O que São Paulo deu e tirou de Duquesa
Cidade lhe deu palco, mas tirou a leveza e ela transformou tudo em rap
Escrevi essa ouvindo “Cartas pra mim mesma”, de Jeysa Ribeiro, que o mundo conhece como Duquesa, essa que segura o rap brasileiro nas costas com a mesma força e delicadeza de quem carrega memórias da Bahia. Conheci Duquesa em 2018, quando ela ainda era uma menina. O DDD dela é 75, Feira de Santana, Bahia. De lá pra cá, o resto é história.
São Paulo foi o ponto de virada da carreira musical dela. Foi aqui que os sonhos da garota de bermuda, tantas vezes chamada de “sapatão” com tom de crueldade, ganharam novos contornos. A cidade mostrou a ela que sempre existe um lugar, sempre existe uma tribo que acolhe. Ela poderia, sim, usar bermudas. “São Paulo me deu esperança. Se eu não continuasse na música, sei que com a publicidade poderia ter um emprego. Aqui eu encontrei pertencimento”, ela me confessou ao telefone.
Mas toda dádiva vem com cobrança. A mesma São Paulo que abriu caminhos também tirou algo essencial: o ânimo dos dias off. “Antes, meu descanso era ir a um bar, ver uma balada, sair com os amigos. Hoje, meu dia off é ficar em casa, ouvindo nada. Fazer nada virou o normal. E isso é assustador”, ela disse.
Dias atrás, quando retornou para Feira de Santana, ela abriu seu diário antigo de adolescente e achou o desejo escrito à caneta: gravar um EP.
São Paulo foi palco e labirinto, respiro curto e luz acesa. Aqui, fez da vulnerabilidade potência, ergueu futuro no presente e hoje inscreve seu nome na memória, no coração e na cabeça de quem a escuta no Brasil inteiro.
É esse paradoxo que Duquesa encara. Entre a esperança de futuro e o peso da exaustão, uma artista que transforma dores em rimas, que constrói futuro no presente, que nunca esquece de onde veio e que está criando uma nova estética para o rap brasileiro, onde vulnerabilidade e potência caminham juntas.
E talvez seja importante lembrar disso justamente hoje, no Dia das Crianças. Porque todo grande artista que conhecemos já foi criança um dia cheia de sonhos, medos e perguntas. A trajetória de Duquesa é prova viva de que sonhos não apenas resistem, mas podem se realizar, mesmo quando o mundo insiste em endurecer. Não deixemos que a dureza da vida mate aquilo que nos fazia acreditar quando éramos crianças. Cuidar dos sonhos é também uma forma de sobreviver e, às vezes, a única forma de viver.
E depois da mãe de Duquesa, a maior fã dela sou eu.





