Famoso clube de jazz de NY, o Blue Note abre filial no Conjunto Nacional
O negócio, com uma bela vista para a Avenida Paulista, marca a nova fase do emblemático edifício
A varandona do icônico Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, dá vista para uma combinação de prédios portentosos e um vaivém de carros e pedestres — de engravatados a jovens boêmios. Em breve, o público poderá admirar o privilegiado cenário de cartão-postal graças ao desembarque de uma marca estrangeira de peso em um dos imóveis do terraço, hoje com acesso limitado. Trata-se do Blue Note, um dos principais clubes de jazz de Nova York.
O endereço, no bairro de Greenwich Village, subiu as portas em 1981 para receber as vozes aveludadas e os instrumentos afinados de figurões do naipe de Dizzy Gillespie, Sarah Vaughan, Ray Charles e The Modern Jazz Quartet, entre muitos outros. Virou referência, e o sucesso nos Estados Unidos fez com que a grife se expandisse para países como China, Japão, Itália e Brasil, aonde chegou cerca de um ano atrás, ao abrir no Rio de Janeiro a primeira filial do Hemisfério Sul.
Por aqui, o negócio, com investimento estimado em 3,2 milhões de reais, ocupará um salão de 800 metros quadrados. A abertura está prevista para o fim de dezembro. Seu esquema precisará ser tal e qual o do clube original, sempre banhado em luz azul e com sistema de som de primeira. A ideia é oferecer proximidade com o músico, como se o show fosse na sala de casa.
Reduzido, o ambiente de 336 lugares reproduz o arranjo de mesas juntinhas umas das outras. O artista deve entrar em cena à vista da plateia, para dar a noção de intimidade, e o palco tem, no máximo, 50 centímetros de altura. Atrás dos instrumentos, brilhará o emblemático letreiro com o nome da casa, queridinho para fotos. Falando nisso, sinal dos tempos, será possível clicar as apresentações (sem flash, é claro) e até mesmo gravar vídeos.
Os responsáveis pela iniciativa por aqui são dois empresários com longo histórico no entretenimento adulto: o argentino radicado em São Paulo Facundo Guerra e o suíço criado no Rio de Janeiro Luiz Calainho. O primeiro ajudou na revitalização da Rua Augusta com a criação da balada Vegas, para depois incluir no currículo as boates Lions e Yatch, os bares Riviera, Volt, PanAm e Z Carniceria e a casa de shows Cine Joia. “É a primeira vez que trabalho com uma marca internacional, e está sendo uma honra”, afirma Guerra.
Já Calainho foi vice-presidente da Sony Music na década de 90 e, nos anos 2000, criou sua empresa, a L21 Participações, voltada à cultura e à arte. Ele toca hoje negócios como uma produtora de musicais, uma feira de arte contemporânea e o Teatro Riachuelo. Foi Calainho o responsável por importar o Blue Note para o Rio, em agosto do ano passado, em um espaço nobre com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas.
As negociações duraram pouco mais de um ano. “Sempre visitei o lugar em Nova York, desde meus tempos de Sony, e queria muito trazê-lo para o Brasil”, lembra. “Quando a Olimpíada veio para cá, achei que o momento tinha chegado e fui atrás.” Em seu primeiro ano, o ponto sofreu com a crise financeira e atrasou o pagamento de alguns cachês, mas, de acordo com Calainho, o problema está sendo resolvido.
De início, o empresário cogitou instalar a franquia paulistana em um shopping. Ao entrar em contato com Guerra para propor uma parceria, ouviu do argentino a sugestão certeira do Conjunto Nacional. “Sonhava em fazer algo com aquele espaço”, conta Guerra. “A Avenida Paulista será nossa artista residente da casa. Essa esquina com a Augusta é a nova Ipiranga com São João.”
Aqui, o negócio deverá funcionar de quarta a domingo. Algumas noites trarão dois shows, em sessões seguidas para públicos diferentes, às 20 horas e às 22h30. Apesar da bandeira do jazz, assim como nos Estados Unidos, o endereço contemplará outros ritmos. Na capital carioca, tocaram grandes nomes do gênero, caso de Incognito, Kenny Garrett e Spyro Gyra, mas também Marcelo D2 com um projeto de samba-jazz e Mart’nália cantando Vinicius de Moraes e Noel Rosa. Parte desses artistas consegue lotar casas muito maiores pelo mundo. Entretanto, a ideia é mesmo aproximar a atração do público.
“Quando se ‘comprime’ um grande músico em um local pequeno, consegue-se uma experiência única”, diz Guerra. A experiência única tem um preço (salgado), obviamente. Em outubro de 2017, por exemplo, o pianista americano Chick Corea mostrou seu talento no Blue Note do Rio e os ingressos alcançavam os 1 200 reais.
Em noites sem grandes estrelas, os tickets em São Paulo deverão custar, em média, 180 reais (lounge) e 250 reais (premium lounge), com direito a meia-entrada. Muitas vezes, os lugares não serão determinados, ou seja, quem chegar antes escolherá onde sentar. Atrações locais, com preços mais acessíveis, aparecem nos planos dos empreendedores. Aos domingos, com a Avenida Paulista fechada para carros, a casa organizará shows gratuitos de aproximadamente uma hora na rua.
Antes e durante as apresentações, os clientes poderão jantar, petiscar ou beber, servidos por uma brigada treinada para não atrapalhar a música. O cardápio inclui opções de comidinhas para compartilhar e alguns pratos. Durante a semana, rolará almoço executivo, embalado por música ao vivo. Aos domingos, o público poderá saborear um brunch. Dependendo do desempenho da marca em São Paulo, Guerra e Calainho pretendem no futuro levar a grife para Porto Alegre, Brasília e, possivelmente, outras cidades da América Latina.
A abertura do Blue Note assinala uma nova etapa do Conjunto Nacional, conhecido edifício multiúso projetado por David Libeskind e inaugurado em 1958. O endereço, por onde circulam cerca de 35 000 pessoas por dia, conta com lojas e pontos de alimentação no térreo. Entre as novidades do último ano, aparecem a padaria Benjamin e o comércio de sapatos Empório Naka. Entretanto, o 1º e o 2º andares do local (onde ficará o clube de jazz), que somam 18 000 metros quadrados de área, estão vazios há pelo menos quatro anos — com exceção da academia Bio Ritmo. Antes, funcionava nessa área uma empresa de telemarketing.
No passado, o espaço nobre, no qual se veem um jardim de inverno e uma cúpula geodésica de alumínio, ostentava o salão do Fasano para grandes e refinados jantares dançantes, entre 1958 e 1968. À época, o restaurante recebeu estrelas do porte de Nat King Cole. Agora, a ideia é criar no lugar um shopping center de luxo. “No período de até dois anos, esperamos trazer marcas nacionais e internacionais diferenciadas, além de restaurantes”, afirma Ana Salomone, sócia do Grupo Savoy, dono do Conjunto Nacional desde os anos 80. “Queremos criar um centro de lazer.”
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