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Cantigas de arrepiar

Por Walcyr Carrasco
18 set 2009, 20h19 • Atualizado em 5 dez 2016, 19h44
  • Ando assustado com as cantigas infantis! O nenê está no berço, brincando com o chocalho. Mamãe canta com voz melosa: “Boi, boi, boi, boi da cara preta / Pega esse menino / Que tem medo de careta!”

    Eu não sei como o bebê não pula sobre as grades de susto! Mamãe está chamando um boi furioso para levá-lo? Comentei com um amigo, que revidou:

    – A criança não entende as palavras.

    Será? A certa altura começa a saber o que é mamãe, papai. Acabará descobrindo também a ameaça do boi malvado! Ou da Cuca, como em outra doce cantiga de ninar: “Dorme, nenê / Que a cuca vem pegar…”

    A Cuca é tão terrível que virou vilã de um livro de Monteiro Lobato. Em O Saci, a menina Narizinho é seqüestrada pela dita-cuja e salva depois de mil peripécias de seu primo Pedrinho. Na série de televisão, tornou-se personagem constante, sempre em guerra com os heróis do Sítio do Picapau Amarelo. No livro e na televisão, a Cuca sempre é derrotada. No berço, nunca! A mãe canta, canta, e a criancinha aterrorizada espera a malvada! Deve dormir de susto, coitada!

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    E as de roda? Há uma simplesmente horrenda: “Atirei o pau no gato-to / Mas o gato-to / Não morreu-reu-reu / Dona Chica-ca-ca / Admirou-se-se / Do berrô, do berrô / Que o gato deu / Miaaaau!”.

    Ao terminarem, as crianças se agacham, rindo. Do quê?, me pergunto. Acaso é engraçado ser cruel com um gato? Cantar o berro? Como se devesse ter perdido as sete vidas com a pancada? Qualquer associação de defesa dos animais concordaria com minha surpresa! Mais que isso: qualquer pessoa bem-intencionada!

    Na clássica Ciranda, Cirandinha, a certa altura vêm estes versos: “O anel que tu me deste / Era vidro e se quebrou / O amor que tu me tinhas / Era pouco e se acabou”.

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    É uma ode à rejeição. Também à intransigência. Ao comparar o afeto com vidro, dá a impressão de que os laços não podem ser refeitos. Acabou, acabou! Mas não é importante ensinar que é preciso preservar os sentimentos, perdoar as faltas alheias?

    Confesso: foi um leitor quem me abriu os olhos. Escreveu-me falando de sua experiência. Mora nos Estados Unidos e trabalha como baby-sitter. Começou a cantar Boi da Cara Preta para o menino da casa, e o pimpolho adorava! A mãe pediu para traduzir. Só então caiu em si. As cantigas americanas, segundo disse, são doces e repletas de ternura. Como explicar que estava chamando um boi bravo a uma americana capaz de processá-lo por tortura mental? Acabou sem contar o que dizia a canção. Surpreendeu-se:

    – Será que desde o começo não estamos ensinando a linguagem do medo?

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    Não preciso ser experto em pedagogia. Qualquer professor que entrasse em uma classe do maternal e ameaçasse os alunos com bichos furiosos ou monstros perderia as aulas. Muitas crianças seriam remetidas ao psicólogo para se recuperar do choque. Mães, pais, babás acham lindo chamar a Cuca! Não é uma contradição?

    Houve certa vez um movimento para mudar as letras. A reação foi de revolta por parte de quem acreditava que a tradição não podia ser mexida.

    Temo estar sendo radical. Mas, ao refletir sobre as cantigas, sinto um travo de inquietude. Surgiram há muito tempo, em uma época em que a educação se fazia com ameaças e castigos. Hoje tudo mudou. Crianças merecem cantar sonhos e felicidade. Para que crescer com medo de monstros, achar divertido atirar o pau no gato? Deixar que os pequenos espíritos infantis se quebrem como vidro? Quem sabe a capacidade de amar ficará para sempre comprometida.

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