Sesc SP: denúncias de assédio e sobrecarga surgem após morte de funcionário em unidade
Sesc nega denúncias de más condições de trabalho
A morte de um funcionário nas dependências do Sesc Pompeia no último fim de semana gerou mobilização e denúncias de abuso no ambiente de trabalho do Sesc São Paulo.
“Não podemos ignorar o contexto em que essa tragédia ocorreu”, afirmou uma nota de pesar elaborada por um coletivo anônimo de funcionários do Sesc.
“Quanto tempo o Sesc permanecerá em silêncio diante do sofrimento cotidiano de trabalhadores de todos os setores? Até quando seremos trados como peças substituíveis diante de uma engrenagem que não pode parar? Quantos empregados do Sesc-SP já se suicidaram? O adoecimento mental e emocional dentro do Sesc é uma realidade conhecida”, continuou a nota.
O coletivo cita como causas do adoecimento mental sobrecargas, assédios, pressão por resultados e retirada de direitos.
Nos comentários da publicação, ex-funcionários relataram condições semelhantes. Uma usuária do Instagram denunciou que foi demitida por “falta de comprometimento” ao retornar de um período em que estava com atestado por Covid-19. Ela também compartilhou que tinha crises de ansiedade no local de trabalho por conta de assédio moral de superiores. Outros ex-funcionários relataram gritos de superiores e acúmulo de funções.
Em nota enviada à Vejinha, o Sesc afirmou que a nota de pesar elaborada pelos trabalhadores não seria autêntica. “Não sabemos quem verdadeiramente compõe esse determinado grupo”, afirmou o documento, assinado por Luiz Galina, diretor do Sesc São Paulo.
Quanto à morte no Sesc Pompeia, o diretor afirmou que o funcionário deixou uma nota sobre sua mesa expondo os motivos do suicídio, e que essa carta não mencionaria as condições de trabalho.
“Em uma primeira análise descontextualizada de tudo o que deveria compô-la, um suicídio em ambiente de trabalho conduz à conclusão de que o ato significa uma resposta ou indignação envolvendo questões de trabalho. No entanto, na escala da verdade, a realidade se distancia dessa conclusão, já que nosso colega deixou sobre sua mesa de trabalho uma carta, expondo os motivos de sua decisão, isentando a todos de qualquer culpa, inexistindo uma palavra sequer sobre condições de trabalho”.
Sobre as condições de trabalho abusiva, a nota reforçou que existem canais oficiais para denúncia e que a ouvidoria do Sesc investiga e pune os casos, conforme eles são apresentados.
Confira a nota do Sesc completa
“O Sesc está em luto. Toda a nossa comunidade de funcionários e terceirizados está em luto!
A amplamente divulgada “Nota de Pesar e Luto”, que vem assinada pelo denominado “coletivo de trabalhadores e trabalhadoras do Sesc”, é, na verdade, apócrifa. Não sabemos quem verdadeiramente compõe esse denominado grupo.
Em uma primeira análise descontextualizada de tudo o que deveria compô-la, um suicídio em ambiente de trabalho conduz à conclusão de que o ato significa uma resposta ou indignação envolvendo questões de trabalho.
No entanto, na escala da verdade, a realidade se distancia dessa conclusão, já que nosso colega deixou sobre sua mesa de trabalho uma carta, expondo os motivos de sua decisão, isentando a todos de qualquer culpa, inexistindo uma palavra sequer sobre condições de trabalho.
Naquela noite, fomos orientados pelas autoridades policiais a não divulgarmos o ocorrido, para que as próprias autoridades pudessem conversar com a família, além de evitar qualquer tipo de tumulto. Estávamos com programação cultural em cartaz, tendo sido tudo cancelado, para que pudéssemos nos dedicar às providências necessárias à ocasião.
Não tratamos o colega como um número substituível. Demos toda a atenção e cuidados necessários à família e amigos.
O que lamentamos é que repentina perda de um querido, talentoso e competente colega seja utilizada para levantar as reivindicações desse grupo, cuja composição nos é desconhecida. A todos os casos de desrespeito que nos chegam por todos os canais disponíveis internos e externos, inclusive o de denúncia, por meio de nossa Ouvidoria, damos o devido cuidado e apuração com punições respectivas, quando assim julgamos devidas.
Estamos agora cuidando dos colegas da Unidade com equipe especializada em suicidologia. Pedimos que esse momento de luto seja respeitado.
Luiz Deoclecio Massaro Galina
Diretor Regional do Sesc São Paulo”
Confira dos trabalhadores do Sesc:
“NOTA DE PESAR E LUTO. Quando um trabalhador morre, de forma trágica, trabalhando, todos morremos um pouco com ele. Neste final de semana um colega tirou a própria vida dentro de um ambiente de trabalho, na unidade Sesc-Pompéia. Ainda não sabemos todos os detalhes de um fim tão violento e estarrecedor. Certamente nunca saberemos de tudo, pois suicídios envolvem múltiplos fatores. Mas, como trabalhadores desta instituição, não podemos ignorar o contexto em que essa tragédia ocorreu. O local onde aconteceu não é um dado menor e é profundamente simbólico: foi o ambiente de trabalho. O lugar onde passamos grande parte de nossas vidas, garantindo que “o show não pare”, foi também o cenário de um desfecho extremo. (…) Precisamos falar sobre omissões. Quanto tempo o Sesc permanecerá em silêncio diante do sofrimento cotidiano de trabalhadores de todos os setores? Até quando seremos trados como peças substituíveis diante de uma engrenagem que não pode parar? Quantos empregados do Sesc-SP já se suicidaram? O adoecimento mental e emocional dentro do Sesc é uma realidade conhecida. A sobrecarga, os assédios, a pressão por resultados, a retirada de direitos – como as mudanças no plano de saúde e as fusões compulsórias de cargos – e a ausência de políticas efetivas de cuidado ampliam a exaustão. Transtornos, ansiedade, medo, traumas e dores seguem sendo varridos para debaixo do tapete. Quando o trabalhador esgota suas estratégias individuais de sobrevivência e as instâncias coletivas não correspondem, o desfecho deixa de ser inesperado e passa a ser uma tragédia anunciada. A morte de Júlio Pompeo não pode ser tratada como um problema técnico. Ela nos interpela enquanto trabalhadores e interpela a instituição. Com tristeza e revolta, prestamos nossas condolências a seus familiares, amigos e colegas. Que nossas vidas não sejam ignoradas. Que nosso sofrimento não seja minimizado. Que o Sesc e seus dirigentes não se omitam diante de nossas dores. Que nossa saúde mental seja respeitada e cuidada. A INDIGNAÇÃO É NECESSÁRIA!”. Ass: Coletivo de trabalhadores e trabalhadoras do Sesc.







