“São Paulo não é a terra da garoa há muito tempo”, afirma o climatologista Carlos Nobre

Maior autoridade brasileira em estudos sobre mudanças climáticas, membro do Planetary Guardians e catedrático na USP, o cientista analisa as fortes chuvas em SP

Por Luana Machado
7 fev 2025, 06h00
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Nobre: estudos para criação de “esponja verde” em São Paulo (Leo Martins/Veja SP)
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Primeiro brasileiro a integrar o Planetary Guardians, coletivo global que reúne ativistas e cientistas pela saúde do planeta, o climatologista Carlos Nobre, 73, tomou posse em dezembro como titular da nova Cátedra Clima & Sustentabilidade da Universidade de São Paulo (USP), sediada no Instituto de Estudos Avançados, que pesquisa propostas de impacto social, econômico e cultural relacionadas à crise climática.

 

Um dos projetos liderados por ele — membro da equipe vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2007 por alertar sobre os riscos do aquecimento global, criador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e ex-secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação — estuda transformar a cidade em uma área urbana projetada para absorver a água da chuva, reduzindo o risco de enchentes.

“São Paulo, atualmente, tem pouquíssima vegetação. A prefeitura precisa entender esse desafio para tornar a cidade uma Singapura”, afirma. Confira a entrevista a seguir.

Em janeiro, São Paulo ficou abaixo do volume pluviométrico esperado, mas atingiu 65% do total de chuva projetada para o mês em dois dias. Essa imprevisibilidade é considerada normal para a estação?

As mudanças climáticas estão causando recordes de eventos extremos, como no dia 24, quando a cidade bateu o recorde de maior volume de chuva no período de uma hora. Os modelos de previsão de tempo conseguem prever as tendências de eventos extremos, mas não esses recordes.

No último ano, as chuvas intensas foram associadas aos efeitos do El Niño, que aquece as águas do Pacífico Equatorial. Agora, estamos na época do fenômeno inverso, o La Niña. Ele tem participação nesse cenário?

O Pacífico está ficando mais quente e, com isso, o El Niño fica mais forte. No registro histórico, os de 1993, 2016 e 2024 foram os mais intensos até agora. Antes, isso acontecia uma vez a cada vinte anos, agora vemos até dois em cada década. Porém, esse La Niña está bem fraquinho, então não vai causar uma grande seca na Amazônia, como em 2024. Em contrapartida, o Atlântico Norte está batendo recorde de temperatura, o que indica seca na região.

E por que estão mais comuns as chuvas intensas?

A cidade está mais quente que a Mata Atlântica ao lado, um fenômeno que chamamos de ilha de calor urbana. Então, o ar sobe rapidamente e leva o vapor d’água. Isso forma nuvens mais pesadas, chamadas cumulonimbus. Nas décadas de 30 e 40 não tinha um dia de chuva acima de 80 milímetros. Agora, a ocorrência delas até duas vezes por ano passou a ser normal. O aquecimento global também tem participação nisso, claro, porque torna esses eventos extremos mais comuns.

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São Paulo deixou de ser a terra da garoa?

Há muito tempo. Antes, a brisa marítima subia a Serra do Mar, e como na atmosfera a temperatura é mais baixa e a brisa carregava uma grande quantidade de umidade da evaporação dos oceanos, ela subia e condensava. Assim, formavam-se as gotículas, a garoa. Como São Paulo era muito menor e tinha mais vegetação, a garoa chegava em toda a cidade. Quando eu era criança, às duas da tarde era certa a sua chegada. Mas, com a expansão da urbanização, a cidade cresceu, ficou quente e a vegetação diminuiu. Por isso, o vapor d’água não consegue condensar na atmosfera. A realidade é que, depois da década de 80, São Paulo praticamente não teve mais garoa.

Os alertas são extremamente
necessários, mas as pessoas
precisam saber como proceder
quando eles chegarem

 

 

Quais são as medidas essenciais para mitigar os danos desses eventos?

Quando olhamos os efeitos da ilha de calor urbana, tanto as ondas de calor, que são o que mais leva à morte de idosos e bebês, como os eventos extremos de chuva acontecem em toda a Grande São Paulo. Então, as medidas de proteção, como alertas e retirada de pessoas de área de risco, têm que ser pensadas para toda essa área urbanizada. Os prefeitos dessas cidades precisam agir de forma integrada. E como é impossível impedir essas situações emergenciais amanhã, é necessário também capacitar as populações para os alertas.

A Defesa Civil inaugurou o alerta de chuva por telefone na última semana. Eles são eficazes?

Os alertas são extremamente necessários. Quando eu criei o Cemaden, em 2011, tentei negociar isso. Os Estados Unidos já faziam, por conta dos furacões. Mas não tive sucesso. Agora, felizmente, temos. Mas existe outra questão. As pessoas precisam saber como proceder quando o alerta chegar no celular. Por exemplo, moradores de áreas de risco, muito bem mapeadas pelo Cemaden, devem saber como se retirar. Há que melhorar muito a qualidade dos alertas, fazer uma parceria grande entre o Cemaden e todas as prefeituras e estados. Mas esse é o caminho.

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Em uma metrópole como São Paulo, qual a melhor opção para combater esse fenômeno?

Na USP estamos desenvolvendo um estudo para criar em São Paulo a esponja verde urbana. É uma grande restauração florestal, como foi feito em Singapura e em muitas cidades chinesas e europeias. A China não tinha vegetação quase nenhuma nas áreas urbanas, mas vem restaurando a área verde de muitas cidades nos últimos 25 anos. Assim, você consegue diminuir a temperatura máxima, cria um microclima embaixo das árvores e a floresta remove de 20% a 30% dos poluentes no ar. Além disso, com mais árvores, o solo consegue absorver a água e dificulta inundações, porque ela não corre para os rios.

Existem outras medidas urbanísticas que podem ser adotadas?

Temos também opções como a pavimentação com asfalto que permite a penetração da água. Outra é pintar os telhados de branco ou mesmo colocar vegetação neles. Com isso, grande parte da energia solar é usada para transpirar a água e diminuir a temperatura máxima.

Publicado em VEJA São Paulo de 7 de fevereiro de 2025, edição n° 2930

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