Chico e Mario Adnet brincam com o passado em disco de parcerias
Os irmãos celebram a música brasileira de outrora no álbum 'Falso Antigo' (2026), o primeiro assinado pelo duo, com composições inéditas
Em sintonia familiar e com muito bom humor, os irmãos Chico e Mario Adnet fizeram uma invenção curiosa. O disco Falso Antigo (2026), lançado em março pela Biscoito Fino, e o primeiro assinado pelo duo, é uma viagem divertida ao passado: uma coleção de sambas e afins que poderiam tocar na era de ouro do rádio, mas brotam contemporâneos pelas canetas e vozes dos dois.
Ninguém menos que Nelson Motta deu o título do projeto, quando Mario lançou a primeira parceria com o irmão, Fred Astaire do Samba, em seu álbum O Samba Vai (2010). “Ele classificou essa música como um ‘falso antigo’. Ficamos com isso na cabeça e decidimos fazer outras, visitando compositores que inspiraram o cancioneiro brasileiro moderno”, diz.
Mais de dez anos depois, a dupla se reuniu para compor o resto do repertório, brincando com referências pré-Bossa Nova, como o sambista Geraldo Pereira (1918-1955) e o conjunto Anjos do Inferno. O resultado é este trabalho de nove faixas, com participações de Mônica Salmaso, Jards Macalé (1943-2025), Marcelo Adnet — filho de Chico —, Roberta Sá, Pedro Miranda, Mosquito e Pedro Paulo Malta.
É o encontro de duas carreiras notáveis. Chico foi integrante do grupo vocal Céu da Boca, que figurou em discos de bambas como Chico Buarque e Vinicius de Moraes (1913-1980), além de ser compositor de trilhas sonoras e jingles. Mario é um grande arranjador e produtor, tendo colaborado com artistas como Tom Jobim (1927-1994) e Caetano Veloso. “Nosso pai era pediatra, mas adorava samba e cantar, tocava em bloco. Nosso avô compunha, até. Nas festas em casa, cada filho pegava uma percussão, era uma baderna”, relembra Chico.
A linhagem da família no samba continua com o Adnet humorista, que assina sambasenredo — incluindo o da escola vencedora do Carnaval carioca neste ano, a Viradouro. “A nossa música é essa. É a nossa herança, o que fala o coração”, afirma o pai, Chico.
O melhor exemplo da mistura singular de épocas no álbum é a faixa Fake Falso, um maxixe, ritmo precursor do samba como o conhecemos, que cita na letra nomes atualíssimos como Elon Musk e Lady Gaga. A bagagem de ambos possibilitou aventuras sonoras como essa. “Nossa experiência em linguagem musical facilitou muito, foi como uma pintura em que você não pensa mais na matemática da arte”, define Mario.
E tudo na levada do humor, com sátiras, ironias e causos. “É como se estivéssemos em um quintal repleto de crianças brincando, com muito Brasil e alegria. Nem planejamos fazer músicas engraçadas, mas nos divertimos horrores”, completa Chico. Dá para ouvir as gargalhadas. ■
Publicado em VEJA São Paulo de 3 de abril de 2026, edição nº 2989







