Zeca Veloso fala sobre disco e espiritualidade: “As músicas vêm de Deus”
O cantor e compositor carioca faz dois shows no Teatro Iguatemi, em São Paulo, com participações de Caetano Veloso
Basta sentar-se ao piano que fica difícil para Zeca Veloso, 33, parar de tocar. Parece ser o destino da família, viver entre as melodias, letras e harmonias. O músico carioca, filho de Caetano Veloso e Paula Lavigne, lançou seu disco de estreia em novembro, Boas Novas (2025), e leva o repertório ao palco pela primeira vez em São Paulo, em 6 e 7 de março, às 21h.
Os shows são uma espécie de aperitivo da turnê do álbum, que começa em abril. A dupla de apresentações acontece no recém-inaugurado Teatro Iguatemi, em formato intimista, com participações especiais do pai em ambas as noites.
“O caminho desse disco foi espiritual. Tive experiências com Deus. E, a partir delas, vieram inspirações”, diz Zeca, sobre os anos de maturação do projeto. O álbum é a consolidação da sua carreira musical, iniciada em 2017 quando participou da turnê familiar Ofertório, com Caetano e os irmãos, Moreno e Tom.
Naquele espetáculo, lançou a sua primeira composição (e mais conhecida até então): Todo Homem. “Ela é mais tocada hoje do que na época. Fico muito surpreso, porque é uma música estranha, cíclica, com notas longas, só no falsete. Mas, aparentemente, é pop”, comenta.
O registro vocal agudo é sua assinatura. Entre as inspirações conscientes ou inconscientes, ele cita o período em que morou com seu pai no início do milênio, ouvindo discos como In Rainbows (2007), do Radiohead, e o irmão Moreno, que tem um alcance similar. “É um registro natural, me acostumei, então é confortável. Mas preciso de bastante cuidado. Raramente consigo cantar como na primeira gravação de Todo Homem, normalmente é 70%”.
Naqueles primeiros shows com a família, tinha de ficar mudo nos trajetos até os teatros, para preservar o gogó. Nos últimos meses, Zeca traçou conexões com artistas para além da MPB: gravou com o rapper Baco Exu do Blues e teve a voz sampleada pelo trapper Borges. “Sempre gostei de rap, funk e música urbana de todo tipo”, diz.
Nas apresentações paulistanas, ele adianta que vão rolar versões de Amor, Meu Grande Amor, de Angela Ro Ro (1949-2025) e Ana Terra, e A Rota do Indivíduo (Ferrugem), de Djavan e Orlando Morais.
A espiritualidade é a estrela-guia de seu processo criativo. “Entendo que, para mim, as músicas vêm de Deus. De um outro lugar.” Não que elas cheguem prontas. “Não, essa é a questão, tem muito trabalho. Mas é como se estivesse esculpindo algo, com muito esforço, cujo desenho existe por baixo”, define.
Publicado em VEJA São Paulo de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983







