Sem tabu: mulheres abrem o jogo sobre menopausa e combatem etarismo e desinformação

Figuras como Fernanda Lima, Claudia Raia e Paula Cohen mostram que ainda há muita vida após o climatério

Por Laura Pereira Lima e Vanessa Barone
7 mar 2025, 06h00
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Fernanda Lima faz sucesso com o podcast Zen Vergonha (Nina Jacobi/Veja SP)
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Embora faça parte da natureza do sexo feminino, o climatério foi, por muito tempo, um assunto particular, discutido, se tanto, entre médicos e pacientes, na intimidade de um consultório. Não era tema de vídeos, livros ou espetáculos teatrais. O termo, inclusive, ainda confunde muita gente, que não sabe que ele define a transição fisiológica do corpo feminino para a fase não reprodutiva. Esse período engloba a menopausa (fim da menstruação), palavra frequentemente usada para nomear a fase de desconfortos que muitas enfrentam na meia-idade.

Felizmente, menopausa e climatério já não soam mais como algo estranho. E as responsáveis por isso são mulheres famosas e anônimas que ampliaram a discussão e começaram a buscar alternativas para lidar com os desafios dessa etapa da vida. Falando abertamente de sintomas, físicos, mentais e emocionais, elas estão mostrando que não estão mais dispostas a viver isso tudo sozinhas e em silêncio.

Um levantamento feito pelo escritório de pesquisa de tendências digitais Timelens, nos últimos doze meses, comprova isso ao mostrar que a menopausa está entre os assuntos que mais despertaram interesse entre os brasileiros. O estudo, que levou em conta dados do Google Trends, das redes sociais, de fóruns e notícias veiculadas na web, apontou que as buscas pelo termo menopausa cresceram 42%. Quem mais pesquisou sobre o assunto foram mulheres (85%) na faixa dos 45 aos 54 anos (45%).

Mas nem é preciso recorrer aos números para saber que o envelhecimento feminino, em geral, e a menopausa, em particular, estão em alta no momento: basta observar o número de livros, vídeos, podcasts, produções cinematográficas e peças de teatro que vêm tratando o assunto com leveza e bom humor. Entre os exemplos estão o podcast Zen Vergonha, da apresentadora Fernanda Lima, e a peça Menopausa, estrelada por Claudia Raia nos palcos de Portugal. “Existe uma imposição de que a mulher só é válida enquanto reproduz. Isso é uma loucura”, comenta a atriz Paula Cohen, atualmente em cartaz com o espetáculo Finlândia, que expõe o desencontro de um casal em plena crise de meia-idade. Paula, que aos 50 anos entrou no climatério (veja no box abaixo), não está sozinha.

Segundo cálculos do IBGE, aproximadamente 30 milhões de mulheres no Brasil estão nessa fase da vida, ou seja, quase 8% da população feminina. E somente cerca de 238 000 foram diagnosticadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Por outro lado, de acordo com a Agência Senado, com informações da revista científica Climacteric, 82% das brasileiras entre 45 e 55 anos apresentam sintomas que comprometem sua qualidade de vida. Além do calorão, ou fogacho, muitas vivem sintomas como depressão, irritabilidade, falta de libido, ressecamento da pele, cansaço e névoa mental. Sensações que afetam diretamente a qualidade de vida, as relações interpessoais e até mesmo o desempenho profissional. É preciso, portanto, avançar nos cuidados com essa população.

O Ministério da Saúde informou, por meio de nota, que tem promovido ações para qualificar o cuidado às mulheres no climatério e na menopausa, investindo na capacitação dos profissionais. Atualmente, o tratamento no SUS inclui terapia hormonal (com indicação médica), mas há intenção de ampliar as opções terapêuticas. Há ainda práticas integrativas e complementares disponíveis, como fitoterapia, acupuntura, ioga e meditação. “A menopausa não é uma doença, mas adoece”, diz a ginecologista e obstetra Fabiane Berta (leia a entrevista abaixo).

VEJA SÃO PAULO ouviu sete mulheres que relatam como lidam com o climatério e a menopausa.

