Harmonia Artificial e o preço do silêncio no escritório
Amy Gallo, autora de Getting Along e estrela do SXSW, 2026, mostra por que as conversas que evitamos no trabalho custam mais caro do que as que temos
Existe uma estatística que deveria estar emoldurada na parede de todo departamento de RH: 80% dos profissionais afirmam trabalhar com pelo menos um colega considerado difícil. Outra, ainda mais reveladora: pesquisadores de Rutgers demonstraram que equipes cujos membros se consideram amigos recebem avaliações de desempenho consistentemente superiores. A qualidade das relações interpessoais está ligada a 70% da variação entre as equipes de pior e melhor desempenho. A mensagem é clara: relacionamentos no trabalho não são perfumaria corporativa, são infraestrutura.
É exatamente nessa interseção entre ciência comportamental e realidade de escritório que se posiciona o livro Getting Along: How to Work with Anyone (Even Difficult People), de Amy Gallo, que chega em edição traduzida para o português, em breve, pela editora Rocco. O livro foi selecionado pela Fortune como leitura essencial daquele e acumula endossos de nomes como Daniel Goleman, Adam Grant, Daniel Pink e Amy Edmondson, nomes importantes da psicologia organizacional. Gallo , formada por Yale, é editora colaboradora da Harvard Business Review e esteve no último SXSW justamente falando sobre conversas difícies no trabalho. Ao subir no palco do maior evento de inovação e tecnologia, abriu sua fala com uma confissão desconcertante. Ela, a especialista em conversas difíceis, estava num Uber tarde da noite. O motorista dirigia de forma imprudente, cortando carros, provocando buzinas. E ela? Ficou em silêncio. Calculou o risco. Engoliu o desconforto. Não disse uma palavra.
Se até quem escreveu o manual sobre como falar o que precisa ser dito escolhe calar, o que esperar do restante de nós?
Esse é o paradoxo que define o ambiente corporativo contemporâneo. Somos treinados para colaborar, alinhar, engajar, mas quase nunca para confrontar. Cada conversa evitada se transforma em narrativa interna. Sem informação, o cérebro preenche lacunas e quase sempre com a pior versão possível. Gallo ilustrou isso com uma história que ouviu numa viagem a Perth, na Austrália: um homem dizendo ao colega que não conseguiu a promoção porque a vaga foi dada a uma mulher. Ele tinha certeza de que era discriminação reversa e talvez fosse. Mas talvez alguém simplesmente não tenha tido a coragem de lhe explicar os critérios reais. E, na ausência de transparência, a percepção de injustiça se torna fato consumado.
É aí que mora o perigo. Gallo apresentou um conceito que deveria estar na mesa de todo gestor brasileiro: a ideia de process fairness ou justiça processual. Pesquisas em ciência da gestão demonstram que, quando as pessoas percebem que o processo de uma decisão foi transparente e consistente, elas aceitam os resultados com muito mais facilidade, mesmo quando o resultado é adverso. Demissões, promoções negadas, redistribuição de responsabilidades, tudo se torna mais tolerável quando existe clareza sobre o porquê.
Gallo também nos presenteou com o conceito de harmonia artificial, aquela reunião em que todos acenam com a cabeça, sorriem, e na saída do elevador dizem o que realmente pensam. Patrick Lencioni chamou isso de uma das cinco grandes disfunções de uma equipe. A autora foi além: para ela, a harmonia artificial é corrosiva, sufoca inovação, alimenta ressentimentos e cria uma cultura que premia o silêncio em vez da voz. O antídoto? Segurança psicológica, conceito popularizado por Amy Edmondson, de Harvard. Mas aqui está o nó e esse é um dado que me pareceu especialmente relevante para o contexto brasileiro: pesquisas recentes publicadas na Harvard Business Review revelam que gestores intermediários, os famosos middle managers, são os profissionais com menor nível de segurança psicológica nas organizações. São eles que carregam o peso de inspirar equipes, gerenciar metas, cuidar da saúde mental dos times e, agora, também de dar os feedbacks difíceis. Se quem deveria construir a segurança psicológica não a tem, como esperar que ela se espalhe?
