Quando o amor não é o centro… e tudo bem
Individualidade, criação, descanso, estar consigo e silêncio: tudo isso também é amor
Durante muito tempo, nos ensinaram a organizar a vida em torno de um único eixo: o amor romântico. Como se ele fosse o centro gravitacional da existência adulta. E aqui estou falando, sobretudo, das mulheres que cresceram aprendendo que tudo deveria orbitar ali: decisões, mudanças, silêncios, concessões. Quando o amor ia bem, a vida parecia em ordem. Quando não ia, tudo desmoronava.
A organização social patriarcal: filmes, músicas, novelas, contos de fadas moldaram gerações inteiras até imprimir, quase na alma, a ideia de que “é impossível ser feliz sozinha”. E, mesmo depois de tantos avanços, estudos psicológicos, comportamentais e emocionais, quantas de nós ainda sentem dificuldade em assimilar que a vida é BEM maior do que isso?
Uma vida adulta saudável costuma ter múltiplos centros. Trabalho que faz sentido. Amizades que sustentam. Filhos, quando existem, que atravessam e transformam. Pais, mães, irmãos, tias, tios, primos. Há prazer na individualidade, na criação, no descanso, no estar consigo, no silêncio. Tudo isso também é amor, ainda que não venha embalado no formato romântico.
Quando o amor romântico ocupa sozinho o centro da vida, ele vira peso. Expectativa demais. Responsabilidade demais. E, muitas vezes, prisão. Não porque amar seja ruim, mas porque nenhum afeto deveria carregar sozinho a tarefa de nos preencher em todas as nossas necessidades emocionais, sociais, intelectuais e existenciais. Por que uma única pessoa precisaria dar conta de tudo? Por que alguém deveria nos acompanhar em todas as nossas paixões, interesses e desejos, mesmo quando não compartilha deles?
Essa lógica é profundamente cruel.
Nós, mulheres, crescemos ouvindo, ou aprendendo pelo exemplo, que o amor precisa ser prioridade absoluta, que tudo deve caber ao redor dele. E assim abrimos mão de tempo, ambição, descanso, curiosidade, prazer e, muitas vezes, de nós mesmas. Como se amar alguém exigisse desaparecer um pouco. Não exige!!!
Descentralizar o romance não é rejeitar o amor. É reposicioná-lo. É permitir que ele seja parte, e não eixo único. É deixar que o amor romântico conviva com outros amores: o das amizades, o da criação, o do corpo, o do trabalho, o da solitude. É entender que o afeto não precisa ser exclusivo para ser verdadeiro.
Há um tipo de liberdade silenciosa quando o amor não é o centro. Ele deixa de ser cobrança e passa a ser escolha. Deixa de ser urgência e vira presença. Não precisa salvar nada, nem ninguém. Apenas existir. E esse deslocamento nos permite respirar mais leve porque há algo profundamente libertador em saber que ser amada não exige desempenho, lista de tarefas ou sacrifício constante. Basta existir sendo quem se é.
Talvez amar melhor seja isso: não colocar o amor num altar, mas sentá-lo à mesa com o resto da vida. E descobrir que, quando o amor não é o centro, ele pode, finalmente, respirar… e nós também. E que a gente consiga se relacionar com o amor longe da lógica da posse e do pertencer.





