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“O muro é o principal inimigo da cidade e o símbolo da divisão”

Fundador da incorporadora Moby defende condomínios com menos muros e comércios que atendam os próprios moradores

Por Eduardo Andrade de Carvalho
24 jul 2020, 03h04 • Atualizado em 8 set 2025, 08h46
Muro Ipiranga (Raul Juste Lores)
Muralha em rua no bairro do Ipiranga (Raul Juste Lores/Veja SP)
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  • O muro é o principal inimigo da cidade. A cidade é um espaço para encontros — e o muro é o símbolo da divisão. Quer dizer: ele é divisão. É verdade que, mesmo com muros, as pessoas podem continuar se encontrando na cidade. Mas não é apenas esse encontro combinado, calculado, que faz com que a vida na cidade compense. É também — e talvez principalmente — o encontro que acontece por acaso que nos diverte e nos civiliza.

    Os muros dos grandes condomínios de São Paulo enclausuram grande parte da cidade em guetos, privando seus moradores do melhor que a experiência urbana pode oferecer: o encontro aleatório, casual, que acontece quando, por exemplo, duas pessoas se conhecem porque seus cachorros se simpatizam na calçada; quando alguém comenta sobre o tempo no balcão da padaria; quando um curioso se junta a um grupo que joga xadrez em mesa pública, ao ar livre. o grande condomínio murado suga essa energia do espaço urbano. As calçadas no seu entorno normalmente são desertas. Apesar de dentro da cidade, a rotina dos seus moradores está limitada a um estilo de subúrbio.

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    Com uma estrutura com dezenas de itens de lazer muitas vezes pouco aproveitados, grande parte dos condomínios-clube de São Paulo está inchada. Enquanto isso, a vida em seu entorno é raquítica. Meu sonho é que, para corrigir essa anomalia, a legislação de São Paulo estimule uma pequena cirurgia: que esses condomínios possam vender ou alugar lotes subutilizados dentro dos seus condomínios. o que hoje é um espaço sem uso, excludente, poderia com o tempo ter uma vida mais variada, mais interessante: com comércios e cafés que atendam os próprios moradores desses condomínios; com residências a preços mais baratos que a média atual do bairro em cima dessas mesmas lojas e cafés.

    Muralha em região do Paraíso

    O próprio condomínio poderia definir as regras para a ocupação desses lotes: altura permitida das edificações, tipos de uso etc., o que evitaria que a consequência fosse negativa para os seus moradores. É para ser positiva. Não é para ser também uma obrigação; seria apenas um estímulo, uma possibilidade. Em alguns lugares, por motivos diferentes, talvez não haja opção, e muros continuarão existindo. Mas não podemos permitir que eles continuem existindo onde há alternativas melhores: quando, mantendo a segurança dos seus moradores, seja viável uma solução que ofereça a eles conveniência, lazer, a renda desses lotes e — quem sabe? — uma possível valorização dos próprios imóveis desses condomínios.

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    A cidade ganharia muito. Quarteirões inteiros que são hoje perigosos e monótonos poderiam ser mais divertidos e mais seguros. Um café poderia ser ponto de encontro dos moradores, com mesas a céu aberto; uma pizzaria poderia atender a região; o chaveiro poderia montar um ponto mais perto dos seus clientes; um pet shop poderia tosar os cachorros do quarteirão; e esses serviços poderiam ser desfrutados a pé por quem mora no entorno.

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    Um empreendedor local poderia fazer um predinho de dois andares, com loja embaixo, com pequenos apartamentos ou escritórios para locação; alguém poderia fazer uma casa com portas e janelas para a rua. Essa nova oferta imobiliária — ao mesmo tempo que deve valorizar os apartamentos dos condomínios que antes eram murados — provavelmente diminuiria o preço de locação para esse tipo de comércio. A cidade moderna está passando hoje por um dos maiores desafios da sua história. Escrevo sobre a possibilidade de um novo café com mesas a céu aberto enquanto muitos comércios estão fechando para sempre. Disse que é um sonho que mais pessoas diferentes possam se encontrar por acaso num momento em que famílias e amigos estão há meses separados — e sem perspectivas claras de quando voltarão a conviver. Não sabemos qual será a consequência do que está acontecendo agora para o futuro da cidade. Não será pequena. Mas, seja qual for, é melhor que seja um futuro com menos muros — porque a alternativa é passarmos a eternidade num subúrbio em encontros pelo Zoom.

    Eduardo Andrade de Carvalho (ARQUIVO PESSOAL)
    (Arquivo Pessoal/Reprodução)
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    Eduardo Andrade de Carvalho é fundador da incorporadora Moby. Criou o Esquina, plataforma para debater urbanismo

    Publicado em VEJA SÃO PAULO de 29 de julho de 2020, edição nº 2697.

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