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(Nina Jacobi/Veja SP)
Paula Cohen, 50, atriz

Estou na perimenopausa. Percebi porque comecei a ter sono entrecortado, irritabilidade, queda de cabelo. Dormir é fundamental para mim. Como atriz, preciso estar com a cabeça boa, para decorar e, acima de tudo, poder estar presente. Comecei a fazer reposição hormonal, acompanhada por um médico, e os sintomas melhoraram. Mas é tudo um combo. Tenho cuidado mais da minha alimentação e isso tem me ajudado. A gente tem que viver o presente da melhor maneira possível. A menopausa não impede nada, pelo contrário. Vejo que tenho muita coisa para construir pela frente. É um absurdo uma sociedade que trata como tabu um processo natural. Quero viver este momento com muita lucidez e percepção porque tudo que acontece comigo é muito válido para as minhas produções. É bonito passar por isso em um momento em que estamos quebrando o tabu desta sociedade patriarcal que quer colocar a gente em caixinhas. Querem ditar o tamanho do nosso cabelo, qual tipo de roupa podemos usar. Eu posso tudo, estou em construção, não sou igual a ninguém, sou uma pessoa que está vivendo mais uma etapa da minha vida de transformação. E virão muitas outras.

 

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(Nina Jacobi/Veja SP)
Fernanda Lima, 47, modelo e apresentadora

Depois que entrei na menopausa tive insônia, irritabilidade, ressecamento, falta de libido, calorões, que foram os primeiros sintomas, névoa mental, esquecimento, apatia e vontade de reclusão, dificuldade em ambientes com barulho e com luz muito forte, ganho de peso, preguiça… Senti que, na minha vida íntima, ninguém sabia do que eu estava falando, nem meu marido, nem minhas amigas. Foi um momento muito solitário. Quando você tem muitos sintomas, como eu tive, fica entristecida, cansada. E tem que ir ao médico assim que eles começam a incomodar. É um absurdo esperarem a gente chegar na última menstruação para começarem a olhar para a mulher com alguma dignidade. Porque a mulher já está se arrastando, sem vontade de transar, com irritabilidade, ganhando um monte de peso sem conseguir perder, vendo seu metabolismo ficar preguiçoso… Os sinais estão todos ali. Hoje faço reposição hormonal, mas resisti durante muito tempo. Achava que não ia me fazer bem. Mas aí comecei a pesquisar, conversar com outras mulheres e médicos e entendi que não corro riscos. Somos invisibilizadas muitas vezes, mas principalmente nesse momento da vida. Acho que estamos em um momento único, em que a mulher dessa idade está sendo ouvida, tratada, estudada, respeitada, premiada. E acho muito bonito poder fazer parte desse momento da vida das mulheres. Para mim a menopausa foi o começo de um grande aprendizado que está me trazendo uma grande satisfação, que é poder ser também uma porta-voz disso. Poder falar do assunto com naturalidade e trocar com as pessoas sobre esse assunto.

 

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(Renam Christofoletti/Divulgação)
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Claudia Raia, 58, atriz

Quando fui acometida pela menopausa, não percebi. Meus filhos procuraram Jarbas (Homem de Mello, seu marido), dizendo: “Pelo amor de Deus, faz alguma coisa porque a gente não aguenta mais ela”. Já estava completamente desequilibrada. Com calores, dores nas pernas, tristeza. É uma coisa muito diferente do que eu sou, sou uma pessoa muito alegre. Estou há oito anos na menopausa, sendo que durante dois não estava porque engravidei. Tive todo o processo de gravidez e puerpério e aí voltei para a menopausa, que veio com força total. Nós somos criadas para não falar sobre isso, para não incomodar, já que a menopausa é igual a finitude. E aí, quando a gente chega no momento, não sabe o que fazer. Essa nova mulher de 50 é um mistério ainda até para os médicos. Ela ressurgiu das cinzas. Antes, uma mulher virava invisível aos 40, 45 anos e só ressurgia de novo aos 80, como uma velhinha fofa. Hoje ela traz um poder enorme para o país, inclusive socioeconômico, e nem os médicos sabem como agir. Tenho falado muito sobre isso, no Instagram e na minha peça Menopausa, que estreou em Portugal. A recepção ao espetáculo tem sido inacreditável. Nunca imaginei que fosse tocar tanto as pessoas, que através da arte a gente construísse um serviço público. As pessoas descobrem lá que estão na menopausa. É uma coisa impressionante. A peça tem tido uma quantidade de homens muito grande. Isso é muito importante, porque a menopausa não atinge só as mulheres; ela atinge o casamento, os filhos, o trabalho.

