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Flávia Lins e Silva: “Crianças precisam imaginar mais e se comparar menos”

A escritora Flávia Lins e Silva celebra o lançamento de 'Diário de Pilar na Amazônia', adaptação de um dos oito livros da bem-sucedida série de aventuras

Por Melina Dalboni
16 jan 2026, 08h00 • Atualizado em 16 jan 2026, 13h27
Flávia-Lins-e-Silva
Flávia Lins e Silva: autora de 'Detetives do Prédio Azul' (Camilla Maia/Veja SP)
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  • Após nove anos vivendo em Portugal, a escritora e roteirista Flávia Lins e Silva voltou a morar no Brasil. Uma das maiores best-sellers da literatura infantil brasileira do século XXI, ela retornou ao Rio de Janeiro, sua cidade natal. Mal desfez as caixas da mudança, segue trabalhando sem parar. Em dezembro, estreou nos cinemas D.P.A. 4 — O Fantástico Reino de Ondion, o quarto da franquia Detetives do Prédio Azul, da qual é criadora.

    Nesta quinta (15), lançou o aguardado filme O Diário de Pilar na Amazônia, longa baseado nas aventuras de Pilar, personagem dos livros escritos por Flávia que está completando 25 anos.

    Ainda neste ano, publica mais três títulos — Maya e a Turma da Terra (Zahar), Dira, Aprendiz de Xamanismo (VR) e Bruxa Loreta contra os Mares do Planeta (Telos Editora) — e estará na Bienal do Livro, em São Paulo.

    Formada em jornalismo, ela começou a carreira na TV Globo, onde trabalhou por dezesseis anos, até que, para a estreia do canal infantil Gloob, criou a série-fenômeno Detetives do Prédio Azul, que já ultrapassou vinte temporadas e tem produtos licenciados.

    Na conversa com a Vejinha, ela fala sobre a importância de ampliar o imaginário com a literatura, seu processo criativo e a paixão pela Amazônia.

     

    Por que decidiu voltar a morar no Brasil?

    Tive muitos motivos para ir embora e muitos para voltar. Era um momento tumultuado aqui há quase dez anos, e em Portugal estava um oásis. Vivemos uma temporada muito calminha lá, onde tive minha filha. Mas ela já está com 8 anos e é hora de conviver com os avós, meus pais já estão com 80. E politicamente, o Brasil é resistência no momento.

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    O manuscrito de Harry Potter foi rejeitado doze vezes. Você teve muitos “nãos” antes de Diário de Pilar se tornar um sucesso?

    Tive muitos com o primeiro livro, a ponto de quase desistir de publicar. Hoje, 25 anos depois, a Pilar, a protagonista daquele manuscrito, chega aos cinemas. Quem me ajudou foi o Jaime Mendes, que trabalhava na livraria da minha esquina. Eu ofereci pra ele ler para a filha dele As Peripécias de Pilar na Grécia, que estava pronto havia uns dois anos. Ele leu pra ela, gostou e, por acaso, um pouco depois ele foi contratado pela editora Zahar, que estava começando o selo infantil. Foi realmente uma sorte.

     

    Como passou do jornalismo para a literatura e o roteiro?

    Fiz oficina da Globo e escrevi infantis como Caça Talentos e Sítio do Picapau Amarelo. Colaborei em novelas como Laços de Família, do Manoel Carlos, Agora É Que São Elas, do Ricardo Linhares, e o seriado Mulher, do Antônio Calmon. Estes autores foram meus mestres.

     

    Como é seu processo de escrita?

    Preciso acordar, botar minha filha para a escola, fazer alguma ginástica e sentar por pelo menos quatro horas. Esqueço do tempo, não olho celular. Já explodi chaleira e queimei muito pão de queijo. A TV me deu muita disciplina, então posso escrever de qualquer lugar. O laptop é realmente uma grande invenção. Não tenho medo da página em branco. Adoro não saber aonde eu vou chegar com a história, gosto da liberdade de não saber.

     

    Está escrevendo algum novo livro?

    Agora estou trabalhando no Diário de Pilar em Portugal.

     

    Como deu conta de escrever mais de 400 episódios de D.P.A.?

    Com muita meditação e leitura.

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    Você medita em que momento?

    Medito diariamente antes de trabalhar. Se não você fica lembrando da conta pra pagar, da filha pra buscar, do aniversário de alguém. Comecei a praticar na pandemia. Você se ouve, percebe seus desejos. Não dá pra viver só reagindo a demandas.

     

    Qual seu desejo agora?

    Deu desejo de voltar pro Brasil, voltei. Deu desejo de escrever mais livros que pra TV e estou fazendo isso.

     

    Por quê?

    No atual momento, nos livros conseguimos contar com mais liberdade nossas histórias. Há uma crise de autoria em alguns setores do audiovisual. Escritores e roteiristas não devem agradar ao público, mas surpreender e bancar essas escolhas. Quando se quer agradar, não se traz nada de novo. Hoje, no audiovisual, pode haver muita interferência, a ponto de, às vezes, não se saber que história está saindo. É muito difícil escrever uma história a oitenta mãos. Tenho dado esse conselho para todos os roteiristas: escreva o livro primeiro para garantir e fincar a base da sua história.

     

    Como foi ver Pilar na Amazônia chegar aos cinemas 25 anos depois?

    Estou apaixonada pelo filme. A atriz que faz Pilar, a Lina Flor, é uma graça. O Duda Waismann (um dos diretores) é meu parceiro desde meu primeiro curta-metragem, em 1995. O bacana do processo desse filme é que, depois de ter escrito o roteiro, fui com os diretores para Belém escolher locação. Essa parceria entre roteirista e diretores é maravilhosa, rara e importante.

     

    De onde pode ter vindo seu fascínio pela ficção infantil?

    Com 9 anos, minha babá, que morava perto das filmagens, me levou para ver a gravação do Sítio do Picapau Amarelo. Foi uma grande aventura, fomos de ônibus, almocei na casa dela, vimos o elenco e me lembro de um misto de fascínio e decepção porque descobri que as casas eram falsas. É um episódio muito marcante. Acho que eu acabei querendo saber mais sobre aquela magia dos bastidores.

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    Você escreve para o público infantojuvenil desde 2001, um período de muitas transformações no dia a dia de uma criança com o mundo digital. Como lida com isso?

    A infância mudou menos que a adolescência com a presença do celular. A curiosidade é o que move a criança, então, se o autor traz junto sua curiosidade também, vai trazer esse espanto e esse fascínio com o mundo. Quando falo de China, estou realmente interessada na China. Quando falo de magia, estou realmente interessada em magia.

     

    Qual a importância da literatura infantil hoje, num mundo de crianças que são nativas digitais?

    As crianças precisam imaginar mais e se comparar menos. O livro é um espaço de liberdade, onde ampliamos o nosso imaginário e começamos a pensar no que ainda não existe. Quando lemos, sem perceber, estamos imaginando um mundo inteiro: os personagens, o cenário, o lugar. A leitura amplia o imaginário.

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