Avatar do usuário logado
Usuário
OLÁ, Usuário
Ícone de fechar alerta de notificações
Avatar do usuário logado
Usuário

Usuário

email@usuario.com.br

Cristina Fibe: “Os feminicídios estão sendo cometidos à luz do dia”

Jornalista prepara coletânea de textos denunciando crimes contra mulheres e cobra responsabilidade da mídia, de figuras públicas e da sociedade

Por Laura Pereira Lima
9 jan 2026, 08h00 •
cristina-fibe
Cristina Fibe: “Não sabemos de onde vem o próximo tiro” (Mari França/Veja SP)
Continua após publicidade
  • A primeira vez que Cristina Fibe cobriu violência de gênero foi em 2018. Então editora no jornal O Globo, ela começou a investigar um famoso líder espiritual acusado de violentar sexualmente meninas e mulheres. Anos depois, a apuração culminou no livro João de Deus: o Abuso da Fé (Globo Livros; 240 págs.; R$ 79,90), publicado em 2021.

    Há sete anos, a jornalista escreve colunas e reportagens em que denuncia crimes contra mulheres e reivindica uma cobertura mais robusta e respeitosa na imprensa. Os textos que escreveu para o UOL e para a Amado Mundo serão compilados em uma coletânea a ser lançada pela Bazar do Tempo no primeiro semestre deste ano. “A ideia é juntar os textos para termos a dimensão do caráter estrutural dessas violências”, conta.

    O tema a acompanhou também em Silenciadas, podcast de setembro de 2025 em que aborda os bastidores da cobertura jornalística dos crimes contra as mulheres. Em meio à recente onda de mobilização contra o feminicídio, ela faz um alerta: “Estávamos em um período em que a mídia estava muito em cima desses casos brutais, mas a gente vê nas estatísticas que é o ano inteiro, é todo dia. E muitos não são mostrados”. À Vejinha, Fibe narra os ossos de seu ofício e comenta a recente polêmica sobre a crise da masculinidade e o movimento feminista.

    No último mês, uma discussão sobre a responsabilidade das mulheres na superação da crise da masculinidade causou um grande desconforto entre as feministas. Por quê?

    Várias pessoas vieram a público defender que as mulheres deveriam ensinar os homens a resolver essa crise, e apontaram que o discurso feminista não é convidativo para os homens. Mas foram eles mesmos que criaram o problema. Dizer que, quando reivindicamos o fim do abuso e da violência, estamos causando uma crise na masculinidade da qual a gente tem que cuidar é uma coisa absurda. Não cabe às mulheres encontrar esse novo papel para os homens, eles vão ter que se virar. Além disso, essa narrativa pode ser um fomento para o discurso de ódio contra as mulheres dos masculinistas e red pills, que também é alimentado pelo questionamento do discurso feminista. É um perigo dar um verniz intelectual a um discurso de ódio que pode ser usado por pessoas mal-intencionadas. Estamos extremamente machucadas, traumatizadas, sangrando pelas ruas. Não é o momento para vir cobrar do movimento feminista que passe a mão na cabeça dos homens.

    Há uma exigência de que o feminismo seja mais dócil?

    Exatamente. Historicamente, não temos a tradição que os homens têm de pegar em armas. Mas a exigência da docilidade, para mim, flerta com a tentativa de subjugar as mulheres. Ensinam a gente a ser dócil e é isso que está causando uma noção de impunidade enorme para os homens. Tanto que eles dão trinta socos em uma mulher dentro de um elevador, um anestesista estupra uma mulher em um hospital, outro entra em uma padaria para atirar na companheira. São crimes que estão sendo cometidos à luz do dia justamente porque ninguém está pegando em armas contra esses caras, eles estão passando impunes. Certamente não é com violência que a gente vai combater a violência, mas também não é falando mais baixo. Acho que a indignação, a coletividade, o falar umas com as outras, o denunciar e o expor são o caminho.

    Continua após a publicidade

    É possível um homem não ser machista?

