Conheça os stylists que vestem as estrelas nacionais nas premiações
Stylists como Antonio Frajado, Thiago Ferraz e Jaiara Fontes estão entre os profissionais que criam produções dignas do tapete vermelho
Um bom stylist pode impulsionar a carreira de uma pessoa. A máxima, dita há tempos por profissionais da moda, hoje ganha proporções maiores. O mercado se consolida com tantos clientes em megaeventos internacionais.
Após a admirável jornada de estilo de Fernanda Torres na campanha de Ainda Estou Aqui (2024) no Oscar, os olhares voltam-se para o tapete vermelho com O Agente Secreto, representante na premiação neste ano.
Quem vê o glamour não imagina os apuros por trás das cortinas. “É coração na boca o tempo inteiro”, conta Antonio Frajado, 44, stylist da ganhadora do Globo de Ouro. A premiação que consagrou a atriz carioca foi um caso à parte. “Acho que desenvolvi um nervosismo desde então (risos)”, diz ele.
“A roupa chegou no dia em que ela ia provar, na véspera do prêmio. Eu comecei a trabalhar o look sem ela ter chegado, rezando e acompanhando a entrega.”
Com a vitória de Fernanda na cerimônia, várias etiquetas que não demonstraram interesse voltaram atrás. “A gente tinha acesso a grifes muito boas, Louis Vuitton, Chanel, Bottega Veneta. Mas recebia sonoros ‘nãos’, principalmente das internacionais que não tinham escritório no Brasil”, diz. Depois do Globo de Ouro, o jogo mudou. “Eu abri o e-mail no dia seguinte e tinha dez mensagens das marcas que antes negaram.”
O stylist carioca, que hoje mora em São Paulo, explica que o interesse de uma grife em vestir uma personalidade vem de um alinhamento de afinidades. “Quando a marca quer participar é porque ela acredita no projeto, na pessoa. Não é sobre uma expectativa de repercussão ou retorno financeiro”, afirma.
Além da artista, Frajado trabalha com nomes como Debora Bloch e Ingrid Guimarães, suas primeiras clientes, assim como Marina Ruy Barbosa e Camila Queiroz. “Eu me sinto um profissional muito completo, sei fazer de tudo”, explica.
O stylist chegou a cursar desenho industrial, mas saiu antes de terminar. Ele atribui o conhecimento ao momento da carreira em que foi assistente de outros profissionais do segmento. Uma de suas “mestras” foi a figurinista Claudia Kopke, 66, responsável por apresentar Frajado a Fernanda. “Eu dei a Nanda para ele de presente”, ela brinca.
“Antonio foi meu assistente de figurino. Quando ela me ligou procurando um stylist, eu não ia dar conta de fazer e passei para ele.” Coincidentemente, Claudia assinou o figurino de Ainda Estou Aqui e elogia as escolhas de estilo da atriz na divulgação do longa de Walter Salles, que respeitaram a memória da personagem que ela interpreta. “Colaborou muito para dar força.”
Jaira Fontes
Na campanha de O Agente Secreto, Alice Carvalho tem seguido uma linha de pensamento parecida, mas à própria maneira. “O filme teve um papel importante na construção de imagem ao longo da temporada”, explica Jaiara Fontes, 34, stylist da atriz.
“Em Cannes (onde ocorreu a estreia), fizemos uma referência mais evidente à personagem dela, uma professora nos anos 70, em um contexto de tensão política, com silhuetas e códigos que dialogavam com a estética da época. No Globo de Ouro, optamos por um caminho minimalista, apenas com ecos desse estilo e destacando a personalidade da Alice.”
Desde o início da temporada, uma das prioridades foi trabalhar com moda brasileira, especialmente nos festivais internacionais, com marcas como À La Garçonne, Normando, Neriage e Mondepars. Nas agendas e eventos realizados no Brasil, houve parceria com a Gucci.
Para o Oscar, a mala da artista carrega um look especialmente desenvolvido para a ocasião, em colaboração com marcas e criadores brasileiros. “Posso dizer apenas que é uma construção muito alinhada com ela e a ideia de valorizar a moda brasileira em um momento tão simbólico”, pontua Jaiara.
Thiago Ferraz
O ator Gabriel Leone segue um caminho mais livre, com preferência pelo estilo pessoal. “O processo de definição dos looks do Gabriel é muito inspirado na forma como ele se expressa por meio da moda”, esclarece o stylist Thiago Ferraz, 49.
O artista também tem uma relação forte com a Louis Vuitton, que o vestirá no Oscar, junto de joias da Bvlgari. “A ideia é seguir dentro de um universo de alfaiataria, mas trazendo um pouco mais de cor e explorando ideias e construções novas, que ampliam esse repertório.”