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(Nina Jacobi/Veja SP)
Solange Feliciano, 47, Consultora de Direitos Humanos

Aos 40 anos comecei a sentir os calores e a ter um problema de descalcificação na rótula do joelho, por causa da queda hormonal. Nós, mulheres negras, sentimos muito mais calor no climatério do que uma mulher não negra. Parecia que alguém ligava um fogo embaixo de mim. O que me incomodou mesmo foi a queda da libido. Meu casamento esfriou bastante naquela época, tanto que hoje em dia estou solteira. Também esquecia muitas coisas, esquecia palavras, sentia angústia, palpitação, irritação, chorava sem parar. Quando se trata de uma mulher negra, temos certos desafios e consequências na menopausa. Os sintomas são mais intensificados, as doenças associadas, também. E existe uma dificuldade em expor a menopausa e falar sobre ela por causa de um estereótipo racial, porque a mulher preta muitas vezes é vista pela sociedade com um viés de mulher forte. E isso dificulta a gente a colocar essa fragilidade, esse sintoma, para fora. O racismo estrutural também impacta no atendimento médico, porque muitas das nossas queixas não são levadas em conta, não são levadas a sério, por sermos mulheres fortes. E aí tem o racismo, acham que é só mais uma mulher negra reclamando. Na minha rede de apoio não se fala sobre menopausa. Outro dia eu estava falando com alguns parentes de 20 e poucos anos e, quando comentei como o climatério estava sendo difícil, eles viraram para mim e disseram: “É, tia, é o aquecimento global”. Ainda é um tabu, especialmente para as mulheres negras. Minha mãe fez tratamento hormonal e não contou para ninguém, tomava escondido, como se fosse algo errado.

 

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(Flavio Florido/Veja SP)
Lina Jennifer, 55, babá

Entrei na menopausa aos 52 anos, mas passei a ter os sintomas a partir dos 48. Começou com um calor periódico, mas, desde que entrei de vez, ficou insuportável. Tenho sofrido muito, suo frio, de repente, seca. Hoje eu não tenho libido. Fui procurar uma ginecologista no SUS e comentei que meu emocional estava muito mexido, que tinha muita vontade de chorar, que me sentia sozinha, irritada. Perguntei a ela se tinha algo que eu pudesse tomar, para melhorar. A única coisa que ela fez foi escrever uma carta me encaminhando para um psiquiatra. Fiquei chateada, porque eu precisava de um apoio. Não posso tomar hormônio, porque tenho um problema vascular. Parece que não tem saída, e ainda por cima não recebemos carinho, as pessoas não têm paciência, porque você fica chata, irritada. É como uma TPM. Mas a TPM é a cada mês. A menopausa é todo dia. Vou continuar indo atrás de atendimento, vou achar alguma coisa que possa me ajudar. Qualquer coisa. Todo mundo acha que, já que toda mulher passa por isso, temos que aguentar. A gente não tem que viver com isso, temos que achar uma forma de melhorar. Hoje eu tenho 55 anos, tenho o direito de viver bem. Quando você pode pagar um bom ginecologista, também pode ter acesso a bons medicamentos. Eu não posso, então tenho que tentar alguma forma de melhorar isso.

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(Nina Jacobi/Veja SP)
Lourdes Araújo, 49, massagista