Não há fórmulas prontas, mas sim ferramentas que merecem atenção. Uma delas é o que Gallo chamou de “sanduíche de intenção” , uma alternativa ao famoso e ineficaz feedback sanduíche (elogio-crítica-elogio). No modelo tradicional, há o que ela chamou de “problema de simultaneidade”: profissionais confiantes só ouvem o elogio; profissionais inseguros só ouvem a crítica. Em vez disso, Gallo propõe abrir com a intenção (“dou esse feedback porque me importo com seu crescimento”), entregar a observação com o modelo Situação-Comportamento-Impacto, e fechar com uma segunda intenção, algo como “sei que essa não é sua intenção, mas este é o impacto que está acontecendo”. É uma manobra inteligente, porque preserva a identidade do outro. Quando a pessoa ainda se vê como alguém ético, ela acredita que pode mudar. Quando se sente atacada, se fecha.
Sobre regulação emocional, ela fez uma distinção que considero essencial e que frequentemente é mal compreendida: regulação não é supressão. Não é fingir que está tudo bem, o eterno “sorriso de crachá” que nossas organizações tanto cultivam. Regulação é estar presente na emoção sem ser sequestrado por ela. Ela trouxe três técnicas apoiadas por evidências: o autodistanciamento (falar de si em terceira pessoa para criar perspectiva), a viagem no tempo emocional (como me sentirei sobre isso daqui a um ano?) e o reenquadramento (que outras emoções estão presentes aqui além do medo?). São recursos simples, mas que exigem prática deliberada.
E aqui chegamos ao ponto que, para mim, foi o mais provocador da palestra inteira. Quando ela começou a falar sobre inteligência artificial, não foi para repetir o discurso usual sobre produtividade ou automação. Sua preocupação é outra: estamos começando a terceirizar para máquinas exatamente aquilo que nos conecta como seres humanos, a conversa imperfeita, o mal-entendido que se esclarece, o pedido de desculpas que nos aproxima. Num artigo que publicou recentemente na Harvard Business Review, ela mapeou os riscos de usar a IA como intermediária nos relacionamentos profissionais. Não porque a tecnologia seja ruim, ela mesma reconhece que a IA pode ser uma excelente ferramenta para praticar conversas difíceis mas porque, ao eliminar o atrito, eliminamos também a possibilidade de conexão.
Essa frase ficou comigo: “Se tentarmos criar uma experiência sem atrito no trabalho, vamos perder a conexão.” É nos mal-entendidos, nas recuperações desajeitadas, nos esclarecimentos e nos erros de interação que construímos vínculos reais. Uma conversa intermediada por IA pode ser mais fluida, mais eficiente, mais polida. Mas será menos humana. E o trabalho, queiram ou não, é feito por humanos.
Gallo contou ainda a história de um colega chamado Rosário que, depois de uma reunião em que ela estava sendo controladora, disse com todas as letras uma verdade incômoda sobre o tom dela. Ela não estava preparada para ouvir. Mas aquele feedback mudou sua postura profissional e, segundo ela mesma, até sua vida pessoal. O que tornou possível essa conversa? Confiança construída ao longo do tempo e a disposição de ser, nas palavras de Gallo, “feedbackável”, neologismo que carrego de Austin como um presente.
Ser feedbackável é, talvez, a competência mais subvalorizada do mundo corporativo. Não é sobre ser forte o suficiente para aguentar críticas. É sobre criar as condições para que as pessoas ao redor tenham coragem de dizer o que precisam dizer. É sobre trocar “você tem algum feedback?”, pergunta que ninguém responde honestamente por “que conselho você me daria?” , pergunta que todo mundo adora responder.
Com todos esses ensinamentos penso quanto do silêncio corporativo brasileiro tem nome: “jogo de cintura”, “jeitinho”, “clima bom”. São eufemismos sofisticados para o medo de dizer a verdade. E o preço é alto: decisões ruins que ninguém questiona, talentos que saem sem explicação, equipes que sorriem por fora e apodrecem por dentro.
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Amy Gallo tem razão: conversas difíceis não destroem relações. Na maioria das vezes, as fortalecem. O que destrói relações é o silêncio que finge ser harmonia. A bagunça é parte do processo. Abraçar essa bagunça não é fraqueza é a forma mais sofisticada de liderança que conheço.
Aguardem o lançamento de Getting Along, um livro sobre ver a humanidade no outro, inclusive no colega que nos tira do sério. E, talvez mais importante, sobre ver a humanidade em nós mesmos porque muitas vezes, sem perceber, somos nós o colega difícil.