Ilaria Urbinati
As escolhas para Wagner Moura permanecem um mistério, uma vez que tem sido assessorado pela italiana Ilaria Urbinati. Para o Globo de Ouro, ela trouxe poder e requinte ao visual do ator. Espera-se que a parceria se repita.
Leandro Porto
Estrelas de trás das câmeras, o diretor Kleber Mendonça Filho e a produtora Emilie Lesclaux vestem-se sem vínculo com um personagem, mas um processo igualmente refinado. “A ideia é complementar o estilo”, analisa Leandro Porto, responsável pelos trajes do casal. “Lidar com a imagem de alguém é trabalhar com a intimidade, com a vulnerabilidade. Por isso, a troca precisa ser verdadeira.” Para ele, as marcas internacionais estão de olho nos brasileiros.
Códigos de vestimenta
Para a jornalista e curadora Erika Palomino a roupa é um aspecto essencial para a construção da imagem, e de como atrizes e atores são percebidos pelo público e pela indústria. “Faz parte do jogo dominar esses códigos”, diz Erika, que elogia o trabalho feito por Antonio Frajado e Ilaria Urbinati. “Frajado construiu junto com a Nanda essa narrativa, e Wagner tem trilhado um bonito caminho também, com estilo e personalidade.”
A cerimônia do Oscar persiste como um dos eventos mais solenes que existem. “É uma das poucas ocasiões que exigem traje de gala”, afirma o crítico de moda e consultor de estilo André do Val. “O Oscar virou uma ótima plataforma de lançamentos de produtos, é uma passarela para as marcas de luxo.”
Para André, os looks masculinos também fazem parte desse movimento, permitindo um grande trabalho de exposição — principalmente para as marcas de relógios e joias.
História
A pesquisadora e analista de moda Paula Acioli relembra que foi a partir dos anos 1950, quando a cerimônia passou a ser transmitida pela TV, que a moda foi ganhando mais importância.
“E teve ainda mais destaque nos anos 1970, quando looks mais ousados começaram a virar notícia. Culminou nos anos 1990, quando nasceu o conceito moderno de tapete vermelho, no qual criadores e grifes de luxo passaram a dividir o protagonismo com as atrizes vencedoras da estatueta”, diz Paula.
Anita Rodrigues
Para além dos megaeventos, o trabalho dos especialistas em estilo varia de acordo com o projeto. Quando Anita Rodrigues, 27, começou a fazer o styling da Maisa, as primeiras conversas foram dedicadas a entender o estilo dela.
Em eventos com dress code, a stylist prepara um moodboard (algo como um painel de referências visuais) de referências para definir um caminho. No caso de desfiles, a grife oferece uma seleção de roupas ou a própria cliente completa o look com alguma opção de compra.
Para fazer publicidade, as restrições são maiores, com paleta de cor e formato de roupa específicos. Os editoriais de revista são “o melhor dos mundos”, pois há mais espaço para a criatividade.
Yumi Kurita
A última etapa é a devolução das peças emprestadas. “Temos que devolver a roupa melhor do que como recebemos”, diz a stylist Yumi Kurita, 35. O cuidado deve ser grande até em vista do preço dos itens. “A peça mais cara que já peguei foi uma joia de quase 1 milhão de reais”, revela. “Fiz um editorial com vestidos da Louis Vuitton que custavam mais de 100 000.”
Ela reforça os pontos de atenção diante de tantos recém-chegados ao mercado. “Depois da pandemia, stylist virou a profissão do momento. E hoje todo mundo quer ajuda.”
Anne Carvalho
Além de uma boa relação com as marcas, o profissional “tem que saber andar no Brás, no Bom Retiro, na 25 de Março, onde procurar aviamento e costureira”, pontifica a stylist Anne Carvalho, 31. Ela defende que não falta opção, “falta olhar para dentro” para encontrar referências com identidade brasileira. “Um stylist é um contador de histórias. Você passa uma mensagem por meio de uma roupa.”
Clientes felizes
Antonio Frajado declara sua paixão pela profissão: “Mesmo com dificuldades, amo o que faço e não consigo me imaginar fazendo outra coisa”. Ele conta que clientes já lhe agradeceram por ajudar na autoestima.
“Existe uma construção de imagem, uma elegância e uma coerência muito bonitas nesse trabalho dele”, descreve Marina Ruy Barbosa. Ingrid Guimarães concorda: “Me ajudou a treinar o olhar para a moda e a beleza dos pequenos detalhes e me fez entender que cuidar da imagem é fundamental”. (com colaboração de Vanessa Barone)