Comecei a ter os primeiros sintomas da menopausa aos 38 anos. Tontura, palpitação, malestar e muito frio. Tanto frio que não conseguia tomar banho depois das 17 horas, pois ficava tremendo. Passei a ter dor de cabeça, dor nas costas. Eu falava para os médicos do SUS e me passavam teste de gravidez. No dia mais crítico, eu estava com tanta tontura que não conseguia andar, mas quando cheguei no médico ele disse: “Foi alguma coisa que você comeu e fez mal”. E não eram só sintomas físicos, também sentia muita irritação. Mas eu tinha muita coisa para fazer, porque meu esposo tem Alzheimer e meu filho tem uma síndrome rara e precisava da minha atenção. Ele também estava com depressão. Comecei a ter certeza de que eu ia morrer, achava que não ia conseguir criar meus filhos. Comecei a organizar minha vida como se eu fosse de fato morrer. Também não conseguia sair de casa, tudo parecia perto e longe ao mesmo tempo. Eu precisava de alguma coisa para melhorar os sintomas. Fui estudar, ler, e percebi que estava na menopausa, mas os médicos não acreditaram, porque eu era muito nova. Fui em vários médicos diferentes, e depois fiz reposição hormonal. Demorou um pouco porque não tinha recursos, mas, assim que fiz, os sintomas desapareceram, me senti outra pessoa. Voltei a dormir à noite, comecei a ter mais clareza. Ninguém tem que passar pelo que passei. O mais importante é ter conhecimento. Agora estão falando sobre isso, mas antes eu procurava na internet e não achava nada.

“Não somos loucas, somos hormonalmente complexas”, afirma médica

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(João Goulart/Veja SP)

Fabiane Berta, médica, ginecologista e obstetra formada pela Faculdade de Medicina da Santa Casa, responde a algumas das principais dúvidas sobre a menopausa.

Quais são os sintomas?

Existem entre 76 e 100 sintomas diferentes. Cada mulher tem sua singularidade, mas os principais são sempre os mesmos: fogachos, suores noturnos, depressão, disforia, dores no corpo. Também se fala muito de ressecamento íntimo, aumento de peso. Outros sintomas menos comuns são língua e boca secas, olho ressecado, mudança na composição capilar…

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Por que os sintomas mentais são menos discutidos na mídia?

Não fomos educadas sobre menopausa. A gente acha que é estresse, que é burnout. A mulher perde as expectativas dela para o futuro, para de ser ela mesma. Ela passa uma vida inteira sendo subserviente para outros, para uma maternidade, uma família, os amigos. E aí, quando entra na maturidade, quando os filhos já cresceram e ela está com estabilidade financeira, na plenitude, o corpo se dissocia da cabeça e começam as ideações suicidas, a depressão.

Qual é o papel da reposição hormonal?

Quando usamos com uma prescrição adequada, coerente e inteligente, é a melhor forma de predição e prevenção da saúde da menopausa. Os benefícios são, primeiro, mentais. Você melhora depressão, ansiedade e também pode ser uma prevenção do Alzheimer, segundo estudos recentes. Melhoram os fatores cardíacos porque ela tem uma ação dentro dos vasos e faz uma proteção autorreparo. Ela ajuda a aumentar a massa óssea em casos de osteoporose, melhora a composição de gordura da mulher.

Ela é contraindicada para alguém?

Não é recomendada para quem tem trombose, câncer de endométrio, câncer de mama. A terapia hormonal é evitada durante a doença e seu tratamento.

Reposição hormonal aumenta a chance de câncer?

Existe um mito de que hormônio dá câncer, o que já foi desmentido há muito tempo. O que dava câncer foi o que se usou há vinte anos, uma combinação de estrogênio derivado de urina de égua prenha com uma injeção química. Essa combinação não foi favorável. Não é o que a gente usa hoje.

Como é a oferta de reposição no SUS?

A disponibilidade de tratamentos específicos no SUS é limitada. A terapia hormonal não é amplamente oferecida na rede pública de saúde, e das diversas opções no mercado — transdérmicos, adesivos e pellets —, o SUS possui pouquíssimas, que na grande maioria das vezes não são as melhores. São hormônios mais antigos e de mais baixa qualidade, que não atendem a todas as necessidades das mulheres. Existem diferenças regionais: em São Paulo, a oferta é mais avançada, com mais variedade, mas não é a realidade de todos os postos do SUS. Existe um despreparo completo para a assistência da menopausa na saúde pública.

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Com quantos anos devo começar a me planejar para a menopausa?

A partir dos 40 anos.

Stylist Fernanda Lima: Rodrigo Grunfeld

Agradecimentos: De Goye, Yves Saint-Laurent, Sawara Joias e Flávia Madeira (Fernanda Lima); Iara Wisnik (Paula Cohen)

Publicado em VEJA São Paulo de 7 de março de 2025, edição nº2934

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