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Filmes e Séries - Por Mattheus Goto

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Um guia com críticas, notícias, entrevistas e eventos sobre cinema e streaming (mattheus.goto@abril.com.br)

“A diversidade tornou-se a regra no documentário”, afirma Amir Labaki

Diretor fundador do É Tudo Verdade celebra o aniversário de trinta anos do festival, repassa a trajetória do evento e analisa os desafios do gênero

Por Mattheus Goto
28 mar 2025, 06h00
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Trajetória de peso no audiovisual: Amir Labaki, curador, crítico, ex-diretor do MIS e fundador do É Tudo Verdade (Roberto Setton/Veja SP)
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Mais do que uma simples data, o aniversário de trinta anos de um evento de cultura no Brasil é um feito extraordinário. É o que defende o diretor fundador do É Tudo Verdade, Amir Labaki, 62.

Em três décadas de existência, o festival consolidou-se como um dos principais palcos do documentário brasileiro e internacional. A edição deste ano contribui para perpetuar o legado de ícones do cinema.

As sessões de abertura celebram a carreira de Rita Lee, com a pré-estreia do filme Ritas, de Oswaldo Santana (no dia 2 de abril, às 20h30, na Cinemateca), e de Marília Pêra, com Viva Marília, de Zelito Viana (no Rio, dia 3, às 20h30, no Estação NET Botafogo).

A programação gratuita segue até 13 de abril, simultaneamente em salas das duas cidades, com 85 produções de trinta países.

Um destaque é o Especial 30!, com três obras marcantes na história do evento: O Velho — A História de Luiz Carlos Prestes (1997), de Toni Venturi, e Noel Field — A Lenda de Um Espião (1996), do suíço Werner Schweizer, que foram os primeiros vencedores das mostras competitivas; e o clássico Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho.

Crítico de cinema, Labaki repassa a trajetória e faz uma análise do setor.

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Quais são os marcos do festival?

São centenas de memórias inesquecíveis. Já tivemos a presença de grandes documentaristas, como Frederick Wiseman, Marcel Ophüls e Robert Drew. Uma emoção imensa foi a sessão de abertura em 2015, com Últimas Conversas, o documentário póstumo de Eduardo Coutinho, finalizado por João Moreira Salles e Jordana Berg.

E as maiores conquistas?

O É Tudo Verdade ajudou a formar público e catalisar novos mecanismos de fomento no país. Quando fazemos a seleção hoje, é muito bacana perceber que o Brasil inteiro está fazendo documentário. É o mais antigo e mais tradicional festival do gênero na América Latina. Conquistamos reconhecimentos internacionais muito importantes, como o título de qualifying festival há quase dez anos para o Oscar de melhor documentário em longa e curta. Os vencedores do festival estão automaticamente classificados para concorrer ao prêmio. Também somos, há cinco anos, parceiros do Festival de Cannes, na organização do Cannes Doc.

O que foi essencial para o sucesso?

O que alimentava o meu otimismo e dos parceiros quando criamos o festival eram duas certezas: a primeira, de que existe uma tradição muito forte de documentário no Brasil; e a segunda, de que, em meados dos anos 90, o gênero vivia um novo vigor estético. Faltava uma janela nobre, para as pessoas verem essa produção. A recepção foi tão positiva que ficou claro que iria vingar.

Na sua carreira, que convívio teve com cineastas nos bastidores?

Na minha primeira gestão no MIS (de 1993 a 1995, a segunda foi de 2003 a 2005), a gente criou um programa dedicado a mostrar documentários brasileiros inéditos. Duas obras escolhidas foram O Fio da Memória (1991), do Eduardo Coutinho, e Conterrâneos Velhos de Guerra (1992), de Vladimir Carvalho. Almocei com os dois e o contraste entre as conversas me marcou muito. O Coutinho estava muito cético com a profissão no Brasil. Estava pensando em parar, falou que era dar murro em ponta de faca. Por outro lado, o Vladimir, sempre muito otimista, comentou que era muito difícil, mas que achava documentário uma coisa maravilhosa, que continuaria fazendo a vida inteira. O fato dos dois terem imensa dificuldade, apesar de serem consagrados, foi mais um dos fatores que me levou a pensar: talvez um festival específico seja o necessário.

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“O documentário venceu. Há quarenta anos, ele era quase invisível. Hoje, é motivo de interesse de todos nós. Nunca tantas pessoas viram e quiseram fazer obras do gênero”

Amir Labaki

O que mudou ao longo dos anos?

Quando começamos, exibíamos os filmes em VHS. Isso acabou. Por um lado, ajudou a democratizar o acesso à realização, mas não garante que haja um cinema mais criterioso. Do ponto de vista do mercado, ele se abriu mais. Havia uma certa resistência de distribuidores e exibidores, que passaram a reconhecer o vigor e a genialidade do documentário. O streaming também teve um impacto forte, mudando os hábitos de consumo. Infelizmente, as plataformas são muito conservadoras em seu gosto e privilegiam o true crime e as biografias de artistas.

Que perfil o documentário tem hoje?

Do ponto de vista estético, eu sempre acreditei e os trinta anos confirmaram: o documentário é mais surpreendente e variado do que o cinema de ficção. Deixou de ser um clube do Bolinha para ter uma presença muito forte das mulheres. Dos quinze longas brasileiros lançados pelo festival este ano, nove são dirigidos ou codirigidos por mulheres. Uma injustiça histórica está sendo ultrapassada. Isso também vale para povos originários e afro-brasileiros. A diversidade está se tornando a regra no documentário graças a novas vozes, que ajudaram a torná-lo mais complexo.

Como está a questão do fomento?

Foram várias ondas, de maior e menor incentivo. A batalha do reconhecimento está ganha, então, qual é o novo front para o documentário brasileiro? O da visibilidade. Nunca houve uma política pública para a distribuição e exibição em salas no Brasil. Uma das mais fortes escolas do gênero no mundo é a brasileira. Não é à toa que, nos últimos cinquenta anos, Eduardo Coutinho, João Moreira Salles, Petra Costa, José Padilha, Paulo Sacramento, Eliza Capai e mais conquistaram prêmios pelo mundo.

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Qual é o papel do marketing no sucesso das obras?

Não existe produção cinematográfica que não exija um empenho e financiamento de sua distribuição, publicidade e exibição profissionais para alcançar seu público potencial. Você pode fazer o melhor filme do mundo, ele não vai ter existência social e econômica se não tiver como mostrá-lo para as pessoas. O Ainda Estou Aqui, do Walter Salles, conquistou o público Brasil afora por que teve campanha bem estruturada. É uma exceção e merece ser estudado como estratégia de lançamento de obra autoral.

Há otimismo para mais trinta anos?

O documentário venceu. Há quarenta anos, ele era quase invisível. Hoje, é motivo de interesse de todos nós. Com isso, fica um pouco menos difícil enfrentar as novas batalhas, que são garantir em salas e em streaming o devido espaço para o documentário de criação. Há uma imensa riqueza. Nunca tantas pessoas viram e quiseram fazer obras do gênero.

Publicado em VEJA São Paulo de 28 de março de 2025, edição nº 2937

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