    Todos nós, criados nessa sociedade, somos machistas. Somos ensinados desde muito cedo que as pessoas com mais poder e credibilidade são homens brancos. Acho que temos que ter consciência disso e lutar ativamente para tirar isso do nosso corpo. E, principalmente, não educar as crianças assim e não perpetuar essas violências. Agora, não são todos os homens que são misóginos. O machismo vem do estrutural, acostuma a gente a estereotipar cada papel, e daí ocorrem erros que acabam sendo violentos, como descredibilizar uma vítima, fazer vista grossa para abuso, não denunciar um homem, não apoiar uma mulher que denuncia… Mas a misoginia, que é o ódio à mulher, é algo de uma agressividade mais clara.

    “Estamos extremamente machucadas, traumatizadas. Não é o momento para vir cobrar do movimento feminista que passe a mão na cabeça dos homens”

    Como os homens podem se engajar na luta contra o machismo sem tomar para si o protagonismo?

    Com mais escuta e mais humildade, falando entre si, ajudando a espalhar a palavra. O que vemos hoje é muita conivência. Acho que esses homens poderiam sair desse lugar de conforto, admitir que há um desequilíbrio estrutural imenso e fazer atitudes simples, como parar de nos interromper, nos pagar o mesmo salário, de fato dividir os cuidados com os filhos e com a casa, não nos sobrecarregar, deixar que a gente também tenha momentos de lazer. E, se estiverem abertos para a escuta, eles têm à disposição um monte de material para aprender. Não acho que estamos nos opondo a ensinar. Eu, por exemplo, quando falo de violência contra a mulher, não estou só tentando dar voz às mulheres vítimas de violência, mas também mostrar o aspecto estrutural disso. Se os homens que não são violentos estivessem se indignando com isso, como eles se indignam e protegem os outros homens, já seria um primeiro passo.

    Continua após a publicidade

    A cobertura diária da violência contra a mulher afeta você emocionalmente?

    Afeta muito. Fico em carne viva. Mas entendi que seria um desconforto e um sofrimento maiores ficar fora desse tema. A melhor maneira que encontrei de lidar com essas violências foi falando sobre elas, dando voz às vítimas, apontando o dedo para o estrutural. Mas me faz sofrer muito e me coloca em um estado de ansiedade muito delicado. Eu sou atravessada pelas histórias que escuto e isso me abala. Mas não conseguiria cobrir esse tema se não me afetasse por ele, e acho que isso deixa o meu trabalho delicado e responsável.

    Quais erros a imprensa comete na cobertura de feminicídio?

    As mídias estão cheias de voz passiva, “mulher é assassinada”, “mulher é arrastada por carro”. Os homens nunca estão no centro da história, e isso causa um escape de responsabilização. Isso invisibiliza os homens que cometem essa violência, os protege, e joga a responsabilidade nas mulheres. Outra questão delicada é a exploração da imagem da violência e da imagem da mulher. É importante mostrar que as mulheres estão sofrendo violência para combatê-la, essas imagens circulam motivadas, em tese, pela indignação, mas servem à fetichização dos homens que são violentos. O cara que soca a mulher trinta vezes no elevador, por exemplo, não tem vergonha, porque a gente não vive numa sociedade que o deixa envergonhado. Quem tem vergonha é a mulher que sofreu. Depende do caso, mas como regra geral, acho que precisamos proteger mais as imagens das mulheres e expor mais as dos homens que cometeram a violência.

    Publicado em VEJA São Paulo de 9 de janeiro de 2026, edição nº2977

    Compartilhe essa matéria via:
    Publicidade

    Essa é uma matéria fechada para assinantes.
    Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

    Domine o fato. Confie na fonte.
    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas
    Impressa + Digital no App
    Impressa + Digital
    Impressa + Digital no App

    Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.

    Assinando Veja você recebe semanalmente Veja SP* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
    *Assinantes da cidade do SP

    A partir de 29,90/mês