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Sabina Deweik é jornalista, futurista e caçadora de tendências. Ela dedica-se a rastrear, ler e digerir o futuro, conhecimento que divide em palestras, workshops, capacitações e em sua coluna todas as segundas-feiras

Brain skills: a vantagem humana quando a IA vira regra

Na era da automação inteligente, a verdadeira vantagem competitiva está no capital cerebral, que sustenta inovação, produtividade e prosperidade

Por Sabina Deweik
2 mar 2026, 08h00 •
Habilidades cognitivas: pensar criticamente quando o excesso de informação confunde
Habilidades cognitivas: pensar criticamente quando o excesso de informação confunde (Freepik/Divulgação)
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  • Vivemos um momento curioso da história. Nunca tivemos tanta tecnologia à disposição e nunca estivemos tão pressionados cognitivamente. A inteligência artificial deixou de ser tendência e passou a ser infraestrutura. Está nos e-mails, nos relatórios, nas apresentações, nas decisões estratégicas. Mas quanto mais a máquina ganha potência, mais evidente fica uma pergunta desconfortável: estamos fortalecendo o cérebro humano na mesma proporção?

    O relatório The Human Advantage: Stronger Brains in the Age of AI, do McKinsey Health Institute em parceria com o World Economic Forum, propõe uma mudança de eixo. A discussão não é apenas sobre tecnologia. É sobre capital cerebral ou o conjunto formado por saúde cerebral e brain skills como ativo econômico estratégico para empresas, governos e sociedades.

    Saúde cerebral é o ponto de partida: um estado de funcionamento ótimo do cérebro ao longo da vida, sustentado por prevenção e tratamento de transtornos mentais, neurológicos. Mas o relatório vai além. Ele afirma que saúde, sozinha, não basta. É preciso desenvolver as chamadas brain skills ou habilidades cognitivas, interpessoais, de autoliderança e letramento tecnológico que permitem que as pessoas se adaptem, colaborem e contribuam de forma significativa.

    O termo pode soar técnico, mas o conceito é profundamente humano. Brain skills não são “qualquer coisa que o cérebro faz”. São aquelas capacidades que entram em jogo quando não existe manual. É a diferença entre seguir uma receita conhecida e criar uma nova sob pressão. É pensar criticamente quando o excesso de informação confunde. É manter clareza emocional quando o contexto é instável. É saber usar a IA como aliada sem terceirizar o próprio julgamento.

    Num mundo onde a automação assume tarefas repetitivas, o valor migra para aquilo que não é facilmente automatizável: criatividade, discernimento, flexibilidade, empatia, capacidade de decisão em ambientes ambíguos. Segundo o relatório, quando empregadores são perguntados sobre as habilidades mais críticas hoje e no futuro, as brain skills aparecem sobrerrepresentadas. E há um dado que deveria acender um alerta estratégico: 59% dos trabalhadores deverão precisar de treinamento adicional até 2030 para acompanhar as novas demandas do mercado.

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    Há também uma dimensão cultural nessa conversa. Estamos vivendo uma era de sobrecarga cognitiva. Burnout, distração crônica, ansiedade difusa e polarização social são sintomas de um cérebro coletivo tensionado. A tecnologia avança, mas a capacidade humana de autorregulação, foco e presença não acompanha no mesmo ritmo. E sem essa base, nenhuma transformação digital se sustenta.

    O relatório sugere cinco frentes de ação: proteger a saúde cerebral ao longo da vida; desenvolver brain skills desde a infância até a maturidade; estudar e medir o capital cerebral; investir com instrumentos financeiros adequados; e mobilizar atores públicos e privados em torno de uma agenda comum. Traduzindo: tratar o cérebro como infraestrutura essencial.

    Para as empresas, isso exige abandonar a visão de que saúde mental é apenas um benefício corporativo e reconhecer o capital cerebral como parte central da estratégia de negócio. Para as escolas, implica formar jovens que não só executem tarefas, mas que desenvolvam pensamento crítico e capacidade de lidar com a complexidade. Já para líderes, envolve compreender que performance também passa pela gestão da energia mental, da clareza de raciocínio e do sentido que orienta decisões e equipes.

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    A ascensão da IA não diminui o humano. Ao contrário, redefine o que nele é mais valioso. Quando a máquina assume o previsível, o diferencial passa a ser o que fazemos diante do inesperado. A vantagem competitiva deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser cognitiva, emocional e relacional.

    Fortalecer brain skills é fortalecer nossa capacidade de imaginar, discernir e agir com responsabilidade em um mundo acelerado. E, nesse sentido, a pergunta que fica não é se devemos investir em inteligência artificial. É se estamos investindo, com a mesma seriedade, na inteligência humana?

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