São Paulo Ghetto Square
Carlinhos Brown nos ensina uma nova visão de ação cultural com seu projeto no Candeal em Salvador
Estive com Carlinhos Brown em 2019 quando eu era Secretário de Cultura de São Paulo, na ocasião em que ele trouxe seu bloco de carnaval para desfilar pela primeira vez na cidade. Naquele momento foi importante ter esse gigante do carnaval brasileiro – ao lado de outros grandes nomes – participando e legitimado a nossa crescente festa de rua.
Durante as conversas sobre seu desfile, lembro de Brown falando sobre o desejo de reabrir o projeto social que manteve durante anos no Candeal, comunidade onde nasceu, em Salvador. Em 2024, fiquei feliz com notícia da reabertura do Candyall Ghetto Square e do show que marcou esse momento emblemático.
Agora, passando a virada do ano em Salvador, reencontrei o artista no próprio Candeal e pude conhecer de perto a experiência, o espaço e o trabalho, durante o emblemático ensaio da Timbalada, grupo que é, juntamente com Brown, símbolo maior daquele território.
O Candyall Ghetto Square não é apenas um espaço cultural, mas um projeto profundo de pertencimento, de criatividade, de valorização da cultura afro-baiana e da ancestralidade tão marcante na força artística da Bahia. Tudo acontece no coração da comunidade, onde já foram oferecidos cursos e oficinas em áreas como música e artes, em um contexto pop de lazer, diversão, alegria e identidade, proporcionando por um espaço de eventos super estruturado.
A primeira Movida Paulistana do ano é uma homenagem a essa visão de ação cultural. Mas também é um chamado para São Paulo entenda a profundidade dos seus movimentos culturais, das suas comunidades, e reconheça seus territórios criativos como centros de produção de sentido, renda e cidadania.
Claro que a cidade tem vários equipamentos culturais públicos importantes vinculados à seus bairros, como os Centros Culturais e as Casas de Cultura. Mas sinto falta de uma atualização desses espaços, para que eles possam atingir níveis de excelência estrutural e de criatividade e assim se aproximar dos reais desejos dos jovens das nossas comunidades.
Seria importante que experiências como essa pudessem acontecer em comunidades emblemáticas da cultura paulistana, para que gente da cidade inteira rompesse as barreiras sociais e pudesse ter contato com aquela cultura produzida localmente, como acontece no Candeal em Salvador.
São tanto territórios cheios de história, talento e potência criativa, em que as comunidades podem estar envolvidas. São tantos artistas importantes que poderiam ser convidados a capitanear projetos assim.
Carlinhos Brown nos ensina, não apenas pelo seu talento inquestionável como artista, mas também como empreendedor e ativista social. O Candyall Ghetto Square é a prova da força transformadora da cultura, especialmente quando associada ao território.
Feliz 2026!





