Crítica: ‘Choque!’, com Danielle Winits, faz apelo providencial à empatia
Monólogo dirigido por Gerald Thomas faz provocação sobre as redes sociais e o esvaziamento das relações
Mais conhecida do grande público por papéis na televisão, Danielle Winits tem uma carreira no teatro marcada por sua versatilidade como atriz, cantora e bailarina, conjunto de talentos que a ajudaram a construir uma trajetória consistente nos musicais.
Em seu primeiro solo, Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente, ela encarna o grande papel da sua vida. Na peça, em cartaz no Teatro FAAP, dirigida por Gerald Thomas e completamente entregue, ela dá vida a uma ex-consultora criativa que aparentemente enlouqueceu, tornou-se catadora de lixo e acredita que extraterrestres a usam para investigar a humanidade.
Thomas faz uma providencial atualização da trama criada pela dramaturga norte-americana Jane Wagner em 1985, era pré-IA. O delírio visto em cena é metáfora para a busca de empatia em um mundo dominado por redes sociais e descartabilidade.
Entre humor ácido e compaixão, o monólogo questiona capitalismo, fama instantânea e o esvaziamento das relações.
Precisa em cada gesto, expressão e fala, Dani Winits vive muitas facetas, numa encenação vertiginosa que discute para onde caminha a humanidade, questão lapidada na pergunta que a personagem faz nos minutos finais: “O choque de realidade nos torna mais lúcidos – ou apenas mais loucos?”.
O cenário materializa essa tensão. A atriz surge de uma montanha de lixo, cercada por escadas que parecem não ter fim. Elementos pop à la Andy Warhol — como latas de sopa Campbell’s — e toques absurdos — como a imensa cabeça que reproduz a personagem (ou a atriz?) — contrastam com ferrugem, tecidos pendurados como carne em açougue e um piso irregular de espumas tingidas.
A luz acentua texturas e volumes, alternando o colorido vibrante e sombras densas. A estética provoca um choque visual — e profundamente tocante (70min). 12 anos.
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Teatro FAAP. Rua Alagoas, 903, Higienópolis, 3662-7233. Qui. a sáb., 20h. Dom., 17h. R$ 160,00. Até 29/3. sympla.com.br.
Publicado em VEJA São Paulo de 27 de fevereiro de 2026, edição nº2984







