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Onde canta o sabiá?

Por Matthew Shirts
27 set 2013, 16h54 • Atualizado em 5 dez 2016, 15h37
  • O canto dos sabiás-laranjeira anda dividindo as opiniões dos paulistanos e provocando polêmicas nas redes sociais. Não consigo pensar em outra coisa. Na minha rua há uma população ruidosa dessas aves. Começam a cantar por volta das 2 da madrugada. Prosseguem, firmes e fortes, por algumas horas,até eu sair da cama. Parece que é comigo. No meu quarto, no andar de cima do sobrado, à mesma altura das árvores, o som é flautado, quase triste e insistente.

    Já passou pela minha cabeça pedir aos passarinhos que esperem até raiar a luz do dia para começar a fazer barulho. O que não diriam os vizinhos? Não basta o gringo reclamar dos latidos e dos cocôs dos cachorros? Agora deu para falar mal dos sabiás?

    Trata-se do pássaro oficial do Brasil, do Estado de São Paulo e da Copa das Confederações, vencida há pouco pela seleção,afinal de contas. Não sabia, até a semana passada, com a publicação de uma reportagem no jornal Folha de S.Paulo, que os sabiás-laranjeira são polêmicos, também! Quem diria?

    Li um pouco a seu respeito. Descobri que são fortes. Adaptam-se a tudo desde que haja árvores e água. É o que basta. São nativos do Brasil, Bolívia, Uruguai, Paraguai e Argentina. Chegaram ao país uns 20 milhões de anos antes de nós. Da Europa. Pode-se dizer, sem medo de errar, que eles estavam aqui primeiro.

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    Seu trabalho, ao longo desses milhões de anos todos, tem sido criar os filhotes e espalhar a vegetação. Foram bem-sucedidos nos dois empreendimentos. O canto tem a finalidade de atrair as fêmeas e defender o território, um pouco como ocorre, entre humanos, com o rock’n’roll. Os machos são encarregados das aulas dos filhotes, também. Dão duro os machos, ao que parece. São essas aulas que a gente ouve de madrugada. O período letivo começa na primavera e vai até o verão. Está no comecinho. É melhor relaxar, aliás.

    O canto é individual. Nenhum é igual a outro. Uma música de sabiá costuma ter até dois minutos de duração e de dez a quinze notas, como acontecia com os Beatles no início. A fêmea também canta, mas, de acordo com os especialistas, numa frequência menor. Elas são mais discretas.

    O brasileiro festeja o sabiá há tempos na arte. O poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, elaborado em Portugal no ano de 1843, traz os versos definitivos: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; / As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”.

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    Em 1968, Chico Buarque canta o passarinho em outro clássico, este da MPB: “Sei que ainda vou voltar, para o meu lugar, / Foi lá e ainda é lá que eu hei de ouvir cantar uma sabiá”. Faço questão de frisar que o erro de gênero da palavra não é meu. É do Chico. Ele se explica em entrevista dizendo que sabiá no feminino foi uma licença poética do parceiro, Tom Jobim. E o que Jobim falar tá falado, como se sabe.

    Meu pequeno estudo na internet me levou a fechar com o passarinho. Não vou mais questioná-lo, muito menos reclamar. Tê-lo conosco aqui na cidade é um privilégio que poucas metrópoles têm. São Paulo não seria a mesma sem o canto do sabiá. Sobretudo depois das chuvas.

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