Elis 80 anos: nova edição de biografia e show especial celebram seu legado
Saiba mais sobre as comemorações e a relação da cantora gaúcha com a cidade de São Paulo, onde morou por grande parte da vida

Faz mais de quatro décadas que Elis Regina (1945-1982) não está mais entre nós — em corpo físico, porque na mente de seus fãs ela segue presente.
Nesta segunda (17), a grande cantora gaúcha, que viveu grande parte de sua breve vida em São Paulo, completaria 80 anos. A data inspira novidades, como a nova edição da biografia Elis: Nada Será Como Antes (Companhia das Letras, 2025), lançada originalmente em 2015 pela Master Books, que chega às livrarias nesta sexta (14).
“Primeiro, eu trouxe mais Elis para o livro — percebi que estavam faltando aspas dela. E em cada capítulo entraram novas histórias”, conta Julio Maria, autor da obra.

Entre as inserções, estão mais detalhes sobre o “melhor álbum de todos os tempos que nunca foi gravado”, que reuniria a cantora, Wayne Shorter (1933-2023) e Herbie Hancock, e dois cadernos com os planos da artista para o ano de sua morte.
Os bastidores do comercial da Volkswagen, que repercutiu em 2023 com Maria Rita e a imagem de Elis recriada com inteligência artificial, também renderam um novo capítulo. “A primeira vez que essa discussão (de direitos de imagem de pessoas que faleceram e IA) foi feita em massa aconteceu por uma mulher que morreu há tanto tempo e reapareceu dentro de uma kombi”, comenta o escritor.
Três compositores gravados pela Pimentinha, Ivan Lins, Fagner e João Bosco, além de um dos seus filhos, Pedro Mariano, subirão ao palco do Espaço Unimed no dia 28 com o espetáculo Elis 80.
No telão, fotos e vídeos inéditos da artista, e, pelas caixas de som, sua voz, em qualidade sonora ímpar, somando-se à banda ao vivo. “Se você fecha os olhos, parece que ela realmente está ali”, diz João Marcello Bôscoli, filho mais velho da intérprete, que apresenta o show.
Ainda neste ano, seu livro de memórias sobre a mãe, Elis e Eu (Planeta, 2019), ganhará uma adaptação em documentário, dirigido por André Bushatsky, pelo streaming Universal+.
A São Paulo de Elis
Elis se mudou para São Paulo pela primeira vez em 1965. Nesse seu mapa paulistano, não podem faltar lugares como o Teatro Paramount (atual Renault), na Bela Vista, onde era gravado o programa O Fino da Bossa, que ela apresentou com Jair Rodrigues entre 1965 e 1967.

Seu espetáculo mais importante, Falso Brilhante, esteve em cartaz de 1975 a 1977 no antigo Teatro Bandeirantes, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio. A Boate Djalmas, que também não existe mais, na Praça Roosevelt, foi seu primeiro palco na cidade.
Entre as suas moradias, estão o Condomínio Edifício Agulhas Negras, na Avenida Rio Branco; um endereço na Rua Califórnia, no Brooklin; a casa na Serra da Cantareira; e o apartamento onde faleceu, na Rua Doutor Melo Alves.

Entre gravações e apresentações, Elis tinha pouco tempo para curtir a cidade, mas João Marcello lembra de um programa frequente: ir ao Mercadão fazer compras. Outra de suas paradas na metrópole era a casa de Roberto de Carvalho e Rita Lee (1947-2023), no Pacaembu.
“Existia uma simbiose muito grande entre Rita e Elis”, diz Roberto, lembrando o período em que a cantora frequentava reuniões animadas em sua casa, com o irmão Rogério e sua banda. Entre idas e vindas, Elis viveu na Cantareira de 1976 a 1981, onde também moravam Roberto e Rita.

“Foi uma época maravilhosa, em que ela estava com a família constituída, os filhos, o Cesar (Camargo Mariano), e tendo muito sucesso com Falso Brilhante”, lembra Roberto. Após o período idílico na natureza, a artista voltou à cidade por causa do show Trem Azul.
“Nós tínhamos uma vida muito urbana”, conta o advogado Samuel Mac Dowell, seu último namorado, lembrando que costumavam sair para jantar na Avenida Angélica após os espetáculos. O apartamento na Melo Alves se tornou um lugar de encontros musicais. “Ela estava preparando a gravação do disco seguinte, e isso criava um movimento constante de pessoas na nossa casa”, diz.
Nas palavras de Roberto de Carvalho: “A Elis era a epítome da pessoa que se fez em São Paulo”. Uma história que não se apaga. ■
Publicado em VEJA São Paulo de 14 de março de 2025, edição nº 2935