Campo de Marte: a disputa entre o novo parque, o futebol de várzea e o samba
Após a reintegração de posse do clube Aliança da Casa Verde, a prefeitura pressiona o Cruz da Esperança a desocupar a área em sessenta dias
Quando chegou o refrão do hino Não Deixe o Samba Morrer, música de Edson Conceição e Aloísio Silva imortalizada por Alcione, foram raras as vozes que não ecoaram naquela madrugada de sábado (28) no Cruz da Esperança. A letra não poderia fazer mais sentido hoje para as centenas de frequentadores do clube de várzea na Casa Verde, que abriga uma das rodas de samba mais populares da região. O cronômetro está contando desde o dia 26, quando a Justiça determinou um prazo de sessenta dias para a desocupação do espaço para a construção do Parque Campo de Marte, um novo complexo municipal de lazer, concedido à iniciativa privada.
Campo de Marte: a disputa entre o novo parque, o futebol de várzea e o samba
Esse é o capítulo mais recente de uma disputa antiga pelo território na Zona Norte. A área do aeroporto, inaugurado em 1929, esteve em posse da União de 1932 a 2022, quando finalmente foi firmado um acordo com a gestão municipal. A negociação incluiu a troca da dívida de 25 bilhões de reais da cidade com o governo federal, que não precisou pagar o “aluguel” das nove décadas e ficou com 81% da área total. Nos 19% restantes, um espaço de 406 000 metros quadrados, será construído o parque.
Esse pedaço abriga um importante reduto de futebol de várzea desde os anos 1960, quando o primeiro clube, o Grêmio Recreativo da Sade, se instalou na faixa entre dois córregos às margens do Rio Tietê. O segundo time a se fixar ali foi o Cruz da Esperança, em 1979, com autorização do IV Comando da Aeronáutica. Depois vieram o Veteranos Unidos Paulista, o Baruel Futebol Clube, o Pitangueiras Futebol Clube e o Aliança da Casa Verde, completando seis campos que formavam o complexo até o início do ano.
Antes de ocupar o atual terreno, o Cruz da Esperança foi fundado em 1958 por um grupo de taxistas negros, inspirados pela primeira Copa do Mundo conquistada pelo Brasil naquele ano. “Quando viemos para cá, fizemos um bar e um salão onde aconteciam bailes toda última sexta-feira do mês, dos aniversariantes. Depois veio o samba-rock, a moda foi mudando”, relembra Antonio de Jesus, o Toninho, presidente da entidade.
Pelo terrão passaram grandes jogadores, como Serginho Chulapa e Basílio, o Pé de Anjo, ídolo do Corinthians. De cor verde, o símbolo do time é o personagem Hulk, da Marvel, que aparece grafitado em uma das paredes da sede. Troféus nas estantes, fotos em preto e branco no mural e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, celebrada com uma romaria em todo aniversário do time, enfeitam o espaço.
Nas altas horas, o salão fica cheio, com centenas de pessoas, de jovens aos mais antigos, curtindo o Samba do Cruz. As rodas acontecem das 22h às 4h, às sextas e sábados, e das 18h às 2h, aos domingos, com atrações fixas ou convidados. Além de ponto de encontro da vizinhança, as noites também sustentam financeiramente a agremiação com as vendas do bar. Segundo a diretoria, mais de 15 000 pessoas frequentam o espaço todo mês, somando as rodas com os eventos esportivos, como campeonatos aos sábados.
A programação musical é um dos pontos de conflito com a prefeitura, que segue em posse da área enquanto não é entregue desimpedida ao Consórcio Cântaro SP, liderado pela empresa Progen, para o início das obras. O investimento total será de 202 milhões de reais, valor que inclui a construção de cinco campos de futebol. Nessa conta estão aqueles grêmios que formavam a Associação dos Clubes Mantenedores da Área de Esportes e Lazer do Campo de Marte — todos menos o Aliança da Casa Verde.
Porém, antes do acordo para a manutenção das atividades varzeanas no novo parque, o Cruz da Esperança pulou fora da associação, para não brecar a negociação dos vizinhos com a administradora. O impasse? A venda de bebidas e o horário das rodas de samba, que ultrapassa o funcionamento dos equipamentos municipais. “O clube nunca solicitou à prefeitura autorização para a atividade do samba, comercializando irregularmente bebidas alcoólicas no local, e descumpriu notificações para desocupação voluntária do terreno”, afirmou a gestão municipal em nota. “Queremos permanecer lá e manter essa história, e que a prefeitura e a concessionária abram diálogo”, defende Razuen El Kadri, advogado contratado pelo grêmio esportivo para esta causa.
O mapa dos cinco novos campos será diferente da disposição atual, e um deles terá gestão única da concessionária. Segundo a prefeitura, o acordo assinado com os quatro clubes garante a eles o pleno acesso e uma gestão compartilhada dos espaços, que serão construídos do zero, com sedes refeitas. Segundo a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), “o único clube que abandonou o processo foi o Cruz da Esperança, quando informado de que não será permitida qualquer atividade comercial irregular dentro do futuro parque”.
O receio da comunidade do Cruz é que o desfecho seja o mesmo do Aliança da Casa Verde, campo vizinho que passou por reintegração de posse no último dia 12. “O clube exercia de forma irregular atividades comerciais na área e mantinha a sede ocupada por uma cidadã”, completa a SVMA sobre o caso. Hoje um terreno repleto de escombros, o espaço era gerido desde 2002 por Soraya Marks, que morava ali. “Era um local em que jogavam muito entulho, então foi feito um acordo com um funcionário da Aeronáutica para cuidarem da área, mas sem precisar pagar aluguel”, explica a varzeana, que foi incluída no programa habitacional Pode Entrar e aguarda um apartamento, sobre o surgimento do Aliança. “Quero seguir no campo com o meu trabalho, fazer melhorias e jogos, ser incluída no projeto. Vinte e quatro anos é toda uma vida”, reivindica.
O novo parque da cidade terá pistas de corrida e skate, área multiuso e mais, com “manutenção das atividades de futebol de várzea e melhor estrutura para os clubes”, segundo a gestão municipal. A expectativa é que o complexo de lazer, com contrato de concessão por 35 anos, atenda cerca de 300 000 pessoas. No Cruz da Esperança, entre clima de despedida e música boa, as rodas de samba estão ainda mais lotadas. Foram mais de 25 000 assinaturas no abaixo-assinado on-line pela preservação da sede. Uma certeza é que a comunidade continua cantando forte pelas madrugadas aqueles versos: “Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar”. ■
Publicado em VEJA São Paulo de 3 de abril de 2026, edição nº 2989







