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“Não se transforma a sociedade do dia para a noite”, diz presidente do Instituto Olga Kos

Wolf Kos, fundador da ONG dedicada a indivíduos com deficiência e em vulnerabilidade social, fala sobre inclusão no mercado de trabalho

Por Luana Machado
3 jan 2025, 06h00 •
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Wolf Kos no escritório do instituto Olga Kos (Leo Martins/Veja SP)
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  • Em 2004, o engenheiro civil Wolf Kos, 73, fez uma promessa para a esposa: caso se recuperasse da infecção que o deixou hospitalizado por quase um ano, criaria um instituto em prol da inclusão de pessoas com deficiência e colocaria o nome dela, Olga Kos. “Durante esse período, nós assistimos muito à novela Páginas da Vida, que tinha uma menina com síndrome de Down. A ideia partiu disso e a Olga esteve comigo em toda a empreitada”, lembra o presidente do Instituto Olga Kos, que começou com oficinas de artes para turmas de nove pessoas.

    Hoje, prestes a completar dezoito anos, em abril, a ONG se desdobra em três áreas de atuação (cultura, esporte e pesquisa) para atender cerca de 6 500 pessoas na capital. “Nós prezamos pelo acolhimento. Acreditamos que a inclusão se faz quando colocamos como valor primeiro que todos são iguais. Por isso, ampliamos para a população em vulnerabilidade social”, afirma.

    O instituto comemora o primeiro Concerto do Bem, que reuniu 1 000 pessoas em uma grande apresentação em novembro passado, e aguarda a aprovação pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal de um selo nacional, inspirado em um projeto do IOK, em prol da inclusão no mercado de trabalho. Confira a entrevista a seguir.

    O instituto não realiza as atividades em uma sede, mas circula pelas regiões da cidade. O que motiva essa escolha em uma capital como São Paulo?

    Nosso segredo para conseguir atender 6 500 participantes é justamente irmos até as pessoas. Nós fazemos as oficinas nos CEUs e Fábricas de Cultura, além de outras instituições que acolhem PcDs.

    Como enxerga a evolução do debate sobre inclusão de pessoas com deficiência no Brasil desde a criação do Olga Kos, há quase dezoito anos?

    O último século foi de vitórias, mas não são rápidas. A Lei de Inclusão vem ganhando força. Um exemplo é a métrica Escala Cidadã, criada há um ano pelo Olga Kos, que mede a inclusão no ambiente de trabalho. Ela tramita na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania do Senado Federal como proposta para atualizar a Lei de Inclusão. Então, o debate tem se ampliado. Estamos criando metodologias e tentando entender como acolher as pessoas diversas.

    Como a escala funciona na prática?

    A pergunta que a gente faz é: como incluir uma pessoa negra, gorda, idosa, com deficiência intelectual e física, vulnerabilidade social e diversidade de gênero no ambiente de trabalho? São cinco variáveis: acessibilidade arquitetônica; atitudinal, ou seja, o acolhimento; comunicacional; metodológica, para transformar a inclusão em algo natural; e programática, que é fazer com que a pessoa se desenvolva dentro da empresa. É uma pesquisa seguida por uma entrevista que avalia o grau de entendimento das variáveis nos diversos setores da companhia. Há empresas, em especial as do mercado financeiro, que estão trabalhando bastante para serem certificadas. Mas é uma luta diuturna, não se transforma a sociedade do dia para a noite. São conquistas que teremos ao longo do tempo, assim como foi a Lei de Cotas.

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    A aprovação pelo Senado do Selo Nacional de Inclusão no Trabalho pode acelerar essa transformação?

    Sim, porque a proposta em tramitação é que o selo seja uma lei meritocrática e não punitiva. Então, se a empresa tiver a certificação, ela pontua mais para concorrências públicas e, para pagamento de financiamentos, pode ter taxas de juros mais palatáveis. Isso gera um interesse em obter o selo. E já existe um exemplo disso, o Banco do Brasil arbitra mais facilmente negócios inclusivos e com compromissos sociais. Esse tipo de política consolida a inclusão.

    Em outubro, vocês assinaram uma parceria com o Sesi-SP para capacitar os colaboradores para o atendimento de pessoas com deficiência. Pretendem ampliar essa atuação?

    Sim, já estamos conversando com outras empresas. No Sesi, está sendo um grande passo para o ensino inclusivo. Fizemos vários treinamentos, agora estamos realizando um com o setor de esporte e um EAD de inclusão geral. Isso vai se expandir facilmente em nível nacional. É muito importante falar sobre isso, porque não saber lidar com uma pessoa com deficiência gera exclusão. Então, temos que ampliar a presença deles em todos os lugares. A gente vê isso no Concerto do Bem, que teve apoio da prefeitura de São Paulo, no qual apresentamos orquestra e coro inteiro do Olga Kos. O evento reúne mais de 1 000 pessoas e mostra o potencial artístico deles. A mesma coisa com nossas corridas de rua, que engajam as pessoas em torno do esporte pela inclusão. A próxima corrida, que acontece no dia 23 de março, já conta com 21 000 inscritos. Isso representa a mudança da sociedade.

    O Olga capta muitos recursos através das leis de incentivo. É possível manter uma ONG no Brasil por meio delas?

    Elas são muito importantes para a gente. Temos o Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência (Pronas/PcD), as leis de incentivo ao Esporte e à Cultura. São essenciais, mas, além delas, ainda captamos doações diretas e emendas parlamentares, que são inteiramente transparentes, têm objetivo de criar políticas públicas e mantêm institutos sérios como o nosso, ou a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). O nosso diferencial é que nós atuamos na ponta, e nenhum governo, seja de esquerda, direita ou centro, consegue atender a todas as necessidades da sociedade. O terceiro setor está onde o governo muitas vezes não chega, ou complementando algum programa governamental. Nos CEUs, por exemplo, atuamos nos contraturnos das aulas regulares, o que mantém o jovem com atividades culturais e esportivas.

    Para 2025, o que o Instituto Olga Kos tem em vista?

    Agora, queremos ampliar nossa atuação em Brasília para 1 000 participantes e caminhar para em 2030 estarmos em todas as capitais do país. Em São Paulo, queremos desenvolver mais as áreas musicais e de dança. E fazer um grande concerto no final do ano.

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    Publicado em VEJA São Paulo de 3 de janeiro de 2025, edição nº 2925

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