Avatar do usuário logado
Usuário

Sem ritmo e com roteiro frouxo, “Amanhecer – Parte 1” é burocrático

Filme é apenas um aquecimento para o próximo episódio e deve emocionar apenas os fãs da série

Por Bruno Machado 18 nov 2011, 11h47 | Atualizado em 14 Maio 2024, 11h18

A fila que atravessava a praça de alimentação do Shopping Eldorado na noite desta quinta-feira (17) chamou a atenção de um grupo de meninas desavisadas.

“É a fila para a pré-estreia de ‘Amanhecer – Parte 1′”, informou uma outra garota em tom solene, com o convite em mãos.

+ “Amanhecer – Parte 1” estreia hoje; veja onde assistir

+ Os melhores filmes em cartaz

+ As estreias da semana

Continua após a publicidade

Na bilheteria, organizara-se uma verdadeira operação de guerra. Cada convite para assistir ao filme era trocado por uma pulseira que indicava em qual das diversas salas do complexo de cinema o espectador iria assistir ao filme. Os celulares rigorosamente recolhidos e os sacos de pipocas distribuídos aos montes não deixavam dúvidas: o lançamento de um novo filme da saga “Crepúsculo”, definitivamente, é um grande evento.

O clima dentro da sala, contudo, era outro, e diferente do esperado, os assentos não estavam todos preenchidos por pré-adolescentes histéricas. Havia casais, mães com filhas pequenas, famílias inteiras, idosos. À minha frente sentou-se uma senhora de cabelo platinado que, a julgar pelo vestido preto, dirigia-se a um baile de gala.

Entre os ruídos ansiosos de pipocas sendo mastigadas, os letreiros iniciais de “Amanhecer – Parte 1” ergueram-se contra um fundo vermelho na tela. O grande evento da noite vai começar. Surge o casamento entre o vampiro Edward Cullen (Robert Pattinson) e a mortal Bella Swan (Kristen Stewart).

A cerimônia obedece rigorosamente todos os clichês cinematográficos: os convidados recebem os convites – uns com alegria, outros com desagrado –, a noiva ansiosa perde-se entre a rotina de preparos. Se o filme começa com algum tônus narrativo, perde logo em seguida, em sequências excessivamente longas e diálogos insossos. O ritmo será mantido até o final da fita.

Continua após a publicidade

Segue-se a lua de mel do casal Cullen no Rio de Janeiro. Da cidade maravilhosa resta apenas o manjado estereótipo: as pessoas sambam, cantam e se beijam no meio de ruas coloridas contra a silhueta do Cristo Redentor projetada ao fundo. O romântico Edward livra sua amada da agitação do continente, levando-a até a afastada Ilha Esme (atrás de mim, comentam que o casal deveria ir, muito convenientemente, para Ilha Bela), onde finalmente, depois de três filmes, consumarão seu amor. É neste cenário que se revelam as preocupações de Bela – deitar-se com amado, mas não tornar-se uma vampira.

A primeira noite do casal é desastrosa: Edward quebra a cama no meio do sexo, e na manhã seguinte, culpa-se da violência com que possuiu sua recém-esposa. Cena de sexo? Filmes da “Sessão da Tarde” contêm mais sexo do que “Amanhecer – Parte 1”. Mas a primeira noite do casal rende um fruto. Não demora e Bella descobre estar grávida.

A gravidez da mocinha é o pretexto para que a complicada relação entre vampiros e lobisomens, já estremecida pelo casamento de Bella e Edward, piore de vez. Os caninos temem que o nascimento da criança, meio vampira, meio mortal, possa representar uma ameaça para eles. Jacob (Taylor Lautner), apaixonado por Bella, recusa-se a participar do plano de matar a amada.

As coisas complicam-se para a futura mãe: a criança se desenvolve muito mais rápido que o normal e, por ser filha de um vampiro, precisa se alimentar de sangue humano. A mamãe não se faz de rogada e devora vários bloody mary de vampiro de canudinho, entre gritinhos de nojo da plateia. Tanto o conflito de Jacob quanto o de Bella se desenrolam sem qualquer densidade. Mesmo o amor entre o casal parece desprovido de intensidade e, sobretudo, de química entre os atores.

Continua após a publicidade

Embora o filme faça pouco ou nenhum esforço para prender o espectador, a plateia, contudo, permanece receptiva. A intenção aqui é clara: os realizadores de “Amanhecer – Parte 1” dirigem-se diretamente aos fãs da série “Crepúsculo”. Mais de uma hora de filme se vai, entre poucos acontecimentos, num roteiro que avança com dificuldade. A ideia, no entanto, não é contar uma história, mas alongá-la ao máximo. Afinal, esta é apenas a primeira parte da extenuante história, que deve ganhar continuação apenas no final de 2012.

Por fim, os lobisomens decidem atacar a casa em que Bella se esconde até o fatídico parto. Enquanto os peludos são escorraçados pelos atléticos vampiros, nasce a filha do casal, Reneesmee – a soma dos nomes das mães do casal, Renee e Esme. Noutra sequencia sem qualquer impacto ou emoção, Bella sucumbe às dificuldades do delicado parto e acaba morrendo. Temporariamente, é claro.

Numa difícil decisão, Edward decide transformá-la num vampiro. Parttinson não convence no seu desespero em salvar a amada. Tampouco Kristen se esforça em parecer morta.

Alvo dos lobisomens, a criança fica a salvo. Jacob apaixona-se por ela instantaneamente (os lupinos preferem chamar o amor à primeira vista de ‘imprint’), o que impede que os demais possam feri-la. Paira, ainda, a dúvida: Bella sobreviverá ou não?

Continua após a publicidade

Em uma só sequência, a única realmente boa de todo o filme, surgem alterações físicas e lembranças da heroína até que seu debilitado corpo ganha vida novamente. A câmera fecha sobre o rosto de Bella e dois olhos vermelhos e vampirescos se abrem. Sobem os créditos. A plateia aplaude.

Morno, arrastado, sem clímax, “Amanhecer – Parte 1” mais parece um aquecimento para sua sequência. É apenas burocrático. Mas o público parece ter gostado e sai da sala satisfeito. Um rapaz fotografa o amigo, abraçado num display onde se vê Jacob, o lobisomem bonitão do filme.

Para os menos apressados, uma recompensa: entre os créditos finais, uma cena que mais parece uma paródia dos filmes dos vampiros dos anos 40. Os Volturi, inimigos do clã Cullen, recebem a notícia do nascimento de Reneesmee, mas não sem esbanjar um macarrônico sotaque europeu.

Levando-se excessivamente a sério, o filme beira o risível e, entre uma pipoca e outra, o público engole a história absurda, a música cafona e a montagem que muito bem poderia reduzir a fita a um curta-metragem, tamanha é a fragilidade do roteiro. Para quem estava na pré-estreia de “Amanhecer – Parte 1”, nada disso parece importar. Podem vir “Amanhecer – Parte 2”, ou quem sabe, “Entardecer”, “Anoitecer” e quaisquer outros livros e filmes sobre Edward e Bella. Insosso ou não, o casal entope salas de cinema, rende fortunas. Antes mesmo de estrear, até o momento, “Amanhecer – Parte 1” vendeu, somente no Brasil, mais de trezentos mil ingressos.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Revista em Casa + Digital Completo
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Completo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 39,99/mês