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Movida Paulistana

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Ex-secretário de Cultura de São Paulo e à frente de projetos de impacto sociocultural, como o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, a recém-aberta Formosa Hi-Fi e o saudoso Studio SP, Alê Youssef construiu uma consistente carreira na área cultural. Em Movida Paulistana, às quintas-feiras, ele vai abordar as correntes vanguardistas com seu olhar atento para o que há de mais inspirador

São Paulo é outra coisa!

Nos seus 472 anos, festejamos a reação que gerou "identificação absoluta" entre a cidade e seus moradores

Por Alê Youssef
22 jan 2026, 08h00 • Atualizado em 22 jan 2026, 10h28
Elevado João Goulart vira Parque Minhocão aos fins de semana
Elevado João Goulart vira Parque Minhocão aos fins de semana (SecomSP/Divulgação)
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  • “São Paulo é outra coisa. Não exatamente amor. É identificação absoluta.” A frase da canção “Persigo São Paulo” do grande Itamar Assumpção ajuda a traduzir algo que nem sempre conseguimos explicar sobre São Paulo. Um sentimento que não é leve, nem idealizado. Um vínculo forjado no atrito, na criação.

    Viver São Paulo é, para muita gente, passar anos mastigando uma realidade dura, fria, cinza, opressora. Uma cidade moldada historicamente pelos negócios, pelo desenvolvimentismo, pela pressa. A cidade se construiu como potência, primeiro com o dinheiro do café, depois com a industrialização acelerada, cresceu rápido, cresceu muito, mas não cresceu com cuidado.

    Essa São Paulo do progresso, da eficiência e do concreto sempre foi dominante, mas não foi única. Em reação a ela, foi se formando outra cidade — menos visível no primeiro momento, menos oficial, mas profundamente viva. Uma São Paulo que nasceu nos cantos, nas frestas, nas suas dobras do tecido urbano – como gostava de dizer o saudoso Gilberto Dimenstein. Uma cidade afetiva, comunitária e cultural, fundada na convivência e no pertencimento. A cidade da nossa Movida Paulistana.

    A reação

    Alguns bairros carregam essa história. O Bixiga, com sua mistura de imigração, teatro, samba e resistência cultural. A Vila Madalena, que se transforma em território de artistas, músicos e experimentação. O Baixo Augusta, onde a noite, a diversidade e a contracultura ajudaram a redesenhar a ideia de ocupação do espaço urbano. Esses lugares surgiram por identificação absoluta entre pessoas, ideias e modos de viver a cidade.

    Essa reação tem mais de um século. Já no modernismo, com Mário de Andrade, São Paulo começa a se olhar no espelho, a refletir sobre suas contradições e a transformar conflito em linguagem cultural. A partir dali, essa energia se espalha por diferentes épocas, movimentos e territórios, criando uma tradição paulistana de vanguarda, invenção e resposta crítica à realidade.

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    Foi assim que no Largo São Bento, surgiu o  hip-hop paulistano como linguagem de afirmação e sobrevivência, transformando dificuldades em discurso potente, colocando no centro da cidade uma São Paulo que sempre existiu, mas que não era ouvida.  Foi assim que brotaram espaços públicos de convivência do asfalto, como no Parque Minhocão, na Paulista Aberta e no Parque Augusta. Foi assim que devolvemos o carnaval para a rua onde ele nasceu, contrariando o conservadorismo que invisibilizou a história do samba paulistano que ocupava o Largo da Banana desde 1914.

    Assim nasce essa “outra coisa” de Itamar. Uma São Paulo que não cabe apenas nos mapas, nos indicadores econômicos ou nas fotografias aéreas. Uma cidade feita de vínculos invisíveis, redes de apoio, produção cultural e conexão profunda, e que hoje – ironicamente – pode apostar na sua vocação cultural e sua economia criativa até como alicerce de seu “prioritário” desenvolvimento.

    Sempre que gestões públicas, projetos tecnocráticos ou discursos autoritários tentam apagar, se apropriar, domesticar ou criminalizar essas dobras da cidade, é preciso reagir. O mesmo vale para os olhares externos que reduzem a cidade a estereótipos rasos. Defender São Paulo é defender a beleza da capacidade histórica de se reinventar a partir da dificuldade.

    No aniversário de 472 anos da nossa São Paulo, celebramos essa identificação absoluta, o oposto do conformismo. Festejamos a inquietação permanente, a crítica, a transformação. E amamos sim, do nosso jeito.

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