O legado de Renina Katz, artista por trás de obras em ‘Ainda Estou Aqui’
Cenas do filme de Walter Salles apresentam peças assinadas pela gravadora e desenhista, que morreu no último dia 21

Renina Katz deixou uma marca única na arte brasileira. A artista e professora, falecida no último dia 21, aos 99 anos, em São Paulo, foi uma mestra da gravura. Além do legado inigualável, definido por rigor técnico, lirismo e retrato social, a carioca também está eternizada em outra grande obra, que vai levar o Brasil ao Oscar em março.
O público pode não ter percebido, mas viu uma série de suas gravuras e serigrafias em cenas de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles — indicado nas categorias filme, filme internacional e atriz da premiação.
Quadros assinados por Renina estão espalhados por diversas paredes da casa, que é o grande cenário do longa. A produção recriou o lar original da família Paiva, em frente à Praia do Leblon, que era igualmente decorado pelas cores, formas e contrastes da artista.


Ela foi uma das “amigas inseparáveis” de Eunice (1929-2018), como descreve o filho, Marcelo Rubens Paiva, autor do livro homônimo que inspirou o filme. Segundo o escritor, elas “madrugavam com uísque rindo do patriarcalismo”. Para fortalecer a abordagem realista, foram empregadas nas filmagens obras reais da desenhista.
Em uma das cenas mais importantes e repercutidas, em que Rubens (vivido por Selton Mello) é levado por agentes do regime militar, Eunice (Fernanda Torres) aparece preocupada na sala de casa. Ao fundo, é possível observar duas serigrafias geométricas produzidas na década de 70. Há ainda xilogravuras das séries Retirantes, Favela e Camponeses e gravuras em metal.
“Elas eram amigas do tempo do Rio, inclusive de engajamento político”, conta Patricia Motta, 69, sobrinha de consideração de Renina e dona da Glatt, loja que administra a obra da artista. “Quando Eunice mudou para São Paulo, elas estreitaram muito a relação. Eunice chegou sozinha, com toda aquela carga atrás. Renina fazia questão de levá-la para todos os lugares.”

Para a sobrinha, a proximidade entre os temas da artista e do filme se deve a um movimento da época. “Nos anos 50, a obra dela tinha um cunho político muito grande. No jeito que ela retrata cenas da favela e dos retirantes, você percebe um grito de socorro.”
Nascida no Rio de Janeiro, em 1925, Renina Katz começou a carreira com uma breve passagem pela pintura. Foi introduzida à xilogravura pelo austríaco Axl Leskoschek (1889-1975), em 1946. Na capital fluminense, aprendeu suas principais técnicas no Liceu de Artes e Ofícios, na Escola Nacional de Belas Artes e na Universidade do Brasil (atual Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ).
Em 1951, mudou-se para São Paulo e deu aulas no Masp, na Faap e na FAU-USP, onde lecionou por 28 anos e contribuiu para a formação de uma geração de artistas.


“Considero-a minha mestra maior”, revela Patricia. “Era uma professora nata, expressava ideias de maneira ímpar. Tinha uma intelectualidade e uma generosidade….”
A sobrinha celebra o sucesso de Ainda Estou Aqui. “A geração de hoje precisava desse filme. Renina dizia que só por meio da arte é que a gente consegue perceber nossa história e sentimentos.”
Publicado em VEJA São Paulo de 31 de janeiro de 2025, edição nº 2929