Claudio Tozzi expõe 50 obras marcantes, incluindo inéditas, em São Paulo

Obras símbolo de sua luta contra a ditadura militar, na década de 60, entram em diálogo com sua produção mais recente; aos 80 anos, artista produz diariamente

Por Ana Mércia Brandão
30 mar 2025, 08h00
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Tozzi: aos 80 anos, o artista segue produzindo diariamente (Masao Goto Filho/Veja SP)
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Aos 80 anos, com uma produção artística de sete décadas, Claudio Tozzi não pensa em se aposentar. “Faz parte da vida, não dá para parar. Vou até onde der”, diz, sempre sereno, enquanto visita a montagem de sua exposição É Necessário que o Capital Não Exceda a Poesia, que abre sábado (29), na Galeria Marcelo Guarnieri. A mostra, curada por Marcelo Guarnieri e Diego Matos, não se propõe a fazer um resgate cronológico da produção de Tozzi, mas mostrar, a partir de cinquenta de suas obras mais marcantes, produzidas entre 1968 e 2024, como os trabalhos do artista dialogam entre si através das décadas.

Grande representante da nova figuração brasileira e da pop art, Claudio Tozzi criou símbolos da militância popular contra a ditadura militar. Nas paredes da galeria, estão o rosto de Che Guevara (Guevara; 1968), Astronauta (1969/70) — uma referência à Guerra Fria — e dois exemplares da série Multidão (1968), inspirada em protestos de rua, pela qual ele nutre carinho especial. “Me identifico muito. É uma coisa que vivia todo dia, as passeatas na Rua Maria Antônia, as reuniões estudantis. Fazer essas multidões era parte da vida, era como tomar um café”, garante.

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Vista da exposição, com parafusos, astronautas e multidões: símbolos característicos de sua obra (Masao Goto Filho/Veja SP)

Há ainda o primeiro de seus “parafusos”, de 1971, retratado perfurando um cérebro, entre outros em exibição, que se tornaram recorrentes na produção do artista paulistano. “Com o AI-5 e a dificuldade de fazer exposições, encontrei esse elemento simbólico, que significava pressão e opressão no pensamento. Depois, o parafuso é um elemento muito plástico, composto de linhas, por um hexágono. Todos esses elementos de luz e de sombra me interessaram como forma para representar meu trabalho”, explica. E completa: “A partir do parafuso, houve uma transformação muito grande, porque meu trabalho era branco, preto, vermelho, amarelo, as cores diretas da comunicação de massa. Daí a pintura começou a ficar mais elaborada, com uma pesquisa maior de cores.”

Anteriores a essa fase, no segundo piso, o visitante encontra gravuras feitas nos anos 60 e 70. A técnica, utilizada por Tozzi desde que iniciou na carreira artística, está ligada ao seu objetivo de democratizar a arte. “A gravura permite uma tiragem, tem um preço muito mais baixo. E isso facilitava muito a difusão da arte no Brasil. O Tozzi chegou a editar gravuras com uma tiragem muito grande”, diz o galerista Marcelo Guarnieri.

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‘Polution’ (1973), liquitex sobre tela, algodão e pigmento: sempre atual (Gabriel Martins/Divulgação)

Suas obras permanecem atuais e muitas trouxeram discussões inovadoras para a época, como Polution (1973). “Isso que a gente quis deixar claro com esta exposição. Ao mesmo tempo que você tem todo um trabalho ligado a uma ação política, a uma observação de tudo e à manifestação do artista em relação a isso, você tem também essa questão de estar antenado numa época. Há cinquenta anos, ele estava falando de poluição, que continua um tema recorrente e cada vez mais importante para a gente”, ressalta Guarnieri.

Produzindo em ateliê desde seus 17 anos, Tozzi foi cursar arquitetura na FAU-USP para entrar em contato com alguns dos artistas que lecionavam lá, como Sérgio Ferro. Depois, ele mesmo virou professor na instituição, atividade de que, confessa, sente falta. A afinidade com arquitetura facilitou que fizesse intervenções na capital, tendo pintado murais em locais como a Praça da República e a Estação Sé do Metrô. Sobre seu processo criativo, explica que primeiro pensa na forma, depois, constrói o referencial teórico a partir disso. E é categórico: “Trabalho todo dia”.

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‘Território’ (2010): exibida pela primeira vez (Masao Goto Filho/Veja SP)
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‘Migração’ (2017): da nova produção do artista (Masao Goto Filho/Veja SP)

Ele mantém seu belo ateliê no Sumaré, onde produziu algumas das obras mais recentes da exposição, como a inédita Território (2010), acrílica sobre tela colada em madeira, que explora a relação entre o espaço urbano e o privado. A produção atual também foca na apropriação de objetos, como em Migração (2017), em que aplica tinta acrílica sobre um colete salvavidas. “Se você veste um colete, está salvo de um naufrágio, de uma sociedade caótica, agressiva, violenta e injusta. Esse colete seria um símbolo de libertação, de proteção”, explica o autor. Há ainda O Capital e a Poesia (2022/24), que dá nome à mostra e encapsula a mensagem da produção incansável de Claudio Tozzi.

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‘O Capital e a Poesia’ (2022/24): tinta acrílica sobre tela colada em madeira (Gabriel Martins/Divulgação)

Galeria Marcelo Guarnieri. Alameda Franca, 1054, Jardim Paulista, ☎ 3063-5410. Seg. a sex., 10h/19h. Sáb., 10h/17h. Grátis. Até 30/4.

Publicado em VEJA São Paulo de 28 de março de 2025, edição nº 2937.

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