Conheça a Gomo Coop, novo mercado na Vila Buarque onde sócios trabalham para pagar menos
Neste modelo, os 370 cooperantes que já aderiram são, ao mesmo tempo, funcionários, donos e consumidores
“Nunca pensei que teria que estudar a temperatura ideal para estocar uma maçã”, conta o ator Chico Lima, que se juntou a outros 35 empreendedores para tirar uma ideia inovadora do papel.
Depois de estudar o modelo minuciosamente, levantar um capital do próprio bolso de 430 000 reais — que espera reaver em cinco anos — e arrecadar 100 000 reais via financiamento coletivo, o grupo inaugurou há menos de duas semanas o Gomo Coop, um mercado participativo na Vila Buarque em que cada membro é, ao mesmo tempo, dono, funcionário e cliente.
Funciona assim: cada novo participante compra uma cota-parte de 100 reais — devolvida caso a pessoa decida se desassociar — e se compromete a fazer um turno de três horas de trabalho voluntário a cada 28 dias, exercendo tarefas como repor os alimentos, operar o caixa e tirar o lixo. Em troca, tem acesso a produtos com preços reduzidos, possibilitados pela economia de gastos com equipe e pelo fato de o negócio não visar ao lucro.
Até o momento, embarcaram nessa ideia outras 370 pessoas, moradoras de diversas regiões da cidade — inclusive de municípios vizinhos, como Jundiaí — e que, além de trabalhar, fazem suas compras lá mesmo.
Por enquanto, a loja trabalha com dois preços, um para cooperados e outro para o público em geral, mas a ideia é que, no futuro, o consumo fique restrito aos colaboradores. Uma garrafa de 500 mililitros do azeite Andorinha, por exemplo, sai a 32,66 e 36,28 reais, respectivamente. Um pé de alface americana, por 4,73 e 5,25 reais.
Apesar de novidade por aqui, as cooperativas de consumo participativas já existem há bastante tempo. O modelo parece se sustentar. Inspiração para a Gomo Coop, a Park Slope Food Coop, criada em 1973 no Brooklyn, em Nova York, tem hoje mais de 17 000 membros.
Os preços mais baixos são um grande chamariz, mas o maior estímulo para os cooperados da Gomo é o senso de comunidade. “É um exercício de cidadania, participar da construção de um bem comum”, defende Chico, que é coordenador-geral da empreitada.
A possibilidade de conhecer pessoas foi o que atraiu Ligia Prado, professora aposentada de 73 anos. Mesmo com mais de 70 anos, idade em que o trabalho na cooperativa deixa de ser obrigatório, ela faz questão de colaborar nas tarefas. “Gosto de pensar que estou comprando, mas também contribuindo com algo coletivo”, conta Ligia, que também aprecia o fato de que o hortifrúti é todo orgânico.
Para os próximos turnos, ela tem um propósito: “Quero aprender a operar o caixa”.
Publicado em VEJA São Paulo de 16 de janeiro de 2025, edição nº2978





