rua, a arte encontra quem não foi convidado”.

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    Escultura de vidro, alumínio e aço ‘Disco Voador #32’ (2025), de Laura Lima: arte encontrando a arquitetura (Ruy Teixeira/Divulgação)

     

    Escultura viva

    Atualmente espremida por edifícios ao redor, a Casa Bola costumava se destacar na paisagem paulistana, na frenética região da Rua Amauri, como um surto criativo do arquiteto Eduardo Longo.

    Construída manualmente entre os anos de 1974 e 1979, a casa-escultura nasceu como um protótipo de moradia compacta. Vista por muitos, por fora, o local vai finalmente poder ser explorado pelos visitantes da mostra Aberto.

    “Eu andava esquecido e desacreditado. Estou achando tudo isso ótimo”, revela Longo. “Sempre imaginei como seria a casa por dentro e me surpreendi com seu espaço interno”, revela Filipe Assis, idealizador do evento, para quem a colaboração com Longo e a abertura da construção ao público é uma forma de valorizar a arquitetura, a arte e o patrimônio cultural brasileiro, em diálogo com a cidade.

    Para Fernando Serapião, um dos curadores da mostra, a casa desafia a lógica convencional do espaço doméstico. “Ela revela a visão experimental do arquiteto para o futuro da habitação.” Por dentro, a edificação possui três suítes, sala de estar, de jantar, cozinha e lavanderia com o mobiliário esculpido especialmente para o local.

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    Com sua forma esférica, planta contínua e soluções pouco convencionais — como o tobogã interno —, a casa permanece, quase cinco décadas depois, como símbolo de inovação na arquitetura brasileira.

     

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