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Antes só que mal fotografado

Leia a crônica da semana

Por Redação VEJA São Paulo Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
13 jan 2017, 16h52 •
(Ilustração: Attilio) (/)
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  • Por Mário Viana

    Tem acontecido com bastante frequência. A pessoa está sozinha na mesa do restaurante e o garçom traz o prato pedido. Antes de matar a fome, ela saca o celular, estica o braço e abre o sorriso superlotado de dentes. Faz a selfie, escolhe a foto e manda para as redes sociais. Só depois é que lembra que havia uma refeição à espera. Nunca, na história da humanidade, os pratos foram saboreados tão mornos.

    A selfie viralizou. Em qualquer lugar, quando você menos espera, algum amigo manda todo mundo se juntar, joga a mão lá longe e sapeca a foto. Para quem se atreve a enfrentar sozinho o desafio de uma mesa de bar ou restaurante, a autofoto cumpre a função de colocar o solitário no meio de uma multidão de amigos. Ou seguidores, conforme a rede escolhida.

    Particularmente, eu gosto muito de espiar quem tira foto sozinho. Analiso o cenário, adivinho o que a figura quer exibir e, por fim, concentro-me no sorriso. O sorriso da selfie é uma categoria à parte no mundo da alegria explicitada. Não é espontâneo, como a risada escancarada de felicidade. Mas também não pode ser amarelo, frouxo, um quase pedido de desculpa por estar ali, estrelando aquela foto.

    O sorriso da selfie é uma mescla de autoconfiança com vontade de dividir bons momentos com os amigos. Leva um toque sutil de arrogância (“Quem disse que eu não viria?”) e uma camada bem servida de exibicionismo (“Sim, sou eu mesmo neste restaurante caríssimo”). Ficaram para trás as frases de cartão-postal, do tipo “Você adoraria estar aqui”. Não, o combinado é justamente você não estar aqui, para não estragar a selfie perfeita.

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    Com a prática, algumas pessoas tornam-se verdadeiros craques da autofoto. Elas sabem o ângulo certo para posicionar o braço — sempre de cima para baixo, para não dar olheira nem escancarar a papada — e buscam a melhor luz para valorizar a imagem. O nobre objetivo da selfie é mostrar ao mundo que você está ótimo, de penteado novo e com um corpinho de sílfide.

    É claro que nem sempre a lente do celular entende isso. E a pessoa que se acha top model fica parecendo um clone do Jabba, o personagem gorducho de Star Wars. Ninguém aceita isso, nem o Jabba aceitaria. Dá-lhe buscar novo ângulo, nova luz, encolher a barriga, esticar o queixo, olhar com segundas intenções para a lente da câmera — e sorrir, como se o mundo fosse todinho seu.

    Lembre-se apenas que quem fotografa o que quer lê o que nem sempre quer. A cada imagem ao lado de uma refeição apetitosa, vai aparecer um frustrado dizendo que é por isso que você não emagrece. Se for foto em bar, ser chamado de cachaceiro é o mínimo. O protagonista da selfie precisa ser, antes de tudo, um forte.

    Bom-senso também cai bem na hora de postar uma selfie. É recomendável não exagerar na quantidade. Chega uma hora em que ninguém aguenta mais o seu sorriso escancarado por causa de um churro com chantili e chocolate granulado ou de um hambúrguer do tamanho de um novilho. Aliás, fazer carinha de espanto ao lado de qualquer prato também já deu.

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