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Trem-bala

Por Walcyr Carrasco
19 mar 2010, 18h26 • Atualizado em 5 dez 2016, 18h54
  • Estou no Japão. É a viagem dos sonhos de todo escritor: vim pesquisar temas para o meu próximo trabalho em televisão. Não é uma viagem superplanejada. Fico indo e vindo entre três cidades: Tóquio, Nagoya e Osaka. Assim, viajei várias vezes de trem-bala. Exatamente: o trem-bala cuja construção de uma linha entre São Paulo e Rio de Janeiro provoca tantos questionamentos e exercícios de matemática financeira.

    Viajei como simples passageiro, mala na mão. De Nagoya a Tóquio são 366 quilômetros, que o trem-bala percorre em uma hora e meia. Tudo tão fácil que até me assustei. A primeira surpresa foi na estação: havia trens saindo de dez em dez minutos, aproximadamente. Comprei a passagem na hora, sem precisar de reserva. Lugar marcado. Embarque rápido, sem o stress de um aeroporto. Nada de chegar quarenta minutos antes, entrar em fila para o check-in, passar pelo detector de metais e aguardar um bom tempo para o embarque. Viajei em dias de chuva e vento, quando certamente seriam suspensos os voos da ponte aérea. Dias em que o Aeroporto de Congonhas se transformaria em uma loucura com milhares de passageiros furiosos, sem previsão de embarque. O trem-bala é diferente simplesmente porque é trem! Na hora exata, fui até a plataforma e entrei diretamente no meu vagão. Sentei no meu lugar e pronto. Entre a chegada à estação e a partida, gastei, no máximo, meia hora! Melhor: os bancos têm pontos para conexão a cabo com a internet. Pode-se navegar no computador. Ou falar ao celular. Liguei o meu. O picotador de bilhetes pediu para que eu falasse na área de ligação com o próximo vagão, para não incomodar os outros viajantes. Pura delicadeza! Aliás, a figura do picotador vale um parêntese. Meu pai era ferroviário da rede Sorocabana. Na minha infância, eu sempre viajava de trem. O picotador do trembala me remeteu aos tempos de menino. A modernidade não eliminou a tradição. Nem a vaga de emprego.

    De tempos em tempos, uma garota passava vendendo salgadinhos, refrigerantes e café. Mal acreditei quando chegamos: já me esquecera de como pode ser fácil viajar, depois de sofrer tantas vezes na ponte aérea. E me perguntei: por que, afinal, São Paulo não tem ainda um trem-bala? Quantas pessoas moram em Campinas e trabalham na cidade? Quantas vão e vêm do Rio? Qual o tamanho do prejuízo de tantos atrasos e cancelamentos de voo? Muitas vezes, por exemplo, o plano de gravação de minha última novela, ‘Caras & Bocas’, foi alterado porque alguém do elenco ficara preso em Congonhas. Em um dia de caos, uma atriz demorou oito horas entre a chegada ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio, e seu endereço paulista!

    Quando escrevi a novela ‘O Cravo e a Rosa’, pesquisei sobre São Paulo nos anos 20. Descobri que nessa época a Light propôs-se a construir uma linha de metrô na cidade em troca de um acordo de exploração. Os políticos da ocasião foram contra! Gosto de imaginar como seria a cidade com metrô desde então e o número de linhas aumentando com o tempo. Talvez não tivéssemos derrubado tantos prédios lindos para construir avenidas. Nossa qualidade de vida sem dúvida seria melhor.

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    Quando houver trem-bala no trecho São Paulo-Rio, as pessoas vão viajar menos de avião, é óbvio! Se sua implantação demorou, suspeito que seja por contrariar interesses. Tomara que o projeto vá adiante, sem algum novo tropeço. Depois de viajar de trem-bala, só tenho uma certeza: ele já deveria estar funcionando há muito tempo. E quem perdeu até agora fomos nós, os passageiros.

     

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