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Apertaram o cinto

Confira a crônica da semana

Por Mário Viana 25 Maio 2018, 06h00 • Atualizado em 14 fev 2020, 16h03
Crônica Mário Viana
 (Attílio/Veja SP)
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  • A não ser que você só viaje no espaço nababesco de uma primeira classe, onde poltronas confortáveis se esticam feito camas e o espumante rola farto como água fresca, pegar um voo internacional hoje em dia é uma estadia no inferno. Com várias horas de duração, todas intermináveis.

    Há alguns anos, a jornalista Danuza Leão já tinha definido a classe econômica como um cortiço aéreo. na época, confesso, achei a definição esnobe. atualmente, penso que Danuza foi profética. É impossível manter a elegância tentando jantar, ler, assistir à TV ou cochilar numa cadeira que a associação dos faquires pigmeus chamaria de apertadíssima.

    A tristeza começa na hora de entrar no avião. Deve ser proposital: as companhias obrigam os passageiros do fundão a passar pelas classes chiques, onde passageiros privilegiados já degustam seu drinque de boas-vindas e fazem de tudo para evitar o olhar invejoso da turma do fundão. Depois de ver que há uma vida melhor e muito mais cara a bordo, você chega ao seu cafofo. Em vez de tacinha, encontra um cobertor e um travesseiro que não cabem em lugar nenhum.

    Seus companheiros de galés, digo, de viagem pelas próximas infinitas horas são uma incógnita. alguns ficam à vontade e consideram a cabine do avião uma extensão da própria casa. Por isso, espalham sacolas, maletas e objetos de formas indecifráveis ao longo de todos os bagageiros.

    Atiram-se na poltrona e já acionam o reclinador, mesmo com o avião ainda em terra (o que é proibido). Tiram os sapatos — sim, queridos, dá para sentir o chulé, não adianta — e conversam em voz alta sobre os mais variados assuntos, dando preferência às últimas compras da turnê. Exibir-se faz parte do jogo.

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    O serviço de bordo está a cada dia mais chinfrim. É bem verdade que um jantar aéreo nunca foi exatamente uma noitada nos Jardins, mas deveria haver um limite ético para a economia. Legumes grelhados frios, pastas esturricadas e carnes com gosto do mais puro isopor são as estrelas do cardápio. a bebida é servida com extrema parcimônia e o café dispensa comentários.

    O melhor mesmo é a simpatia da equipe de bordo. Desconfio que seja ordem superior: só se deve rir para passageiros da primeira classe. Os da executiva merecem um sorriso de Mona Lisa. aos coitados da econômica, um olhar seco, cortante feito aço e frio feito gelo. Comissário de bordo simpático no fundão leva advertência.

    Nem tudo é desgraça. Sempre dá para se divertir a bordo. Especialmente quando um passageiro se levanta para ir ao toalete bem na hora em que está sendo servida alguma refeição. E é impressionante como vários sempre escolhem esse momento. Vale a pena acompanhar a odisseia.

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    A expressão desse passageiro é quase uma poesia. Mistura doses de “tira esse carrinho do caminho que eu quero passar com meu aperto” e um toque de empáfia, na linha “paguei uma fortuna pela passagem, tenho direitos”. Os comissários de bordo são treinados para ignorar tais apelos dramáticos com solenidade olímpica. O apertado suspira, olha feio, quase cutuca — sem sucesso. Ultrapassar fronteiras virou um esporte muito radical.

     

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